Acima
O Bell AH-1F, versão do HueyCobra que está sendo oferecida à Argentina. Esse helicóptero é dotado de Head-Up Display para o piloto, telêmetro laser e rastreador laser, otimizando o emprego do míssil anticarro TOW. (Foto: Bell)

O aparecimento dos helicópteros de ataque revolucionou muitos aspectos do combate terrestre. O texto que se segue, além de cobrir em rápidas pinceladas a evolução desse tipo de aeronave, busca dar uma idéia ao leitor das características e capacidade dos principais modelos disponíveis no mercado.

Mário Roberto Vaz Carneiro

Os franceses foram os primeiros a armar helicópteros e utilizá-los para ataques a alvos terrestres, o que aconteceu na campanha da Argélia. Mas foi a Guerra do Vietnã — na qual os Estados Unidos perderam em combate 2.281 helicópteros — a grande mola impulsionadora do desenvolvimento dos helicópteros de ataque. Naquele conflito, os Estados Unidos empregaram helicópteros de transporte em grande quantidade, e a necessidade de protegê-los, durante os pousos de assalto e a posterior extração das tropas, era óbvia. Os jatos de combate eram rápidos demais para isso, e logo se tornou claro que a melhor opção eram helicópteros armados.
Isso levou inicialmente à adaptação de armamento (principalmente metralhadoras em reparos fixos e móveis, e casulos de foguetes) em vários modelos de helicópteros de transporte. Posteriormente, alguns Bell UH-1B foram armados com mísseis anticarro TOW, conseguindo excelentes resultados contra blindados norte-vietnamitas. Apesar desses sucessos, estava clara a necessidade de uma aeronave de asa rotativa especificamente projetada para ataque ao solo — e depressa.
Para apressar o desenvolvimento de um helicóptero do tipo desejado, a Bell Helicopters baseou-se na célula do UH-1B, adotando uma nova fuselagem para o seu Model 209 HueyCobra. Esse foi o primeiro helicóptero projetado desde o início para ataque ao solo, e que voou pela primeira vez em 7 de setembro de 1965. A versão inicial do Cobra, designada AH-1G, era armada com uma metralhadora Minigun de 7,62mm , com seis canos, localizada numa torreta sob o nariz, podendo transportar também quatro casulos com até 76 foguetes de 70 mm ou mísseis anticarro TOW. O AH-1G foi empregado intensamente no Vietnã a partir de 1967, e ao todo foram produzidos 1.078 exemplares.

Ao lado Esse A-1W SuperCobra é visto com mísseis anticarro AGM-114 Hellfire, além do canhão de 20 mm no nariz. Inicialmente o AH-1W podia somente lançar o Hellfire, mas não guiá-lo; atualmente, a aeronave dispõe de total capacidade autônoma. (Foto: Bell)

Ao lado O AH-1W é a única versão do Cobra capaz de empregar o míssil anti-
radiação AGM-122 Sidearm, e possui considerável capacidade ar-ar, podendo utilizar mísseis AIM-9 Sidewinder (foto). (Foto: Bell)

A configuração estabelecida para o Cobra (artilheiro e piloto sentados em tandem, num cockpit protegido por blindagem, canhão/metralhadora/lançador de granadas no nariz, em reparo móvel, armamento do tipo foguetes/mísseis em aletas nas laterais da fuselagem) foi tão bem sucedida que tornou-se o padrão para a maioria dos helicópteros de ataque desenvolvidos nos anos seguintes. Em versões sucessivas, o Cobra acompanhou o estado da arte em termos de propulsão, aviônicos e armamento. Os modelos principais foram o AH-1Q (AH-1G equipado com Helmet-Mounted Sight — Visor Montado no Capacete — e mísseis TOW), AH-1S (AH-1G e AH-1Q com motores mais potentes, mísseis TOW e transparências planas no cockpit), AH-1E (AH-1S equipado com canhão M197 de 20 mm na torreta), AH-1F (AH-1S modernizado, com jammer infravermelho ativo, supressor infravermelho no escape do motor, e novo subsistema de direção de tiro), AH-1J (primeiro Cobra biturbina, destinado ao U. S. Marine Corps), AH-1T (com novo motor, novo rotor principal, novo cone de cauda e maior capacidade de combustível), e AH-1W.
Essa variante do Cobra surgiu em função de um requisito do U. S. Marine Corps. Inicialmente equipados com o AH-1J, os fuzileiros americanos passaram a receber, a partir de outubro de 1977, o AH-1T, com motores mais potentes e tecnologia proveniente do Model 309 KingCobra, um modelo desenvolvido pela Bell por conta própria. Em 1980, como parte de um programa do USMC visando um futuro helicóptero de ataque com capacidade ampliada, a Bell testou um AH-1T remotorizado com dois turboshafts General Electric T700-GE-700, conhecido como AH-1T+.
O AH-1W surgiu da introdução de melhoramentos adicionais ao AH-1T+, e o protótipo voou em 16 de novembro de 1983. O AH-1W é impulsionado por um par de motores General Electric T700-GE-401 (semelhantes às usadas no Sikorsky SH-60), cada um com 1.690 shp; quando se compara a potência combinada desses dois motores com os 1.100 shp contínuos proporcionados pelo Lycoming T53-L13 utilizado no AH-1G, tem-se uma boa medida de quanto o Cobra evoluiu. Aos testes seguiu-se uma encomenda inicial para 44 exemplares, cujas entregas se concluíram em 1998. Muitos AH-1T foram convertidos para o novo padrão, e a aeronave continua em produção para outros países. No USMC, o AH-1W é utilizado por nove esquadrões de helicópteros de ataque (cada um com 18 exemplares) e um de treinamento.

Ao lado O AH-1W é
armado com um canhão M197, de 20 mm, com 750 tiros. É interessante
observar que o canhão
normalmente é disparado em rajadas de 100 tiros, cuja duração é de
aproximadamente nove segundos. (Foto: Bell)

Encontra-se em andamento um programa de modernização do AH-1W, previsto para encerrar-se no Ano Fiscal 2011. Numa primeira fase, 250 helicópteros serão modernizados, com a instalação de um novo visor noturno, de procedência israelense. Posteriormente, um total de 180 AH-1W serão transformados para o padrão AH-1Z. Entre outros melhoramentos, o AH-1Z conta com novos rotores principal e de cauda, nova transmissão, maior capacidade de combustível, novas aletas (dobrando a capacidade de transporte de mísseis anticarro), nova suite de guerra eletrônica, cockpit do tipo HOTAS (Hands On Throttle And Stick), etc. Os ensaios em vôo deverão estar completados em 2003. A empresa Longbow International, uma “joint venture” da Lockheed Martin com a Northrop Grumman, está desenvolvendo um radar de onda milimétrica para o AH-1Z. O novo radar será instalado na extremidade de uma das aletas ou em um dos pilones “subalares”, e será integrado com o míssil AGM-114L. Uma versão mais simples do AH-1W, designada MH-1W, otimizada para contra-insurgência e missões anti-narcotráfico, está sendo oferecida a vários países sul-americanos.

Russos em cena
Os soviéticos também haviam identificado a necessidade de um helicóptero de ataque, e desenvolveram o Mi-24 Hind. A principal diferença entre o Hind e os outros helicópteros de ataque (anteriores e posteriores a ele) era o fato de poder transportar, além do piloto e do atirador, oito soldados completamente equipados. Observe-se que o Mi-24 e suas variantes não são helicópteros de transporte convertidos para ataque ao solo. O contrário é verdadeiro: tratam-se de autênticos helicópteros de ataque, que além de dispor de armamento são capazes de transportar soldados.

Ao lado No nariz desse Mi-24 Hind D vê-se, da esquerda para a direita: carenagem abrigando os equipamentos eletro-óticos, torreta rotativa com metralhadora de 12,7 mm, e antena para guiamento dos mísseis anticarro 9M17P Falanga (AT-2 Swatter). (Foto: Segurança & Defesa).
Ao lado Até hoje, o Mi-24 Hind continua sendo o único helicóptero de ataque capaz de transportar uma
quantidade significativa de soldados. (Foto: K. Munson)

O primeiro Mi-24 voou em 19 de setembro de 1969. A primeira versão de produção foi o Mi-24B Hind B (com duas turbinas Klimov TV2-117, cada uma gerando 1.700 shp); seguiu-se o Mi-24A Hind-A, cujos lotes iniciais utilizavam o mesmo motor. Mais para o final da produção do Mi-24A foi adotado o motor TV3-117 (repetindo o que fora feito com o Mi-8, resultando no Mi-17). As transparências do cockpit dos dois primeiros modelos operacionais, o Mi-24A Hind-A e o Mi-24B Hind-B, compunham-se de painéis de plexiglass planos, o que acabou resultando em visibilidade pouco satisfatória para os tripulantes. Assim, em 1971 o nariz do Hind foi redesenhado, adotando-se para o Mi-24D Hind-D (e sua versão de exportação, o Mi-25) e o Mi-24V Hind –E (e sua versão de exportação, o Mi-35), capaz de utilizar o míssil anticarro 9M114 Shturm (AT-6 Spiral), canopies do tipo “bolha”, parecidos com os dos jatos de combate.
Outras variantes foram desenvolvidas, incluindo o Mi-24P Hind-F. No Hind-A, e no Hind–B o armamento interno consistia de uma metralhadora 12,7 mm no nariz, em reparo “flexível”, enquanto no Hind-D e –E foi adotada uma metralhadora de 12,7mm com quatro tubos, montada em torreta sob o nariz. No Mi-24P Hind-F (e no Mi-35P, de exportação) foram instalados dois canhões de 30 mm, fixos, do lado direito da fuselagem. As versões mais modernas usam um canhão bitubo de 30 mm instalado numa torreta sob o nariz. O sucesso do Hind foi imenso, e ainda hoje ele serve em dezenas de países. Como o HueyCobra, o Hind foi sendo atualizado através do tempo, e em muitos aspectos o desempenho e capacidade das versões mais recentes são comparáveis aos helicópteros de nova geração.
O desenvolvimento do Ka-50 e do Mi-28 (dos quais falaremos adiante) — ambos helicópteros de ataque de segunda geração — pareceu, num primeiro momento, selar o futuro do Hind, cuja produção acabou se encerrando em 1989. Os anos se passaram, e o subseqüente fim da União Soviética e a crise econômica russa impediram que um dos novos aparelhos fosse lançado em produção. O Hind, enquanto isso, foi sendo modernizado e as mais novas versões de exportação são sub-variantes do modelo Mi-35.

Ao lado Esse Hind mostra a configuração do Mi-35PM — o rotor de cauda em “X”, entretanto, ainda não foi instalado. (Foto: Rostvertol)

O Mi-35M é obtido a partir do Mi-35 básico, introduzindo-se modificações como aumento da vida útil (através de inspeções e reparos, onde necessário), modernização dos rotores, adoção de trem de pouso fixo, introdução de mísseis anticarro Spiral e ar-ar Igla, adoção de telêmetro laser, cockpit compatível com óculos de visão noturna, utilização de aletas menores, redução de 300 kg do peso vazio, aumento na altitude de vôo pairado e adoção de um canhão bitubo de 23 mm em torreta sob o nariz.
O Mi-35P é derivado do Mi-35 básico; a diferença principal é o emprego, ao invés da torreta giratória com metralhadora de 12,7 mm, de um canhão de 30 mm, bitubo, afixado ao lado direito da fuselagem. O Mi-35PM, às vezes conhecido como Mi-35PN na própria literatura do fabricante, mantém o canhão de 30 mm fixo, adota aletas de menor envergadura, é dotado de cockpit compatível com óculos de visão noturna, trem de pouso fixo, novo rotor principal, rotor de cauda em “X”, e outros melhoramentos. São mantidos alguns itens já existentes no Mi-35: lançadores de chaff e flares, jammers infravermelho, escudos térmicos para a descarga dos motores, alerta radar, etc. O Mi-35P utiliza dois motores TV3-117VMA (os mesmos empregados pelo Ka-50 e pelo Mi-28) de 2.200 shp cada, enquanto o Mi-35PM tem uma reserva de potência ainda maior, empregando motores VK-2500 capazes de gerar, cada um, 2.400 shp.

Ao lado AH-64D Apache na configuração de máximo armamento anticarro: 16 mísseis AGM-114L Hellfire (guiados por laser ou radar), além do canhão de 30 mm (Foto: Boeing)


Acima
Close do domo do radar AN/APG-78 Longbow, principal sensor do AH-64D. (Foto: AgustaWestland)

Apache
O primeiro helicóptero de ataque de segunda geração foi o AH-64, escolhido pelo U.S. Army em 10 de dezembro de 1976, após uma competição da qual participou o Bell YAH-63. O nome Apache foi adotado em 1981, e o primeiro AH-64A de produção foi entregue ao exército norte-americano em 26 de janeiro de 1984. Muito maior e mais pesado que o Cobra, o Apache tinha como armamento principal um canhão M230 de 30 mm (com cadência de aproximadamente 600 tpm, para o qual são transportados até 1.200 tiros), em reparo móvel localizado no nariz. Segundo o U.S. Army, esse canhão pode vencer a blindagem de um veículo russo BMP a até 4.000 m de distância.
Para ataque ao solo podiam também ser transportados casulos de foguetes de 70 mm ou mísseis anticarro BGM-71 TOW ou AGM-114 Hellfire. Esse último, sendo do tipo “fire and forget”, com alcance de até 8 km e guiamento a laser, aumenta em muito a capacidade de sobrevivência no campo de batalha, pois permite ao helicóptero expor-se por tempo muito menor, bastando que o objetivo esteja sendo designado por outro helicóptero (um OH-58 Kiowa, por exemplo). Em algumas situações, o Hellfire pode ser disparado no modo de tiro indireto, sem que o helicóptero de ataque se exponha em nenhum momento.
Uma característica importante dos helicópteros de ataque de segunda geração (e que foi incorporada a vários de primeira geração, através de programas de modernização) foi a adoção de sensores específicos para aumentar a capacidade de busca, aquisição e designação de alvos, bem como de armamentos e sistemas de pontaria mais sofisticados. No nariz do AH-64A encontra-se uma torreta que abriga o TADS (Target Acquisition Designator System, ou Sistema Designador para Aquisição de Alvos) e o PNVS (Pilot’s Night Vision Sensor System, ou Sistema de Sensor para Visão Noturna do Piloto). O TADS compõe-se de sistemas óticos convencionais, FLIR (Forward-Looking Infra-Red, ou Infravermelho de Visada Frontal) — para operações noturnas —, sistema de TV de alta resolução para operações diurnas, designador de alvos/telêmetro a laser, e rastreador de objetos iluminados por laser. Normalmente, o TADS é operado pelo artilheiro/co-piloto. O PNVS dá ao piloto, através do IHADSS (Integrated Helmet and Display Sight, ou Visor Integrado com o Capacete e com o Display), uma visão térmica do terreno.

Ao lado Essa vista do AH-64A permite visualizar vários detalhes, entre eles os cortadores de cabo (um acima da janela lateral do cockpit traseiro e outro à frente da roda). Através do uso do IAHDSS (Integrated Helmet and Display Sight System), o canhão está conteirado para onde o piloto (cockpit traseiro) tem a cabeça voltada. (Foto: Boeing)
Ao lado Vista frontal do Apache, claramente mostrando a posição do atirador (na frente) e do piloto. (Foto: Boeing)

O AH-64A conta também com diversos outros sistemas, como jammer de radar, ADS (Air Data Sensor, ou Sensor de Dados Atmosféricos) localizado no topo do mastro, e LDNS (Lightweight Doppler Naviagational Systems, ou Sistema Leve Doppler de Navegação).
Em termos quantitativos, o AH-1, o Mi-24 e o AH-64 são os mais importantes helicópteros de ataque do mundo (ver tabela 1). O primeiro uso do AH-64A em combate ocorreu durante a Operação Just Cause (ataque ao Panamá em 1989, visando a deposição do presidente Noriega); esse foi também o debut em combate do Hellfire. Os Apache voaram 247 horas em combate, mas embora vários tenham sido atingidos, nenhum foi perdido.
Veio a seguir a Operação Desert Storm, contra o Iraque, em 1991, quando o emprego do Apache foi muito mais intenso. Naquela campanha, o U. S. Army empregou 1.193 helicópteros, dos quais 277 eram AH-64A. Segundo números divulgados pelo exército norte-americano, os Apache destruíram mais de 800 carros de combate, 500 outros veículos, 60 bunkers/sítios de radar, 14 helicópteros, dez aviões de combate e inúmeras posições de artilharia de campanha e antiaérea. Foram disparados 2.876 Hellfire, e um Apache foi perdido (atingido por um lança-rojão RPG-7), com a tripulação tendo escapado ilesa. Mais recentemente, os israelenses também vêm empregando o Apache com intensidade, em especial durante as operações contra os palestinos em 2001 e 2002.
O total de AH-64A produzidos chegou a 937, sendo seis protótipos e 821 modelos de série para o U. S. Army e os restantes para exportação (ver tabela 2). O último exemplar foi entregue ao Egito em novembro de 1996. Ainda na década de oitenta, a então McDonnell Douglas iniciou os estudos do Advanced Apache/Apache Plus, extra-oficialmente conhecido como AH-64B; esse modelo teria cockpit modernizado e novo sistema de direção de tiro, mas o programa não foi implementado. Mais adiante elaborou-se um Multi-Stage Improvement Program (MSIP, ou Programa Multi-Estágios de Melhoramentos), que também não foi adiante.
Vários ensinamentos foram colhidos durante a Guerra do Golfo, entre eles que um fator limitador das operações era a distância a que o helicóptero tinha que se aproximar dos alvos para identificá-los — distância essa muito menor do que o alcance máximo de engajamento. Dessas lições resultou um plano para a introdução de vários melhoramentos em 254 AH-64A, gerando assim o AH-64+; o programa, entretanto, foi cancelado.
Não há dúvida que o Hellfire, com guiamento a laser e alcance de 8.000 m, é uma arma poderosa, mormente quando combinado com os sistemas do Apache. Um AH-64A pode, por exemplo, designar e engajar simultaneamente dois alvos, de dia ou de noite, àquela distância. Há, porém, limitações: o laser e o FLIR, por exemplo, podem ser prejudicados pelas condições atmosféricas. Um outro problema é que o uso do Hellfire guiado a laser pode ser prejudicado quando o teto estiver baixo. Isso acontece porque, após disparado, o Hellfire sobe para uma altitude que pode variar de 150 m a 500 m, quando então começa a procurar o alvo iluminado pelo laser. Além disso, para designar um alvo no alcance máximo com o laser de bordo, o AH-64A precisa se expor por até 45 segundos, o que pode ser fatal no moderno campo de batalha.
No início da década de 90 a tecnologia de MMW (Millimeter-Wave, ou Onda Milimétrica) já estava suficientemente madura para aplicação em sistemas operacionais. Assim, em agosto de 1990 foi iniciado o desenvolvimento do Longbow Apache, que incorporaria motores mais potentes, barramento de dados MIL-STD-1553B, e um radar AN/APG-78 Longbow colocado no topo do mastro do rotor, permitindo o uso de mísseis AGM-114L Hellfire II com guiamento a laser ou radar MMW. O AH-64C constaria de uma variante incorporando todos os melhoramentos menos o radar — eventualmente, porém, foi decidido que todos os novos Apache seriam designados AH-64D, tivessem ou não o radar.
O radar Longbow é imune à interferência atmosférica, e permite ao Apache lançar seus 16 AGM-114L em rápida sucessão, se necessário. Varrendo 50km2 de terreno, o Longbow pode detectar até 1.024 alvos potenciais, classificar 128 e mostrá-los simultaneamente na tela. Dependendo dos critérios de engajamento e do tipo dos alvos, 16 deles serão priorizados.
Em agosto de 1996 foi assinado um contrato para a produção de 232 AH-84D para o U. S. Army; as entregas se iniciaram em março do ano seguinte. Os motores empregados nos primeiros AH-64A eram General Electric T700-GE-701 (2 x 1.660 shp), mas após a produção do 60ô exemplar foi adotado o T700-GE-701C (2 x 1.890 shp), mantido no AH-64D. Ainda em 1995 a Holanda encomendou 30 AH-64D (inicialmente não havia sido especificado radar para esses helicópteros, mas depois essa decisão foi revertida), enquanto o exército do Reino Unido anunciou a compra de 67 WAH-64D (oito serão totalmente produzidos nos Estados Unidos, enquanto 59 serão fornecidos em forma de kits para montagem pela AgustaWestland em Yeovil, no sul da Inglaterra). Os Apache britânicos utilizarão motores Rolls-Royce Turbomeca RTM322, de 2.100 shp. Em 1999, foi assinado um contrato para o fornecimento de oito AH-64D à Força Aérea de Cingapura, com opções para mais doze, confirmadas em 2001. Em abril de 2002, o Departamento de Defesa americano notificou ao Congresso sobre uma possível venda de 16 AH-64D ao Kuwait, num pacote de aproximadamente US$2,1 bilhões que incluiria 96 mísseis AGM-114L3, 288 mísseis AGM-114K, dezesseis TADS modernizados, foguetes de 70 mm, munição para o canhão de 30 mm, além de outros itens.

Ao lado Até a entrada em serviço do EC665, o A129 Mangusta continuará sendo o único helicóptero de ataque desenvolvido na Europa a ter entrado em operação. O da foto está armado com dois casulos para um total de 38 foguetes de 70 mm e dois casulos para 7 foguetes Medusa de 81mm cada um. (Foto: AgustaWestland).

A129 Mangusta
Embora não seja tão conhecido como outros helicópteros de ataque, o A129 Mangusta merece destaque por ser o primeiro desse tipo de aeronave a ter sido desenvolvido e colocado em operação na Europa. Concebido originalmente como um helicóptero leve de ataque ao solo, o Mangusta era um dos membros de uma “família” que incluiria variantes específicas para outras missões, inclusive transporte e busca e salvamento. Eventualmente, apenas a versão de ataque ao solo transformou-se em realidade, mas evoluiu para uma aeronave bem mais capaz do que a original.
O conceito do A129 começou a tomar forma em 1978, com a configuração final sendo definida em 1980, concluindo-se o projeto em novembro de 1982. No ano anterior foi divulgado o Requisito Operacional Básico do exército italiano, visando um helicóptero para esclarecimento/ataque anticarro. Em setembro de 1983 voou o primeiro protótipo; em dezembro de 1987 foi assinado um contrato para a produção dos primeiros 15 A129.
Entre janeiro de 1993 e março de 1994, o A129 foi utilizado operacionalmente pelo exército italiano na Somália, na Operação Ibis. Somente três helicópteros foram empregados, tendo voado um total de 844 horas em 878 saídas para 493 missões. De janeiro a março de 1995 aconteceu a Operação Ibis II, na qual quatro A129 foram utilizados. As operações na Somália revelaram que metralhadoras/canhões seriam desejáveis. Assim, os vários Mangusta enviados para a Albânia em 1997 receberam a instalação de casulos HMP-50 da FN-Herstal, com uma metralhadora de 12,7 mm com 250 tiros.

Ao lado O A129 International da foto está configurado com canhão de 20 mm, casulos de foguetes e mísseis ar-ar Stinger. Observe-se o rotor principal, com cinco pás e as tomadas de ar, reconfiguradas para os motores T800.
(Foto: AgustaWestland)

A versão atual do Mangusta é o A129 International, uma variante multi-função com novos motores, rotor principal de cinco pás, e um canhão M167 de 20 mm numa torreta giratória no nariz. Enquanto o A129 Mangusta utiliza dois motores Rolls-Royce GEM 1004, cada um capaz de gerar continuamente 825 shp, o A129 International adota dois LHTEC T800-LHT-800 (2 x 1.362 shp). O A129 International tem sido oferecido a vários países, mas até agora nenhum contrato foi fechado. No final de 2001 o Exército Italiano assinou contrato com a AgustaWestland para a modernização dos 45 A129 que tem em uso para o mesmo padrão definido para os 15 exemplares ainda em produção. O programa inclui a instalação de rotor principal de cinco pás, nova transmissão, fuselagem e trem de pouso reforçados (permitindo aumento de 15% no peso máximo de decolagem), e canhão de 20 mm no nariz (em torre giratória alimentada com 300 tiros).

Eurocopter 665 Tiger/Tigre
O programa do EC665 originou-se em 1984, quando os governos francês e alemão assinaram um Memorando de Entendimento cobrindo o desenvolvimento de uma família de helicópteros de ataque para substituir, respectivamente, o Gazelle e o Bö105P. Em 1987 foi anunciado o programa, mas o contrato de desenvolvimento só foi assinado em 1989 — demonstração clara das dificuldades em estabelecer as participações das empresas de cada país (no caso, Aerospatiale e MBB) em programa internacionais. O primeiro protótipo voou em abril de 1991, e já então a aeronave era conhecida pelo nome de Tigre/Tiger (em francês e alemão).

Ao lado Vista da variante HAP do Tigre, para a Aviation Legère de l’Armée de Terre. Note-se que os equipamentos eletro-óticos são posicionados sobre a fuselagem, abaixo do rotor. Além do canhão, o
armamento na foto consta de foguetes ar-solo
e mísseis ar-ar.
(Foto: J. Deulin/Eurocopter)
Ao lado Variante UHT do Tiger, para a Alemanha. Em destaque, o visor colocado no topo do mastro do rotor e os cortadores de cabos. (Foto: Eurocopter)

O programa enfrentou uma série de marchas e contramarchas, que não cabe descrever aqui, bastando mencionar que atualmente existem duas variantes anticarro (HAC, ou Helicoptère Anti-Char, para o exército francês, e UHT, para o alemão) e uma polivalente (HCP, ou Helicoptère de Combat Polyvalent, para a França) — essa segunda versão é conhecida como Gerfaut, mas atualmente usa-se em geral o nome Tigre.
O HAP é equipado com um canhão 30 mm, móvel, no nariz, e pode transportar, além de 44 foguetes de 68mm, quatro mísseis ar-ar Mistral. A Aviation Legère de l’Armée de Terre (Aviação Leve do Exército) o utilizará basicamente para escolta e ataque leve; os pilotos disporão de óculos de visão noturna e a aeronave possuirá, sobre a fuselagem (abaixo do rotor) um visor diurno combinado com TV de baixa luminosidade e um sistema FLIR.
A versão anticarro (HAC, para os franceses, e UHT, para os alemães) é facilmente distinguível do HAP por não possuir o canhão no nariz e por ter, no topo do mastro do rotor, o visor Osiris. O principal armamento anticarro serão mísseis Trigat ou HOT 3; alternativamente, podem também ser instalados nos pilones casulos de foguetes de 68mm, canhões de 20 mm ou mesmo tanques suplementares de combustível. Pela primeira vez num helicóptero de ataque ocidental, o piloto ocupa o assento dianteiro e o atirador o traseiro.

Ao lado Close-up do Tigre, mostrando o posicionamento dos motores MTR390. Note-se a separação física entre as turbinas, diminuindo o risco de que as duas sejam avariadas por um mesmo impacto. (Foto: MTU).

Originalmente previa-se a produção de 427 Tiger (75 HAP e 140 HAC para a França, além de 212 PAH-2 — como era então conhecida a versão anticarro da Alemanha — para o exército daquele país). Posteriormente, a França especificou 115 HAP e 100 HAC, enquanto a Alemanha manteve a mesma quantidade, mas agora da variante UHT. Cortes nos orçamentos de defesa francês e alemão poderão eventualmente reduzir de forma considerável esses números. De qualquer forma, em junho de 1999 foi assinado um contrato para a produção, pela Eurocopter, de 70 HAP, dez HAC e 80 UHT. Todas as variantes são impulsionadas por um par de motores MTU/Rolls-Royce/Turbomeca MTR390 com potência máxima contínua de 1.171 shp.
Em agosto de 2001 o governo da Austrália anunciou que o EC665, numa versão baseada no HAP, era o vencedor de sua tumultuada competição Air 87, para 22 helicópteros de ataque destinados ao exército. Os outros concorrentes eram o AH-64D, o RAH-1Z (na primeira fase da competição a Bell apresentara o AH-1W, que foi eliminado), o Rooivalk, o A129 (numa versão conhecida como Scorpion, capaz de utilizar mísseis AGM-114 Hellfire) e uma versão de ataque do UH-60L, conhecida como Battlehawk.

Ao lado Vista frontal do AH-2A Rooivalk, mostrando a excelente visibilidade de que dispõe a tripulação. O helicóptero é transportável em aeronave C-130.
(Foto: H. Thacker/Denel)

Rooivalk
Os contratos emitidos pela South African Air Force em 1981 para o desenvolvimento de um helicóptero de ataque no país resultaram em dois tipos de aeronaves, ambos desenvolvidos pela Atlas Aviation (uma subsidiária da Denel): o XH-1 Alpha (desenvolvido a partir do Alouette III, e que voou em 1985) e o XTP-1 Beta (desenvolvido a partir do Puma). O passo seguinte foi o XH-2 Rooivalk (posteriormente designado CSH-2, e mais adiante AH-2), que voou em fevereiro de 1990. Com a cessação dos combates em que o país estava envolvido, a SAAF abandonou o requisito operacional, e o programa foi interrompido.
Posteriormente, o programa foi reiniciado com fundos próprios, e mais um protótipo voou (em 1992), seguido por um modelo de pré-produção (em 1996). Em julho de 1996, a Denel acabou obtendo um contrato para a entrega de 12 Rooivalk para a SAAF, designados AH-2A. O primeiro foi entregue em novembro de 1998, sendo alocado ao No. 6 Squadron no começo do ano seguinte.
O Rooivalk é uma aeronave bastante sofisticada, sendo capaz de realizar missões de dia ou de noite; dispõe de TV de baixa luminosidade, designador e telêmetros laser, FLIR, Visor Integrado ao Capacete para os dois tripulantes, etc. Além do canhão no nariz (20 mm, com até 750 tiros), pode transportar casulos de foguetes e até 16 mísseis anticarro Mokopa, guiados a laser. O grupo propulsor é formado por dois motores Atlas Topaz (Turbomeka Makila 1A2 produzido sob licença na África do Sul), cada um com 1.819 shp. Segundo a Denel, a aeronave poderá futuramente ser equipada com motores RTM22, os mesmos usados nos Apaches do Reino Unido.
Embora tenha participado em várias concorrências internacionais, o Rooivalk ainda não foi bem sucedido. Enquanto isso, a Denel trabalha no aperfeiçoamento da aeronave, e em 1998 foi anunciada a existência do projeto para uma versão navalizada, com um radar de busca de superfície com cobertura de 360º e equipado com mísseis antinavio e rotor principal dobrável.


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NOTA DO EDITOR: Este artigo trata apenas dos helicópteros de ataque “autênticos”. Não estão incluídos helicópteros leves armados (como o OH-58 Kiowa, OH-6 Cayuse, Ecureuil, Gazelle, Bö105,etc.), pois embora possam ser utilizados para ataque, na realidade pertencem a outra categoria, sendo usados em geral para esclarecimento e/ou designação de alvos para os “verdadeiros” helicópteros de ataque. Pelo mesmo motivo, deixaremos de fora helicópteros de transporte convertidos para ataque (Mi-8, Mi-17, etc.).
O armamento mencionado (tanto no texto como na tabela) deve ser interpretado apenas como exemplo, pois obviamente são possíveis inúmeras outras combinações de mísseis anticarro, mísseis antiaéreos, foguetes e casulos podem ser adotados.
Não está sendo mencionada com ênfase a capacidade ar-ar dos helicópteros tratados por razões de limitação de espaço. O assunto, porém, poderá vir a ser tema de futuro artigo.

 

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