Maj Brig Venâncio Grossi
O Diretor Geral do Departamento de
Aviação Civil (DAC)


Com o estabelecimento da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) aproximando-se inexoravelmente, espera-se significativas mudanças no gerenciamento da aviação civil brasileira, até agora sob a responsabilidade do Comando da Aeronáutica.
A entrevista que se segue foi concedida a Sylvia Damasio Estrella pelo Major-Brigadeiro-do-Ar Venâncio Grossi, Diretor Geral do Departamento de Aviação Civil (DAC), ao qual agradecemos a atenção.


S&D — A aviação brasileira mudou muito nos últimos três anos e o senhor é, provavelmente, o último oficial da Força Aérea a dirigir o DAC. Poderia fazer um balanço de sua gestão?
Brig. Grossi — Assumi a diretoria do DAC em fevereiro de 2000. As mudanças na regulamentação das atividades aeronáuticas brasileiras começaram um pouco antes de eu tomar posse do cargo, com o Brig. Oliveira, que dirigiu a instituição antes de mim. A orientação da aviação comercial brasileira para uma direção mais competitiva foi uma das principais mudanças que ocorreram na minha gestão. Havia estudos do próprio governo brasileiro que apontavam a existência de empresas aéreas de baixo custo que operassem na malha central de terminais aéreos como fator decisivo para se ter uma política tarifária efetivamente livre.
A operação de aeroportos com objetivo de incentivar a competição na aviação comercial foi garantida com a criação de um sistema de slots para Cumbica, Santos-Dumont e Pampulha, e a criação de um limite máximo de 37% dos slots disponíveis nos principais aeroportos para cada empresa aérea. Assim, foi garantida a igualdade no acesso aos principais terminais do país, e assegurada a condição necessária para haver competição entre as companhias aéreas, beneficiando o passageiro. Eliminamos muitas legislações que criavam obstáculos, principalmente para a formação de empresas de táxi aéreo, e eram muito restritivas para a certificação de novos aeroportos e helipontos. Hoje, a responsabilidade pela homologação e registro de um aeródromo é repartida com o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA). Todo o processo foi flexibilizado e agilizado, e atualmente é possível registrar um aeródromo ou heliponto em alguns dias. Antes, o processo chegava a durar anos.

   
  “A orientação da aviação
comercial brasileira para uma direção mais competitiva foi uma das principais mudanças
que ocorreram na minha gestão”
   

Na área de instrução, o DAC passou a firmar convênios com os aeroclubes e a destinar recursos de acordo com as metas previstas para cada uma dessas instituições de ensino. Isso tornou mais transparente a destinação orçamentária para os aeroclubes. O DAC também desburocratizou o preenchimento da Caderneta Individual de Vôo (CIV). A responsabilidade pelas informações que estão na CIV foi delegada aos aeroclubes, operadores de aeronaves e proprietários de empresas aéreas.
S&D — Como o Sr. deixa o DAC?
Brig. Grossi — O Comando da Aeronáutica quer que a ANAC seja instituída, porque vai dar mais flexibilidade à aviação civil brasileira. Esta flexibilidade dará condições de atender mais rapidamente às exigências do transporte aéreo no Brasil. Também por ter recursos próprios e uma regulamentação específica, a Agência terá todas as ferramentas para administrar bem a aviação civil. Pretendo ser o último oficial da Força Aérea a dirigir o DAC, mas isso ainda não é certo, porque a criação da ANAC ainda tramita pelo Congresso Nacional.
S&D — O que mudou no DAC durante sua gestão?
Brig. Grossi — Queria trazer para a aviação geral o mesmo índice de segurança de vôo registrado na aviação comercial brasileira. E consegui. Houve um esforço muito grande durante a minha gestão, sob a forma de palestras, seminários e cursos organizados e promovidos pelo DAC, nos mais afastados lugares do Brasil, para operadores de aeronaves, com o objetivo de melhorar os índices de segurança de vôo da aviação geral no país. Esse objetivo foi alcançado com sucesso. Os índices de acidentes na aviação geral brasileira são baixíssimos, melhores até do que países como os Estados Unidos e o Canadá.
S&D — Quais os principais desafios/problemas vivenciados pelo senhor durante sua gestão?
Brig. Grossi — O principal desafio durante a minha gestão foi identificar o que deveria ser mudado no DAC e implementar as mudanças necessárias. Outro desafio foi adequar nossas atividades à área física de que dispúnhamos — já que o DAC teve de ser transferido do Aeroporto Santos-Dumont depois do incêndio que destruiu grande parte daquele terminal. Essa área, com a qual passamos a contar — em um prédio no centro do Rio de Janeiro — teve de atender o crescimento de nossas obrigações, como conseqüência do crescimento da aviação civil no Brasil.
S&D — Na sua opinião, qual as mudanças mais importantes na aviação brasileira durante a sua gestão?
Brig. Grossi — Na área doméstica, a liberalização tarifária e a flexibilização, que permitiram o surgimento de novas empresas. Houve também o aumento do nível de segurança de vôo, sensível inclusive na aviação geral. A flexibilização e desregulamentação da aviação comercial brasileira tiveram como conseqüência a maior competitividade que existe hoje e o surgimento de novas empresas.


“Muitos dos valores e da cultura operacional do DAC serão transferidos à ANAC, porque formamos o celeiro de recursos humanos no qual a ANAC vai buscar grande parte de seus quadros.”


S&D —
Como o senhor avalia a segurança da aviação comercial brasileira?
Brig. Grossi — A segurança na aviação civil brasileira é similar àquela que existe na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá. Ou seja, está em igualdade com os melhores níveis de segurança de vôo do mundo. Quando eu falo de índice, refiro-me ao resultado de acidentes registrados em um milhão de decolagens de aeronaves acima de 60 mil libras. Esta razão é que compõe o índice de acidentes aeronáuticos de um país.
S&D — Como será a transição das atividades reguladoras e fiscalizadoras da aviação brasileira de uma instituição militar para uma civil?
Brig. Grossi — Já estamos preparando o DAC para esta mudança, ao investir em recursos humanos e capacitar pessoal com conhecimento sobre atividades de controle e gerenciamento da aviação civil para a nova agência. Com a ANAC, a parte de administração da navegação aérea no Brasil será direcionada ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo, órgão militar subordinado ao Comando da Aeronáutica. A Comissão de Estudos Relativos a Navegação Aérea Internacional, organismo ligado à Organização Internacional da Aviação Civil (ICAO) já está envolvida também no processo de transição. Se os oficiais da FAB estiverem na ANAC por missão ou por determinação, estarão exercendo uma atividade civil como outra qualquer.
S&D — Quais os riscos dessa transição?
Brig. Grossi — A transição será suave e rápida, porque já está sendo preparada. Por isso, não vejo riscos. O DAC, como órgão regulador, é uma interface entre uma área militar da sociedade e uma área civil. Muitos dos valores e da cultura operacional do DAC serão transferidas à ANAC, porque formamos o celeiro de recursos humanos no qual a ANAC vai buscar grande parte de seus quadros. •

 

Capa SD90
 

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