21Outubro2017

 

 

  

 

Segurança & Defesa

Portuguese English French German Italian Russian Spanish

Contra-Almirante Newton Calvoso Pinto Homem, Comandante da 2ª. Divisão da Esquadra

“Segurança & Defesa” entrevista o Contra-Almirante Newton Calvoso PINTO HOMEM, Comandante da 2ª. Divisão da Esquadra e que durante a Operação UNITAS foi Comandante do Grupo Tarefa do Brasil.

Ao lado Coletiva de imprensa em Rio Grande,  com a presença de todos os comandantes das forças participantes da UNITAS. Da esquerda para a direita: Capitão-de-Fragata Maurício Arenas Menares Comandante da Fragata Almirante Riveros (Chile), Capitão-de-Mar-e-Guerra Antonio Alfonseca Gutierrez de Velasco (Comandante do Grupo de Tarefa do México na Operação Unitas), Contra-Almirante Newton Calvoso Pinto Homem (Comandante do Grupo Tarefa do Brasil na Operação Unitas), Vice - Almirante Leonardo Puntel (Comandante do 5º Distrito Naval), Contra-Almirante Lisa Franchetti (Estados Unidos) e Capitão-de-Mar-e-Guerra Roberto Jimenez Torreblanca (Comandante de Fragata Quiñones, do Peru) (Foto:MB).

 

 

 


S&D — Qual o objetivo da Operação UNITAS?

CA PINTO HOMEM — As Operações UNITAS estão baseadas nos termos “Solidariedade e defesa” e têm como propósito gerar uma interação e uma interoperabilidade em toda a América, promovendo operações integradas, importantes na construção de uma coalizão entre as marinhas participantes.

S&D — Que países participaram da presente edição da Operação UNITAS?

CA PINTO HOMEM — Brasil, Estados Unidos, Chile, México, Peru e Reino Unido, com navios e/ou aeronaves; e Camarões, Equador, Guatemala, Honduras, Itália, Nigéria, República Dominicana e Senegal, como países observadores.

S&D — Qual a importância da Operação UNITAS para o Brasil e que vantagens/ensinamentos o referido exercício proporciona para a MB?

CA PINTO HOMEM — Trabalhar com outras Marinhas é sempre importante, pois garante maior adestramento dos militares, melhor aprestamento dos meios navais e a troca fundamental de experiências. Nessas ocasiões é possível compreender a forma como outro país trabalha, como ele dirige um exercício, reage a uma determinada situação, o que aumenta o nível de aprendizado. Operar com a Marinha dos Estados Unidos, como com as demais marinhas participantes, não é novidade para a Marinha do Brasil e esse relacionamento sempre se baseou no respeito mútuo e em fortes laços de amizade. Todos os exercícios, que são executados na fase de mar da Operação, ocorrem de forma a contribuir para a manutenção do nível de adestramento dos meios da Esquadra e para o incremento da cooperação e estreitamento dos laços de amizade entre a Marinha do Brasil e as demais Marinhas.

Ao lado CA Pinto Homem e seu estado-maior, aparecendo também dois oficiais americanos, um peruano e um major da FAB (Foto: MB).

S&D — Quanto tempo levou e como transcorreu a fase de planejamento de um evento desse vulto?

CA PINTO HOMEM — Antes mesmo da UNITAS 55 acabar, já começamos a planejar a versão 56. Foi quase um ano de planejamento, diversas reuniões, milhares de e-mails trocados entre os organizadores e os países envolvidos, ou seja, todos os esforços concentrados para que a Operação fosse executada da melhor forma possível. Nesta versão 56, além de cerca de 8.000 militares envolvidos diretamente, ao todo, reunimos 17 navios, um submarino, 51 aeronaves de asa fixa e 18 helicópteros, de seis países, que executaram mais de 36 exercícios.

S&D — Que navios intervieram no segmento “brasileiro” da UNITAS?

CA PINTO HOMEM — Pela Marinha do Brasil: Fragatas Liberal (F43, capitânia), Constituição (F42) e Greenhalgh (F46); Navios-Patrulha Gurupá (P46) e Benevente (P61); Navio-Patrulha Oceânico Apa (P121); Rebocadores de Alto-Mar Almirante Guillobel (R25) e Tritão (R21); e Submarino Tapajó (S33). Pela U. S. Navy: Navio-Aeródromo USS George Washington (CVN-73); Contratorpedeiro USS Chafee (DDG-90); e Navio de Apoio Logístico USS Big Horn (T-AO198). O Chile participou com a Fragata Almirante Riveros (FF18), o México com o Navio-Patrulha Oceânico Baja California (P161), o Peru com a Fragata Quiñones (FM58) e o Reino Unido com o Navio de Apoio Logístico Gold Rover (A271).

Ao lado A UNITAS é uma operação que propicia à Marinha do Brasil a oportunidade de operar em conjunto com Marinhas de outros países, permitindo, entre outras vantagens, o estreitamento dos laços de amizade e a padronização de procedimentos (Foto: MB).

S&D — Como transcorreu a prontificação desses meios? Em particular, quais as maiores dificuldades encontradas para que os navios estivessem aptos a participar ativamente?

CA PINTO HOMEM — A Marinha do Brasil promove uma constante manutenção de seus meios, deixando os navios aptos a participar de qualquer missão. Porém, a preparação de um navio não se restringe a seus equipamentos. Tão importante quanto essa manutenção é a busca constante pela manutenção do pessoal, que chamamos de adestramento. Assim, a dificuldade maior reside na correta divisão do tempo entre essas duas atividades essenciais, para melhor adestramento dos navios.

S&D — Durante muito tempo, a UNITAS tinha ênfase na Guerra A/S. E agora? Quais são os segmentos focalizados na Operação?

CA PINTO HOMEM — Há 58 anos, a Operação teve início com exercícios baseados nos aspectos de Guerra Naval Clássica. Atualmente, são realizados exercícios complexos de forças multinacionais, sob a égide da ONU. A fase de mar da Operação, que ocorreu entre os dias 16 e 23 de novembro, teve por ênfase a atuação de uma força naval multinacional cumprindo mandato do Conselho de Segurança da ONU, com a missão de proteger a paz. Nesse sentido, foram executados exercícios de caráter estritamente militar, concernentes às tarefas básicas do Poder Naval, contemplando ações de superfície, aérea, de guerra eletrônica, operações de interdição marítima, buscando a máxima coordenação entre distintas marinhas.

Ao lado A UNITAS-LVI contou com a participação do NAe USS George Washington, cujas aeronaves fizeram inclusive exercícios de combate aéreo com aviões da FAB (Foto: D.R. Carneiro).

 

S&D — Que meios aéreos foram empregados no segmento “brasileiro” da Operação pela MB e pelas demais marinhas envolvidas? Quais suas tarefas, e como transcorreu sua participação?

CA PINTO HOMEM — As aeronaves brasileiras foram: UH-12/13 Esquilo (HU-1); P-3AM Órion (1º/7GAv); P-95 Bandeirulha (3º/7ºGAv); A-1 (3º/10ºGAv, 1º/10ºGAv e 1º/16ºGAv); F-5EM (1º/4ºGAv, 1º/14GAv e 1ºGAvCaça); E AF-1A Skyhawk (VF-1). A Ala Aérea Embarcada no USS George Washington era composta de 30 F/A-18C Hornet e F/A-18E/F Super Hornet, três EA-18G Growler, três E2-C Hawkeye, dez MH-60R/S Seahawk e dois C-2 Greyhound — e contamos ainda com dois MH-60R embarcados no USS Chafee, um P-8A Poseidon da USN e dois KC-135 Stratotanker da USAF. O Peru participou com helicóptero AB412ASW e uma aeronave de patrulha marítima Fokker 60 MPA, o México com um AS565 Panther embarcado em seu NPa e o Chile com AS332SC Super Puma de sua Fragata.

O emprego das aeronaves obedeceu a rigoroso planejamento, diuturnamente acompanhado/atualizado, principalmente pela quantidade de meios envolvidos. Além do uso tradicional dos helicópteros e aviões de patrulha (o P-8 da USN, o Fokker 60 peruano e os P-3AM e P-95 da FAB), em missão de esclarecimento e ataque, este ano a presença do USS George Washington, com seus F-18 embarcados, permitiu a realização de combates aéreos com os A-1 e F-5 da FAB.

Esse combate simulado incluiu o denominado BVR (Beyond Visual Range), que consiste em um treinamento entre duas aeronaves de caça com mísseis lançados além do alcance visual dos pilotos. Este tipo de combate moderno substituiu a perseguição de uma aeronave à outra, quando o piloto precisava se posicionar atrás da aeronave inimiga para efetuar o disparo. Hoje, os mísseis são guiados pelos radares das aeronaves, que são informadas sobre a posição da aeronave inimiga por meio dos sensores.

Ao lado As três Fragatas brasileiras que participaram da UNITAS são vistas atracadas em Rio Grande (Foto: MB).

 

S&D — Foram feitos exercícios de tiro real? Quais armamentos foram empregados, contra quais alvos e quais os resultados obtidos?

CA PINTO HOMEM — Durante a UNITAS LVI -15 houve previsão de realização de exercícios tiro sobre alvo de superfície e tiro antiaéreo. Esses exercícios são conduzidos com os navios em formatura, com cerca de 1.000m de distância entre eles.

Nesses exercícios de tiro são utilizados alvos desenvolvidos para que os navios possam empregar seus canhões, de maior ou menor calibre, de modo a permitir a verificação da precisão do tiro e a prontidão dos diferentes navios participantes. No tiro de superfície o alvo é uma boia laranja, com dimensões de 2x2 metros, sobre a qual os navios, em formatura própria para isso, cumprirão procedimentos de um Grupo de Ação de Superfície (Surface Action Group–SAG), culminando com engajamento com seus canhões de maior calibre. No tiro antiaéreo, realizado no período noturno, o alvo empregado é uma Granada Iluminativa (GIL) que possui um brilho intenso e que dura alguns segundos. Os navios são posicionados em formatura específica, onde um navio lança a GIL para que os demais realizem o tiro sobre ela, empregando canhões de 40mm e metralhadoras. O objetivo dos exercícios de tiro é o adestramento de um Grupamento Operativo em ações de superfície e de defesa aeroespacial.

Ao lado Além da Fragata Quiñones, a Marina de Guerra del Perú também participou com uma aeronave Fokker 60 MPA, de patrulha marítima (Foto: Segurança & Defesa/V.D. Cavalcante).

 

S&D — De uma maneira geral, como o Sr. viu a participação dos navios brasileiros e em particular dos sistemas brasileiros instalados a bordo desses navios?

CA PINTO HOMEM — O Navio é um sistema complexo, que não se restringe à propulsão ou ao armamento instalado, sendo muito importante considerar o elemento humano. Desse modo, a participação do Brasil na UNITAS LVI LANT/2015 foi muito profícua, não só pela troca de experiências com outras marinhas, mas, tão importante quanto, pela oportunidade de avaliarmos o desempenho de nossos meios, aproveitando a possibilidade de contrastá-lo com o desempenho dos navios de outros países, alguns dos quais extremamente modernos. E esse balanço é muito favorável à MB. Foram realizados exercícios de elevada complexidade, os quais exigiram a máxima performance do nosso pessoal e dos nossos sistemas, com os nossos navios cumprindo funções primordiais para o atingimento do sucesso da missão. Portanto, como Comandante desse grupamento operativo, posso com tranquilidade dizer que estou satisfeito com os resultados alcançados. 

S&D — O Sr. foi comandante de um contratorpedeiro e agora é responsável por toda a força naval brasileira empenhada na UNITAS. Poderia discorrer um pouco sobre a diferença de tarefas desempenhadas, nas quais a experiência anterior tenha sido de ajuda?

CA PINTO HOMEM — A primeira diferença, e por isso a mais relevante, se dá no nível do planejamento da Operação. Quando se comanda um navio, suas preocupações se concentram, essencialmente, nos aspectos táticos, sejam eles dos domínios operacionais ou logísticos. Estes dizem respeito às condições para que seu navio esteja pronto para fazer-se ao mar e cumprir a missão que venha a receber. Aqueles têm relação com o emprego efetivo do meio, cumprindo a doutrina e os procedimentos em vigor, sem perder de vistas as oportunidades de, com o embasamento da sua formação, aplicar a criatividade em busca do princípio da surpresa. Para o comando de uma força no mar, o nível da análise sobe, exigindo que se deixe de concentrar as atenções, como se costuma dizer, “nas árvores”, para “se analisar a floresta”. Dessa forma, as dimensões de controle são ampliadas, como, por exemplo, quando e onde efetuar os reabastecimentos necessários da força; como conciliar os requisitos de segurança da própria força com as necessidades de exposição das unidades para o cumprimento da missão; ou quais as implicações das minhas decisões para os aspectos operacionais, estratégicos ou políticos dos comandos superiores. Porém, cabe ressaltar que, ainda que ao compararmos as duas situações de comando se perceba uma diferença muito grande, o processo de formação de um militar, em especial de um marinheiro, é contínuo, sendo que cada função, cada cargo que assumimos, um grande cabedal de conhecimento e experiências é acumulado, provendo-nos das ferramentas e dos embasamentos teórico e prático necessários ao bom desempenho no novo desafio. 

Ao lado Fragata Constituição e o Rebocador de Alto Mar Almirante Guillobel foram dois dos navios brasileiros que tomaram parte na Operação UNITAS-LVI (Foto: D.R. Carneiro).

 

S&D — Quais os maiores problemas enfrentados durante o segmento brasileiro da UNITAS?

CA PINTO HOMEM — O principal propósito da UNITAS é a interoperabilidade. Isso significa, de forma simplificada, que marinhas com idiomas, culturas e tradições diferentes operem com eficiência juntas. Para atingir o desejável nível de interoperabilidade, não bastam estabelecerem-se procedimentos comuns ou determinar o idioma que será usado, decisões relativamente fáceis. É necessário, também, que os sistemas de Comando e Controle sejam compatíveis e, principalmente, que o entendimento mútuo seja alcançado, pois é este que permitirá a compreensão das diferenças de cultura e tradições, elementos importantes para o desempenho conjunto. Portanto, o maior desafio foi o relacionado à busca do melhor nível de interoperabilidade, que começa no estabelecimento de circuitos estáveis de comunicações. Foi estimulante observar como o nível de interoperabilidade cresceu das primeiras horas de mar para o grande exercício final de uma força operando sob um mandato da ONU, quando, ainda que os procedimentos fossem comuns, havia a necessidade de considerar a peculiaridades de cada marinha para o desempenho das tarefas.

S&D — Além do que já foi perguntado, o que o Sr. gostaria de destacar?

CA PINTO HOMEM — Estar no mar é sempre uma alegria para o marinheiro. Essa alegria cresce exponencialmente quando essa oportunidade permite também para representar o seu País e sua Marinha frente às marinhas amigas. Também, releva mencionar que a Operação UNITAS, pelos números apresentados, é uma Operação de enorme complexidade e, ao termos o Brasil como anfitrião, resulta claro o elevado grau de credibilidade e o prestígio que nosso País e nossa Marinha gozam no âmbito da comunidade internacional. •

Ao lado A Armada de Chile se fez presente com a Fragata Almirante Riveros (Foto: D.R. Carneiro).