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Volta e meia alguns setores da imprensa publicam afirmação de que o efetivo das Forças Armadas brasileiras é  excessivamente grande. Essa assertiva não resiste a uma análise cuidadosa, como mostra o texto que se segue.

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Acima “O país não possui efetivos militares compatíveis com o tamanho de sua população e de seu território” (Foto: Segurança & Defesa).

Renato Henrique Guimarães Dias

O Brasil possui uma área de 8.511.965 km2, uma população de 185.875.219 habitantes (estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, para 22 de março de 2006), o 15º maior Produto Interno Bruto (PIB) do mundo e um efetivo total nas Forças Armadas de 288.500 militares no serviço ativo, dos quais 190.000 integrantes do Exército — efetivos que não têm sofrido grandes variações ao longo dos últimos cinco anos.
Uma rápida leitura dos dados acima pode levar à conclusão de que o Brasil, além de ser um país grande e populoso e ter uma economia forte, possui um grande efetivo militar e que, por causa disso, deveria ser um país respeitado e com grande peso nas questões geopolíticas mundiais. Deveria, mas na realidade não parece que assim o seja.
Recentemente, o governo brasileiro adotou uma intensa campanha mundial de projeção do Brasil, que resultou, até o momento, em absoluto fracasso em diversos pontos. Um dos motivos para isso deve-se à dificuldade daquele em conseguir um efetivo apoio internacional às suas propostas, o que mostra que, muito provavelmente, o Brasil superestima seu real poder geopolítico e estratégico no mundo atual.
Esse fato leva à seguinte indagação: por que o poder de persuasão internacional do Brasil é baixo? A mais importante das causas, com certeza, é o fator econômico. Embora o Brasil seja presentemente a 15ª maior economia do mundo, o país vem caindo de posição no ranking mundial nos últimos anos. Essa queda é um tanto considerável se levarmos em conta que o país, em passado recente, ocupava a oitava posição. Além disso, a economia do Brasil ainda é bem fechada, e a sua participação nacional no comércio mundial é muito reduzida (menor que 2%).

Outra causa
Mas embora seja a mais importante, essa com certeza não é a única causa. Quais seriam então os outros motivos? As ações adotadas pelo governo brasileiro na busca do objetivo apontado anteriormente podem fornecer uma outra razão, que somada à acima descrita, contribui por diminuir a expressão de poder do país no cenário mundial.


Acima Na América do Sul, o Chile é o país que tem maior percentual de efetivos militares em relação à população. O Brasil é o quinto, atrás também da Colômbia, Venezuela e Argentina (Foto: Armada de Chile).

Uma das ações mais ousadas que o Brasil adotou como meio de projetar a sua imagem no cenário mundial, visando a dar suporte ao seu pleito de conseguir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, foi assumir o comando da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH, sigla em francês), em 1º de junho de 2004.
Em junho de 2005, o Conselho de Segurança da ONU, através da Resolução 1.608, ampliou o efetivo em operação na MINUSTAH em 800 militares, todos oriundos da Jordânia. Esse aumento fez com que a tropa jordaniana na missão dobrasse de tamanho, alcançado um valor próximo de 1.600 militares. Esse efetivo superou o da maior tropa empregada até aquele momento, a do Brasil, que contava com 1.213 militares.
Conforme a colunista Eliane Cantanhêde, do jornal “Folha de São Paulo”, apontou em artigo de 11 de janeiro de 2006, existia um certo atrito entre os jordanianos e os brasileiros na missão, inclusive entre o comandante daqueles e o desses últimos. No artigo, a jornalista menciona que tal aumento de efetivo gerou uma preocupação do governo brasileiro com a possibilidade do comando da MINUSTAH passar para mãos jordanianas em agosto de 2006 ou janeiro de 2007, época da renovação dos militares empregados nessa missão.
Pelo acima exposto, verifica-se que o tamanho do efetivo militar, mesmo em uma missão da ONU e a despeito do que muitos brasileiros apregoam, é, sim, um fator de peso estratégico mundial. Cabe então a pergunta: uma das razões do baixo poder de persuasão internacional do Brasil é o tamanho do seu efetivo militar?

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Acima O efetivo do Exército é bem menor do que o das Polícias Militares dos 26 Estados mais o Distrito Federal (Foto: Segurança & Defesa).

Conforme já citado, o Brasil conta com 288.500 militares na ativa, nível que vem se mantendo relativamente constante pelos últimos cinco anos. Esse número por si só não permite a obtenção de nenhuma conclusão; faz-se necessário compará-lo com o efetivo dos demais países do mundo. Uma boa fonte de consulta para isso é o “The Military Balance”, elaborado anualmente pelo International Institute for Strategic Studies. Esse estudo relaciona diversas informações a respeito das Forças Armadas do mundo, entre elas: efetivo total, efetivo de cada Força, e quantidade e modelo dos principais itens de equipamento. Na elaboração da presente análise, o autor utilizou basicamente os dados do “The Military Balance 2002/2003”, em virtude da comparação que será feita, a posteriori, com outros dados.
A Tabela nº1 mostra o efetivo total de militares no serviço ativo das Forças Armadas de alguns países do mundo(1), bem como sua distribuição pelo Exército, pela Marinha e pela Força Aérea, nos anos de 2002 e 2003. Os dados estão disponibilizados em ordem decrescente com base no efetivo total e cada país. Em 2002, o Brasil era o país que possuía o 15º maior efetivo militar do mundo. Uma posição razoavelmente boa, se levarmos em conta que naquele ano o mundo possuía 204 países, territórios semi-independentes ou entidades reconhecidas oficialmente pela ONU.
Essa posição fica mais confortável com a análise dos países que se encontram em posição superior à nossa. Os Estados Unidos não passaram nenhum período superior a 20 anos, desde 1945, sem participar de alguma guerra. Índia e Paquistão vivem em tensão pela disputa da região da Caxemira, desde a independência de ambos em 1947. Coréia do Norte e Coréia do Sul são países em armistício desde 23 de julho de 1953, sem nenhum acordo de paz assinado até agora. Rússia e Alemanha ainda guardam muito das características militares adquiridas na época da Guerra Fria e, embora tenham iniciado programas de desmobilização de efetivos após 1989, os programas caminham a passos bem lentos. Taiwan vive constante ameaça de ser re-anexada pela China, que vê esta ilha como uma província rebelde. Dessa forma, oito países que ocupam posição superior ao Brasil em termos de efetivo se encontram em situação belicosa, mesmo que não formalmente declarada.

Tabela 1

Entretanto, os outros sete países não se enquadrariam nessa categoria. O efetivo militar numeroso foi uma opção deles; talvez, em virtude de seu tamanho populacional ou territorial. Tal explicação seria útil também para entender o considerável tamanho do efetivo que alguns outros países possuem, mesmo que classificados em uma posição abaixo à do Brasil na tabela. Uma comparação do efetivo militar com aquelas duas categorias anteriormente citadas nesse parágrafo seria oportuna.

A população como base comparativa
Comecemos pela análise populacional, já que o país com o maior efetivo militar do mundo é também o mais populoso. A Tabela nº2 faz uma comparação do efetivo total de militares e do efetivo do Exército, em relação à população absoluta estimada(2) dos países supracitados, em meados de 2002. Os dados estão disponibilizados em ordem decrescente, com base no valor percentual do efetivo militar total.
Por essa tabela, vemos que o Brasil cai da 15ª para a 31ª posição, possuindo 1.652 militares, 1.088 destes no Exército, para cada 1.000.000 de habitantes. Esse valor é inferior, por exemplo, a um de seus vizinhos mais próximos, a Argentina (30ª posição), que possui 1.847 militares, 1.091 deste no Exército, para cada 1.000.000 de habitantes, e que ocupava a 29ª posição na tabela anterior a esta.

Tabela 2

O quanto essa relação do Brasil está abaixo da média dos demais 34 países em questão? Procedendo ao cálculo da média aritmética dos valores percentuais, calculada pelo simples somatório do valor em análise de todos os países, dividido pelo número de países considerados, obtém-se o valor de 0,6390%. Caso não se leve em conta o percentual da Coréia do Norte, cujo valor destoa em muito dos demais países da tabela, a média cai para 0,5108%. Adotando esse último valor como o mais razoável, a diferença do percentual do Brasil com o percentual médio é de 0,3456%.
O que isso significa? Significa que, para o ano de 2002, de forma que a relação entre o efetivo no serviço ativo nas Forças Armadas e a população brasileira fosse equivalente ao valor médio entre os demais países da tabela (excluída a Coréia do Norte), o efetivo total do Brasil deveria ser de 892.067 militares, ou 603.567 militares a mais do que possuía na época.

Tabela 3Antes de proceder à análise territorial, é salutar lembrar que esta deve focar somente o efetivo do Exército, uma vez que a defesa terrestre do país fica a cargo dessa Força Armada. Uma vez que essa consideração tenha sido feita, a indagação de como seria a relação daquele contingente militar em relação ao território torna-se pertinente.

A área como base comparativa
A Tabela nº3 faz uma comparação da área dos países supracitados(3) com o efetivo do Exército, no meio do ano de 2002. Os dados estão disponibilizados em ordem crescente, com base na relação entre a área e o número de militares da Força Terrestre.
Conforme ocorreu na Tabela nº2, o Brasil cai 16 posições se comparado à Tabela nº1, ocupando a 31ª posição, com a relação de um único militar do Exército para “defender” 44,8 km2, aproximadamente, de território nacional. Essa é uma relação que chama bastante a atenção, se comparada com os resultados dos demais países, principalmente se levarmos em conta que os dois últimos países da tabela citada, Austrália e Canadá, possuem mais de 50% de seus territórios inóspitos para a ocupação humana: deserto, no caso do primeiro; gelo, tundra e florestas de coníferas, no caso do segundo, ambos sem grandes atrativos econômicos nessas regiões.
Questionando, para este tópico, o quanto a relação obtida está distante da média dos 34 países em questão, deve-se proceder da mesma forma como feito anteriormente. Calculando a média aritmética da relação, obtém-se o valor de 35,26 km2/militar. Caso não se leve em conta a relação do Canadá, cujo valor destoa em muito dos demais países da tabela, essa relação cai para 20,70 km2/militar.
O que o número calculado acima significa? Significa que, para o ano de 2002, o efetivo do Exército Brasileiro deveria ser de 411.111 militares, ou 221.111 militares a mais do que possuía na época, de forma que a área que cada militar da Força Terrestre teria para “defender” fosse equivalente ao valor médio entre os demais países da tabela, excluído o Canadá. Consolidando os resultados obtidos, chega-se aos seguintes valores apresentados na Tabela nº4.(4)

Tabela 4

Voltando à indagação feita alguns parágrafos acima, pode-se concluir que uma das razões de o poder de persuasão internacional do Brasil ser baixo é o fato de o país não possuir um efetivo militar compatível com os tamanhos de sua população e de seu território, tomando-se por base a comparação feita com outros países.
Entretanto, é importante deixar claro que só se deve investir no aumento do efetivo militar após a economia brasileira apresentar um crescimento considerável e a relação entre a carga tributária e o PIB apresentar uma melhora. Antes disso, é completamente inviável aumentar-se os gastos com defesa através da contratação de pessoal.
Apenas por curiosidade, se o efetivo do Exército Brasileiro fosse de 411.111 militares em 2003, este passaria a ser maior que o efetivo das Polícias Militares dos 26 Estados mais o Distrito Federal, que era de 385.600 policiais(5) à época. Voltar-se-ia, então, à situação buscada pela Força Terrestre desde o início da República, a qual só foi alcançada no início do governo de Getúlio Vargas (década de 1930).
Essa mudança deveu-se, sobretudo, à vitória e à consolidação, dentro da Força Terrestre, das idéias defendidas pelo “grupo” de militares conhecidos à época como “Turcos”, ex-alunos da Missão Francesa, os quais tinham na pessoa de Góes Monteiro sua principal liderança. Entre os principais pontos defendidos por aquele grupo estavam o profissionalismo militar e a não participação do Exército Brasileiro em assuntos políticos.

NOTAS
(1) Informações obtidas na internet em http://www.militarypower.com.br/mundo.htm, baseadas no The Military Balance 2002/2003 do International Institute for Strategic Studies. No efetivo total das Forças Armadas dos Estados Unidos estão incluídos mais 171.000 militares do U. S. Marine Corps e, no da Rússia, mais 149.000 militares das Strategic Nuclear Forces.
(2) Informações obtidas na internet no endereço http://unstats.un.org/unsd/ demographic /products/dyb/DYB2003/Table05.pdf, que reproduz a Table 05 – Estimates of mid-year population: 1994-2003, do Demographic Yearbook 2003, elaborado pela Organização das Nações Unidas. Os dados relativos à população estimada da Coréia do Norte, Malásia e Taiwan no meio do ano de 2002 não se encontravam disponíveis na tabela da ONU, sendo utilizado, nestes casos, aqueles disponíveis no endereço http://www.umsl.edu/services/govdocs/wofact2002/index.html, que reproduz o The World Factbook 2002, elaborado pela Central Intelligence Agency dos Estados Unidos.
(3) Informações obtidas na internet no endereço http://www.cia.gov/cia/publications/factbook/rankorder/2147rank.html, que reproduz o Rank Order - Area do The World Factbook 2002, elaborado pela Central Intelligence Agency dos Estados Unidos.
(4) Os valores citados nas colunas efetivo médio “mundial” e diferença no efetivo para as demais Forças foi calculado pela diferença entre o valor das Forças Armadas e o do Exército.
(5) Esse dado foi tirado da reprodução do The Military Balance 2003/2004 do International Institute for Strategic Studies, pg. 175.

O autor é 1º Ten QEM do Exército Brasileiro, graduado em Engenharia de Comunicações pelo IME em 2001, e aluno do MBA em Gestão Empresarial da FGV Management Rio.

Capa SD 113
 

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