Acima
Caminhões dispersos no deserto, formando o perímetro
da área ocupada pela 364th Support Company, 3 de
março de 1991. Foto: Dean Wagner/DoD
A Logística constitui um sistema operacional com
o propósito de prever e prover recursos de toda ordem
que permitam a realização de campanhas militares.
Tal esforço ficou bastante evidenciado em um dos
mais recentes conflitos da Era Contemporânea: a Guerra
do Golfo.
Maj Cav Fábio Benvenutti Castro
O presente trabalho
tem por finalidade analisar o planejamento e a execução
do apoio logístico às operações,
particularmente as empreendidas pelos VII e XVIII Corpos
de Exército (C Ex) dos EUA, no nível estratégico-operacional,
durante o conflito no Golfo Pérsico, em 1991. Na
conclusão, serão caracterizadas as diferenças
doutrinárias entre os Exércitos dos Estados
Unidos e do Brasil, no tocante à missão e
à organização do Comando Logístico
do Teatro de Operações Terrestre (CLTOT) e
da Base Logística (Ba Log). Por considerarmos que
os leitores de S&D estão familiarizados com o
cenário que levou ao conflito, julgamos desnecessário
descrevê-lo.
Missão
e organização do CLTOT e das Ba Log
No nível estratégico-operacional, o apoio
logístico nos escalões superiores ao Corpo
de Exército no U. S. Army é exercido por um
comando de apoio logístico (Cmdo Log ou “SUPCOM”),
que opera diretamente ligado ao comandante do Teatro de
Operações (TO) e executa suas atividades de
apoio por meio de grupos de apoio de área (Area Support
Groups, ASG) multifuncionais ou especializados.
Ao
lado Um adequado apoio logístico foi
indispensável à consecução
dos objetivos almejados pelos Estados Unidos e seus
aliados na Guerra do Golfo. Foto: US DoD |
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Assim
que os EUA determinaram o deslocamento de tropas para a
região do Golfo Pérsico, foi organizado um
comando de apoio logístico, subordinado ao Comandante
do TO. Esse comando de apoio recebeu a denominação
de “22nd Support Command” (22nd SUPCOM), tendo
como comandante o Gen William Pagonis.
O 22nd SUPCOM era o responsável pela organização
de toda infra-estrutura que serviria de apoio às
forças aliadas no TO e possuía as seguintes
missões:
- ajustar, desenvolver e organizar o apoio logístico
fornecido pela nação anfitriã às
necessidades das forças aliadas;
- utilizar toda a infra-estrutura local para fornecer o
apoio logístico, desenvolvendo-a nas áreas
onde essa estrutura se apresentava carente;
- receber as forças aliadas destinadas ao Golfo Pérsico,
alojá-las, alimentá-las, e deslocá-las
para suas áreas de reunião, proporcionando
condições para que pudessem adaptar-se às
condições locais, visando ao combate;
- reduzir os encargos de efetivos militares necessários
por meio da contratação de mão-de-obra
civil;
- estruturar-se valendo-se dos militares recém-chegados
ao TO e meios fornecidos pela Arábia Saudita.
Como previsto doutrinariamente, o 22nd SUPCOM enquadrou
três grupos de apoio de área (ASG), os quais
tinham a responsabilidade de executar o apoio logístico
aos elementos subordinados quanto a suprimentos, serviços
de campanha e manutenção, bem como fornecer
apoio em transporte e em saúde. Paralelamente às
atividades logísticas, os ASG exerciam o encargo
de controle das operações de segurança
na área de retaguarda. Esses comandos não
possuíam organizações fixas e foram
estruturados de acordo com a missão e as necessidades.
Pode-se observar, no gráfico
“A Organização do Apoio Logístico”,
a organização do 22nd SUPCOM e de seus elementos
diretamente subordinados. Acrescentou-se, ainda, a estrutura
logística subordinada aos XVIII e VII Corpos de Exército,
buscando uma visualização mais completa da
estrutura logística no TO.
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Ao
lado A ofensiva
terrestre aliada foi tão rápida –
cerca de 100 horas – que muitas das planejadas
Bases Logísticas em território iraquiano
tornaram-se meros postos de troca de reboques. Foto:
DoD |
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Consolidada
a estrutura funcional do apoio logístico às
operações militares, o 22nd SUPCOM passou
à fase operacional de organização desse
apoio. O plano de apoio logístico às operações
foi concebido para ser realizado em seis fases definidas
no tempo e no espaço, com objetivos claramente estabelecidos:
- 1a Fase – preparação e pré-posicionamento;
- 2a Fase – deslocamento dos XVIII e VII Corpos de
Exército;
- 3a Fase – ofensiva terrestre;
- 4a Fase – defesa do Kuwait;
- 5a Fase – retorno da tropa;
- 6a Fase – reconstrução do Kuwait.
Com a missão de armazenar e fornecer continuamente
o suprimento necessário aos XVIII e VII C Ex, Bases
Logísticas foram desdobradas pelo 22nd SUPCOM, particularmente
ao longo das estradas principais de suprimento (EPS) Dodge
e Sultan (Veja gráfico
"EPS"). Esse artifício permitiu pré-posicionar
suprimentos e fornecê-los ininterruptamente aos escalões
envolvidos na operação, reduzindo a carência
da infra-estrutura viária da região. Assim,
o comando operacional pôde desdobrar seus numerosos
contingentes de maneira contínua, liberando-os da
necessidade de regular seus desdobramentos em profundidade
por limitações logísticas.
Conclui-se, parcialmente, que a missão e a organização
do CLTOT e das Ba Log foram frutos de um planejamento logístico
consoante à concepção das operações
táticas.
Veja
gráfico "A
Cadeia de Apoio Logístico"
Desdobramento
das Ba Log
À medida que os contingentes começaram a chegar
na Arábia Saudita, houve necessidade do estabelecimento
de Ba Log em seu apoio. Inicialmente, foram estabelecidas
Ba Log em torno do complexo aeroportuário de Dharan,
Ad Damman e Jubayl, com a missão de receber e processar
o ingresso no TO do XVIII C Ex, primeiro grande comando
a desdobrar-se em território saudita.
Assim que uma maior quantidade de meios foi ingressando
no TO, o 22nd SUPCOM desdobrou a Ba Log de Bastogne ao longo
da rodovia Dodge, enquanto que o XVIII C Ex, utilizando
o 1st COSCOM (Corps Support Command, ou Comando Logístico
de Corpo de Exército), desdobrava a Ba Log de Pulaski.
Em virtude do não arrefecimento da crise do Golfo,
o governo dos EUA determinou que o VII C Ex se deslocasse
de sua base, na Europa Ocidental, para o TO do Golfo Pérsico.
Essa decisão tornou impositiva a necessidade de se
aumentar a estrutura logística na Arábia Saudita.
Previa-se o deslocamento de grandes efetivos para o norte,
o que determinou o estabelecimento das Ba Log Alpha, Bravo
e Delta ao longo dos itinerários que seriam percorridos
pelos VII e XVII C Ex, balizados pelas EPS Dodge e Sultan.
Veja gráfico "Fluxo
de Suprimento"
Considerando a necessidade de pré-posicionar suprimentos
a fim de proporcionar as melhores condições
de apoio aos VII e XVIII C Ex, o 22nd SUPCOM estabeleceu,
respectivamente, as Ba Log ECHO e Charlie ao longo da EPS
Dodge. Devido às suas localizações,
próximas às Posições de Ataque
desses Grandes Comandos, viabilizou-se o apoio cerrado necessário
à execução da ofensiva.
A ofensiva planejada projetava Poder de Combate na retaguarda
profunda inimiga. Para consubstanciar o Apoio Logístico,
foi planejado o estabelecimento de Ba Log em profundidade,
que forneceriam o suprimento necessário às
forças atacantes, à medida que as ações
fossem realizadas. Desse modo, foram planejados o estabelecimento
das Ba Log provisórias Hotel, Golf, Oscar, Romeo
e November, todas localizadas em território iraquiano.
Muitas delas, em virtude da rapidez das operações,
converteram-se em meros postos de troca de reboques.
Em virtude da curta duração do combate terrestre,
aproximadamente de 100 horas, algumas dessas Ba Log planejadas
não foram totalmente estabelecidas, uma vez que a
situação deixou de exigir seu desdobramento
com os recursos e efetivos previstos. Outras, por sua vez,
sequer foram estabelecidas, como foi o caso das Ba Log Hotel
e Romeo. Tal fato proporcionou significativa vantagem tática,
pois aliviou a força de ataque do encargo do estabelecimento
de novas Ba Log.
Ainda nessa fase, uma incursão com a 101ª Divisão
Aeromóvel (101st Airborne Division) estabeleceu uma
base de operações avançada em território
iraquiano, que serviu, posteriormente, para o desdobramento
da Ba Log Cobra, com a finalidade de propiciar ações
de grande envergadura e rapidez.
Infere-se, portanto, que o estabelecimento das Ba Log garantiu,
com antecedência, os recursos para a concentração
inicial de meios e investida contra as forças iraquianas,
ratificando o planejamento e auferindo flexibilidade à
Logística.
Veja gráfico "Desdobramento
das Bases Logísticas"
Flexibilidade
do Ap Log
De acordo com o Manual de Campanha C 100-10 – Logística
Militar Terrestre, do Exército Brasileiro, flexibilidade
é “o princípio que permite a adoção
de soluções alternativas ante a possibilidade
de mudança de circunstância”.
Os efetivos e suprimentos, oriundos de diversos continentes,
foram transportados para o Golfo Pérsico por meios
aéreos e marítimos, com o objetivo de proporcionar
a maior quantidade possível de meios no TO em face
da agressão iraquiana. Navios pré-posicionados
funcionaram como depósitos flutuantes e continham
suprimentos necessários para apoiar a tropa até
que a cadeia de suprimento fosse estabelecida.
As diferentes concepções das operações
“Desert Shield” e “Desert Storm”
— defensiva e ofensiva, respectivamente — e
a chegada do VII C Ex exigiram que planejamentos logísticos
fossem adaptados de maneira que as ações decorrentes
implicassem em mudanças mínimas no transporte
e posicionamento dos recursos, já que haveria aumento
significativo de suprimento no interior do TO.
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Ao
lado M2A2 Bradley sendo reabastecido pelo 26th
Forward Support Battalion. Foto: Don Teft, DoD |
Diante
da dificuldade constatada em apoiar o movimento das tropas
para a fronteira do Iraque, ainda em território saudita,
previu-se e executou-se o pré-posicionamento de suprimentos
em Ba Log, conforme informações anteriores,
de modo a evitar interrupções nos deslocamentos
para as posições de ataque. Tal medida também
permitiu aos logísticos anteciparem-se à manobra
tática, quaisquer que fossem as direções
de ataque, em face da escassez de recursos e vias de transporte
na região.
Para aumentar a flexibilidade do apoio logístico,
foram executados alguns procedimentos, dentre os quais pode-se
destacar:
- o nível de estoque de munição e alimentação
foi aumentado de 30 para 60 dias;
- foram distribuídos equipamentos e programas computacionais
para as unidades da ativa e da reserva que já estavam
no teatro e para as que se dirigiam para o Golfo, facilitando
a troca de informações e agilizando procedimentos;
- o 22nd SUPCOM destacou elementos de operações
logísticas para a Cidade Militar Rei Khaled, mais
próxima das tropas ao longo da fronteira iraquiana,
visando ao melhor comando, controle e apoio cerrado;
- o transporte de suprimentos por helicópteros foi
largamente empregado no apoio à batalha terrestre,
antecipando-se, por diversas vezes, às tropas de
combate e permitindo o deslocamento ininterrupto do fluxo;
- o transporte de suprimento foi realizado durante as 24
horas do dia, contrariando a norma de executá-lo
preferencialmente à noite;
- a cadeia de apoio logístico operou em distâncias
muito superiores às previstas nos manuais, devido
ao avanço rápido das forças combatentes;
- devido à previsão de alto consumo e da urgência
de transporte de grandes volumes, foi decidido construir
a Linha de Oleodutos no Deserto (Pipe Line Over the Desert,
PLOD). Este oleoduto cobria a distância de 100 Km,
fornecendo 130.000 litros por hora;
- para simplificar e agilizar o reabastecimento, a munição
foi organizada em Conjuntos de Carga de Combate Configurada
(Combat-Configured Load Sets, CCLS), contendo quantidades
específicas de cada tipo de munição,
necessária para um determinado sistema de armas.
Assim sendo, verifica-se que a manobra logística
do 22nd SUPCOM atendeu ao princípio da flexibilidade,
por intermédio de medidas planejadas ou de contingência,
na previsão e provisão dos recursos às
operações táticas.
Mobilização
e emprego da logística civil
Foi constatado que os meios orgânicos dos EUA foram
insuficientes para o transporte das forças no TO
e que a infra-estrutura local carecia de recursos para atenuar
o esforço logístico pretendido. Tais óbices
geraram a necessidade de uma bem planejada mobilização
de meios materiais e pessoal. Foi estabelecida uma seção
de contratos, que elaborou o cadastramento de fornecedores
da região e formalizou a contratação
de empresas locais prestadoras de serviços.
No que se refere a transportes, o órgão responsável
foi a 318ª Agência de Transporte, que desdobrou-se
no TO em 20 de setembro de 1990 e foi auxiliada pelo 49º
Centro de Controle do Movimento (MCC). Firmaram-se contratos
com empresas comerciais locais e com o Sistema de Transporte
Público Saudita, por intermédio do sistema
de leasing, e com motoristas de diversas nacionalidades,
para auxiliar no transporte dos suprimentos e pessoal no
interior do TO.
O sistema de contratos deparou-se com diversos obstáculos.
A dificuldade de adaptação dos contratados
às normas militares; os problemas de comunicação
devido à diversidade de idiomas e o não-cumprimento,
pelas empresas, dos prazos firmados provocaram atrasos na
entrega de cargas e dificultaram a coordenação
e o controle, afetando o sistema logístico.
Tais problemas foram prontamente solucionados. Os motoristas
que falavam espanhol eram assistidos por militares norte-americanos
que dominavam esse idioma. Os outros eram auxiliados pela
utilização de mapas e esboços, além
de terem suas viaturas devidamente identificadas. Mais de
490 semáforos direcionais foram instalados para auxiliar
a engenharia de tráfego na missão de aumentar
a velocidade do fluxo do transporte. Esse benefício
foi possível devido a um convênio formalizado
entre o 49º MCC e as autoridades sauditas responsáveis
pelo controle do trânsito, garantindo mais eficiência
ao sistema de contratos.
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Ao
lado Um UH-60 Black Hawk, configurado para
evacuação aeromédica, é
reabastecido numa das Bases Logísticas. O combustível
era também vital para os meios aéreos.
Foto: DoD |
Durante
o conflito, os meios contratados participaram, ativamente,
do transporte de cerca de 1.700 viaturas com Suprimentos
Classes III e V e de, aproximadamente, 15.000 containers
pelas EPS, para satisfazer às necessidades do TO.
O transporte de pessoal foi realizado por meio de empresas
de ônibus locais contratadas. Foram utilizados cerca
de 1.700 ônibus civis para transportar efetivos militares,
percorrendo inicialmente as rotas balizadas pelas EPS Sultan
e Dodge e ligando locais de desembarques de tropas às
zonas de reunião dos XVIII e VII C Ex.
Para aumentar a eficiência da rede de estradas, foram
criados centros de apoio aos comboios ao longo das principais
EPS. Esses centros de apoio operavam 24 horas por dia e
possuíam várias facilidades como barracas
para descanso, latrinas, oficinas para reparação
de viaturas, estação de combustível
e até serviço de lanchonete. A instalação
desses pontos de apoio, operados em certas áreas
por prestadores de serviços civis, contribuiu para
diminuir o risco de acidentes e aumentar o conforto oferecido
aos motoristas, otimizando, assim, o sistema de transporte
pela significativa melhora do desempenho.
A contratação de empresas de aviação
civil, responsáveis pelo transporte de pessoal para
a região do conflito, foi realizada assim que foram
firmados os contratos nos EUA. Essas empresas não
somente transportaram pessoal, como também complementaram
o transporte de cargas, contribuindo para que concentração
estratégica fosse obtida em menor prazo.
Devido à complexidade dos materiais empregados pelas
forças aliadas, foram terceirizadas atividades de
manutenção em equipamentos de alta tecnologia
agregada, particularmente as revisões de 5º escalão.
Foram contratados empregados das fábricas fornecedoras
dos equipamentos, elevando-se a disponibilidade de helicópteros,
aviões e equipamentos eletrônicos, dentre outros
itens.
Apesar dos problemas levantados, a contratação
de meios civis foi fundamental para a execução
da logística, permitindo a economia de meios orgânicos
e efetivos militares. Tais recursos puderam, então,
ser empregados em áreas mais próximas da linha
de contato.
Apoio
da Nação Anfitriã
Era interesse do Governo saudita afastar o risco de uma
invasão iraquiana. Por esse motivo, as autoridades
daquele país proporcionaram às forças
estacionadas em seu território diversas formas de
apoio, que repercutiram nas atividades logísticas.
Dentre elas, podem ser citadas:
- apoio em comida, abrigo, transporte e água às
tropas estadunidenses;
- disponibilização de 3.000 leitos hospitalares;
- cessão de viaturas civis e motoristas para contratação
pelo “Host Nation Support” (HNS) e para que
se destinassem à complementação das
necessidades de transportes de pessoal suprimentos para
as áreas mais avançadas do TO;
- disponibilidade de asfalto, aço, concreto, cascalho,
materiais de construção e obstáculos
necessários a impedir o acesso das tropas iraquianas
à Arábia Saudita;
- intermediação nos processos de contratação
de firmas sauditas para os serviços de infra-estrutura
e no relacionamento com as empresas estadunidenses, prestadoras
de serviços necessários aos efetivos que chegavam
à área do conflito;
- suplementação de recursos financeiros em
face das limitações orçamentárias
impostas pelo Congresso dos EUA para a contratação
de serviços no decorrer das operações.
Dessa forma, fica evidenciada a importância da contribuição
da nação anfitriã para o sucesso das
operações das forças dos EUA.
Conclusão
e comparação
Os registros sobre a Guerra do Golfo, ocorrida no limiar
da Era da Informação, continuarão a
permitir que estudiosos tenham acesso a relatos precisos
de fatos que ocorreram desde a invasão do Kuwait
até a retirada das forças de coalizão
do território saudita. Os números referentes
a efetivos e meios empregados atingiram patamares que evidenciaram
a magnitude do conflito e do esforço logístico
necessário à consecução das
operações estratégico-operacionais.
O planejamento e a execução das atividades
logísticas, a partir de uma estrutura implementada
no território saudita; as condutas adotadas, à
medida que os óbices iam ocorrendo; e a capacidade
de adequação da doutrina às peculiaridades
do conflito conduziram a uma vitória esmagadora sobre
as forças iraquianas, surpreendidas pelo emprego
de forças com alto poder de letalidade e mobilidade.
A previsão e a provisão dos recursos para
tais efetivos ratificaram o determinismo do Sistema da Logística
no sucesso das operações.
A valorização da Logística foi fruto,
principalmente, da atuação das forças
dos EUA, que não limitaram esforços na otimização
do apoio às operações. Entretanto,
há de se considerar que não se tem notícias
de que os iraquianos tenham interferido em tal suporte logístico,
já que ações foram implementadas no
sentido de anular o poderio de sua força aérea
e quebrar o ciclo de seu processo decisório.
Nesse contexto, serão caracterizadas algumas diferenças
doutrinárias entre as Forças Terrestres dos
EUA e do Brasil. Antes, porém, vale ressaltar as
diferenças de potencial econômico dos dois
países e de concepção de emprego da
Expressão Militar do Poder Nacional. A dos EUA caracteriza-se
pela projeção de poder em qualquer lugar onde
os seus interesses estejam ameaçados, contrastando
com o que prescreve Constituição Federal do
Brasil, que estabelece, para o campo externo, a defesa da
Pátria.
Na Guerra do Golfo, as ações que garantiram
a concentração dos meios foram planejadas
e executadas com bastante antecedência, e somente
após concluídas deu-se início à
fase da ofensiva. Essa foi a missão do 22nd
SUPCOM, que implementou uma estrutura logística de
grandes proporções além-mar, em TO
inóspito e com recursos acanhados em face das necessidades
previstas para o completo desdobramento das forças
aliadas. No caso do Exército Brasileiro e segundo
a sua concepção de emprego, já deverá
haver uma estrutura, com base nas regiões militares,
desde o tempo de paz, que deverá evoluir para o CLTOT,
escalão equivalente ao 22º SUPCOM.
A estrutura organizacional implantada em território
árabe originou-se a partir de unidades recebidas
de outros comandos, localizadas dentro e fora dos EUA, com
apoio do país anfitrião e de várias
nações. O Brasil não visualiza tais
deslocamentos, exceto aqueles em seu território,
nem o emprego de mão de obra de outros países,
quer seja militar ou civil.
No Golfo, estabeleceu-se um escalão avançado
do 22nd SUPCOM. Não há previsão, no
caso brasileiro, de que se proceda da mesma forma quanto
ao CLTOT. Quanto às Ba Log, foram estabelecidas para
se pré-posicionar suprimentos, em apoio às
direções estratégicas, revelando-se
fundamentais no sistema logístico do 22nd SUPCOM.
Em território iraquiano, algumas das Ba Log planejadas
não foram instaladas devido ao curto espaço
de tempo das operações. Contudo, em outras,
realizaram-se também atividades logísticas
de saúde e manutenção, complementares
e de pequena amplitude. A Doutrina brasileira não
prevê Ba Log antecipando-se ao esforço de combate
do Exército em campanha. Entretanto, visualiza-se
o desdobramento de Postos Avançados de Suprimento
(P Avçd Sup) das Classes mais importantes às
operações em curso.
A Ba Log do Exército Brasileiro constitui um grande
comando Logístico capaz de enquadrar Organização
Militares Logísticas que existem desde o tempo de
paz, podendo, ainda, ser complementada pela mobilização
de recursos civis. Não se limita a localização
de suas instalações a áreas contíguas,
e sua amplitude de desdobramento dependerá da disponibilização
de recursos e da capacidade de comando e controle. As Ba
Log dos EUA foram áreas onde, predominantemente,
ocorreu o pré-posicionamento de recursos, coordenadas
por um Comando Logístico, ensejando compará-las,
mais adequadamente, com uma grande área de apoio
logístico.
No Exército Brasileiro, a Logística continua
relegada a um plano secundário, em que pesem a intensificação
do seu estudo nas escolas e a criação do COLOG,
à luz da nova Organização Básica
do Exército (OBE). Na maioria das vezes, as operações
logísticas e as manobras táticas são
concebidas e estudadas separadamente, pouco se atentando
para as implicações daquelas ações
sobre estas e vice-versa. Ademais, a mobilização
e concentração de meios, em face das hipóteses
de emprego da Força, ainda suscitam dúvidas
ou parecem estranhas para grande parcela da oficialidade.
Integrar a Logística ao planejamento e à execução
das manobras nos diversos níveis de comando, desde
o tempo de paz, é ter aprendido lições
de História Militar que foram ressaltadas de forma
significativa na Guerra do Golfo.