26Março2017

   
    

Segurança & Defesa

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A bordo do USS George Washington

No dia 18 de novembro, “Segurança & Defesa” esteve a bordo do Navio-Aeródromo americano USS George Washington (CVN-73), que está operando juntamente com outros navios da U. S. Navy e com unidades de outras Marinhas sul-americanas, no contexto da 56ª edição da Operação UNITAS. Esta é uma manobra naval multinacional realizada anualmente, e que está se processando em várias fases entre os dias 13 e 25 de novembro — nesse último segmento, com navios do Chile, Estados Unidos, México, Peru, Reino Unido e Brasil.


Acima
O USS George Washington é um dos dez navios-aeródromos da classe “Nimitz” (Foto: USN).

• Vinícius D. Cavalcante
(Fotos: Ricardo Pereira, salvo indicação em contrário)

O embarque para o Media Day se deu na Base Aérea do Galeão. Refletindo o caráter internacional da operação, encontravam-se estacionados no pátio, dois V-22 Osprey do U. S. Marine Corps e três aeronaves de patrulha marítima (um P-8 Poseidon da USN, um P-3AM Orion da FAB e um Fokker60 MPA da Marina de Guerra del Perú). Antes de embarcar, recebemos um briefing abordando a manobra naval, o NAe, sua componente aérea, e também a visita propriamente dita. O transporte para bordo foi feito num C-2A Greyhound, e o tempo de voo foi superior a duas horas, já que o George Washington se encontrava a cerca de 70km do litoral gaúcho.


Acima Dois C-2A Greyhound do esquadrão VCR-30 no pátio da Base Aérea do Galeão, pouco antes de decolar com destino ao USS George Washington.


Acima O caráter multinacional da UNITAS é ilustrado pela presença no Galeão desse Fokker 60 MPA peruano.

A grande maioria dos passageiros, tanto brasileiros quanto americanos, estava pousando num NAe pela primeira vez, o que só aumentou a expectativa. O C-2A praticamente não tem janelas, e seus assentos são voltados para trás. Em parte devido a isso, apesar do aviso dado poucos segundos antes do toque, o “tranco” do pouso vem de forma um tanto súbita. Entretanto, a desaceleração, embora bem forte, é amenizada, pois o corpo é empurrado contra o encosto do assento. A visão da rampa traseira da aeronave se abrindo, revelando a cena de bordo enquanto o avião taxia, é espetacular.


Acima Um dos dois V-22 Osprey do USMC, que se encontravam no pátio da Base Aérea do Galeão.


Acima O CMG Timothy Kuehhas, comandante do navio, dirige-se aos convidados e explica a importância da UNITAS.

Como seus nove irmãos da classe “Nimitz”, o USS George Washington tem 333m de comprimento, 40,8m de boca na linha d’água e convés de voo com largura máxima de 76m. Entretanto, seu deslocamento muito maior que os primeiros navios da classe (103.637t a plena carga, contra 74.086t do Nimitz), o que resulta num calado maior (11,9m). O navio é uma cidade flutuante, podendo acomodar até 5.000 tripulantes e 80 aeronaves, e é dotado de quatro catapultas para lançamento de aviões, sendo duas na proa e duas a meia nau. Seus dois reatores nucleares (que podem funcionar até por 20 anos sem reabastecimento) podem impulsioná-lo a velocidades de até 30 nós. Uma ideia do seu porte é dada pela superestrutura principal (a “ilha”), que de sua base até o topo do mastro tem 46m de altura. Da quilha até o topo do mastro, o navio tem 74m de altura, o equivalente a um prédio de aproximadamente 24 andares.


Acima F/A-18C Hornet do esquadrão VFA-34 sendo preparado para lançamento.


Acima Convoo e “Ilha” do CVN-73: a cor do colete de cada indivíduo revela em qual segmento de atividade ele está envolvido.


Acima A cor marrom do colete desses tripulantes, que estão trabalhando num EA-18G Growler revela que são mecânicos/especialistas.


Acima
Helicóptero MH-60R do esquadrão HSM-78 preparando-se para o pouso.


Acima MH-60S Knighthawk do esquadrão HSC-4 “Black Knights”.


Acima
Na mesma tomada, um EA-18G Growler (esquerda) e um F/A-18C Hornet. Observe-se as diferenças no formato das tomadas de ar, no número de pilones, nos equipamentos na ponta das asas e na ausência de canhão no Growler.


Acima Vista do Centro de Operações de Aeronaves, com destaque para o modelo do convoo (e, abaixo dele, do hangar) mostrando a posição de cada aeronave e o seu status.

O armamento para defesa aproximada é composto por dois lançadores óctuplos de mísseis antiaéreos RIM-7P Sea Sparrow, dois lançadores de mísseis antiaéreos RIM-116 RAM, três canhões Vulcan Phalanx de 20mm e várias metralhadoras que podem ser montadas em vários pontos, para enfrentamento de ameaças assimétricas, principalmente em áreas portuárias.
Uma vez no navio, seguimos para uma sala de recepção de visitantes e fomos apresentados à oficial de relações públicas, a Capitão-de-Corveta Lara Bollinger, que seria nossa cicerone por toda a visita, auxiliada por dois marinheiros nascidos no Brasil, que desempenharam a função de intérpretes. Em seguida, o Comandante do USS George Washington, Capitão-de-Mar-e-Guerra Timothy C. Kuehhas, veio conversar conosco. Elogiou o profissionalismo das tripulações dos diferentes navios envolvidos na operação e enfatizou que a UNITAS é importante para que se desenvolva uma capacidade de coordenação entre forças de diferentes nacionalidades, superando as eventuais dificuldades, de forma a que operem eficientemente conjunto. Esclareceu também que, quando retornar aos Estados Unidos o George Washington iniciará um período de reabastecimento e reparos, que deverá perdurar por dois anos. Os reatores receberão nova carga de combustível nuclear (o único reabastecimento durante a vida útil do navio), e serão executados reparos e atualizações em seus equipamentos. A ala aérea embarcada será remanejada para outros navios aeródromos da U. S. Navy.


Acima Vista da parte dianteira do convoo do CVN-73, destacando-se versões mono e biposto do Super Hornet.


Acima Com o gancho estendido, F/A-18C Hornet se aproxima-se para o pouso.


Acima F/A-18D Hornet biposto, do esquadrão VFA-2, com o gancho já enganchado no cabo de parada.

A bordo, acompanhamos o lançamento de aeronaves F/A-18E/F e F/A-18C. Mesmo tendo sido usada apenas uma catapulta, o intervalo entre os lançamentos foi surpreendentemente pequeno. O nível de ruído no convés é altíssimo, tornando obrigatório o uso de protetores auriculares e abafadores de ótima qualidade — a comunicação verbal, obviamente, é praticamente impossível. Pudemos perceber a excepcional coordenação dos efetivos que atuam no convés de voo, com cada função sendo diferenciada pela cor dos coletes. Os tripulantes com coletes amarelos são destacados especialmente para a operação da catapulta e dirigem a movimentação dos aviões; aqueles com coletes verdes prendem os aviões às catapultas e manuseiam os cabos de parada; os de colete roxo abastecem as aeronaves com combustível; os tripulantes de coletes azuis operam os elevadores, dirigem tratores de reboque, checam e colocam as aeronaves em posição; os que usam coletes vermelhos são responsáveis por armar e municiar as aeronaves, enquanto que os mecânicos/especialistas das aeronaves, ao checá-las na pista, usam coletes marrons. Há ainda elementos trajados com colete branco, que são diretamente encarregados da fiscalização da segurança das operações, incluindo a execução de inspeções finais nas aeronaves.
Conhecemos o Centro de Operações de Aeronaves— de onde se controla, entre outras atividades, a disposição dos aviões estacionados (espotagem) e sua movimentação, tanto no convés de voo quanto no hangar inferior — e o passadiço. Pudemos acompanhar também o recolhimento de aeronaves, vendo a aproximação dos dois modelos de F/A-18, seu toque no convés e a sua retenção pelo gancho de parada na cauda.


Acima A posição desse Hornet mostra a violência da desaceleração no momento do pouso.


Acima Uma ideia das dimensões do hangar é dada pela presença desse E-2C Hawkeye 2000.

No interior do hangar havia inúmeras aeronaves armazenadas e em manutenção, bem como grande quantidade de acessórios como tanques suplementares de combustível, pods de designação de alvos, de contramedidas eletrônicas e de reabastecimento em voo, além de embalagens de turbinas a jato. No local, pudemos conhecer dois dos oficiais de ligação da Força Aérea Brasileira que estavam embarcados no George Washington (dois oficiais americanos encontravam-se na Base Aérea de Canoas-RS). A presença desses oficiais de ligação estava ligada à participação da FAB na operação, seja através de aeronaves de patrulha ou de caças F-5EM, que fizeram treinamento de combate dissimilar contra os Hornet e Super Hornet da USN.


Acima A Contra-Almirante Lisa Franchetti, comandante do Carrier Strike Group Nine, recebeu em mãos várias edições de “Segurança & Defesa”.

Antes de retornarmos, ainda tivemos oportunidade de conhecer a Contra-Almirante Lisa Franchetti, comandante do Carrier Strike Group Nine, que estava acompanhada do Comandante da Carrier Air Wing 2 (CVW-2, Ala Aérea Embarcada 2), Capitão-de-Mar-e-Guerra Max G. McCoy. A CVW-2 é composta pelos esquadrões VFA-2 “Bounty Hunters” (F/A-18F Super Hornet), VFA-137 “Kestrels” (F/A-18E Super Hornet), VFA-192 “Golden Dragons” (F/A-18E Super Hornet), VFA-34 “Blue Blasters” (F/A-18C Hornet), HSC-4 “Black Knights” (MH-60S “Knighthawk”), HSM-78 “Blue Hawks” (MH-60R Seahawk), VAW-113 “Black Eagles” (E-2C Hawkeye 2000), VAQ-126 “Gauntlets” (EA-18G Growler) e pelo Destacamento 1 do esquadrão VRC-30 “Providers” (C-2A Greyhound). Em seu pronunciamento, a Almirante enfatizou o caráter de integração da UNITAS e o somatório de experiências positivas que isso acarreta para as forças sob seu comando. O CMG McCoy reportou os exercícios levados a cabo com esquadrões da Força Aérea Brasileira, inclusive com simulações de combate ar-superfície contra alvos navais e de combate aéreo dissimilar, como mencionado acima.
Já passava das 15:00h quando, equipados com colete salva-vidas e capacete, embarcamos no mesmo C-2A do EsquadrãoVRC-30, para o voo de volta ao Rio de Janeiro. A expectativa para a catapultagem foi grande, principalmente depois de termos assistido o lançamento dos caças, poucas horas antes. A aceleração experimentada (0-200km/h em cerca de dois segundos e meio) é difícil de descrever, com o corpo sendo violentamente lançado para fora do encosto do assento (lembrando que os assentos são voltados para trás), o que só é impedido pelo cinto se segurança. Essa sensação praticamente se emenda com a súbita diminuição da aceleração quando a aeronave se desliga da catapulta... mas, na verdade, o avião continua ganhando velocidade e subindo, impulsionado pelo seu poderoso conjunto propulsor e suas hélices de oito pás. Duas horas e meia depois pousamos no Galeão, recebendo então o certificado de “Honorary Tailhooker”, que certamente eternizará a aventura que a U.S. Navy tão gentilmente nos proporcionou. •

Abaixo A FAB também participou da UNITAS, principalmente com aeronaves F-5EM e P-3AM, como o da foto.