Ao lado O submarino nuclear se transformou em poderoso elemento de dissuasão, com a propriedade da efetividade, mesmo sem a certeza de sua presença. (Foto: Royal Navy)

“Sonhar é viver
Realizar é crescer
Lutar é dever”
(WJM)


• C. Alte. (RRm) Wilson Jorge Montalvão


A arte da guerra naval sempre foi mutante. A adoção de novas táticas, o conhecimento de nova tecnologia e a busca por inovação são elementos definidores do sucesso ou fracasso de uma Armada. Os exemplos relatados são inúmeros, remontam às primeiras singraduras, quando o homem venceu o medo de enfrentar os mares e os oceanos. Dentre eles, poderíamos destacar:
• a tática dos romanos, que aliavam o poder naval e a força das legiões embarcadas, quando do confronto entre as esquadras e a abordagem dos navios inimigos;
• a evolução da construção naval, que possibilitou a navegação das naus nos oceanos independentemente das direções predominantes dos ventos;
• a eficácia dos artilheiros ingleses comparada à de seus pares nas esquadras espanhola e francesa, o que possibilitou as vitórias britânicas frente aos oponentes do continente, mesmo quando embarcados em navios de maior porte e com mais bocas de fogo;
• a tática do Almirante Nelson, que determinou a derrota da Armada Francesa e a derrocada de Napoleão;
• a ação dos U-boats, que quase estrangulou o apoio logístico dos aliados;
• a atuação dos navios-aeródromo na Segunda Guerra Mundial, que suplantou o poder dos encouraçados, até aquela oportunidade considerados como navios capitais;
• a independência da propulsão nuclear naval, que redundou na maior discrição do submarino; e
• o lançamento de mísseis balísticos por submarinos submersos.
Os Senhores da Guerra desde cedo entenderam que não era suficiente o domínio terrestre. As possibilidades de comunicação e de sobrevivência de uma cidadela independiam do cerco. Elas eram mantidas se a cidade fosse litorânea ou situada próxima a um rio, uma baía, ou qualquer outro acidente geográfico influenciado pelo meio marinho, e não houvesse uma esquadra para bloquear essa saída.

Acima O USS Connecticut, da Classe “Seawolf”, atracado. A Classe ”Seawolf” representa o mais inovativo projeto de submarino nuclear americano desde a Classe “Skipjack”, mas foi cancelada após a construção da terceira unidade, o USS Jimmy Carter, que incluiu outras modificações em relação ao dois primeiros navios. O Connecticut, como seus dois “irmãos”, pode desenvolver 35 nós submerso. Notar o “filete” à frente da vela (Foto: US Navy)

Esse raciocínio pode ser estendido à adoção da propulsão nuclear naval em submarinos. A capacidade de discrição e de mobilidade alteraram todo o equilíbrio alcançado entre os meios navais. Não eram mais suficientes os equipamentos de detecção sofisticados e as forças bem constituídas, nucleadas em navios-aeródromo, com aeronaves de alta qualificação e armas de grande poder de destruição. O novo meio naval se transformou em poderoso elemento de dissuasão, com a propriedade da efetividade, mesmo sem a certeza de sua presença (Guerra das Malvinas, Equilíbrio na Guerra Fria). A dúvida passa a preponderar. A letalidade desses novos submarinos alcançou níveis imensuráveis. O alvo não ficou restrito ao mar. A capacidade de lançar mísseis de longo alcance, estando submerso, não excluiu mais nenhum abrigo terrestre.
A mobilidade e a permanência submersa intemporal não dependem mais da máquina. A velocidade e a prontidão são características preservadas em sigilo por quem os possui.
É significativo que após mais de 50 anos de atuação, diferentemente do que ocorre em outros setores do conhecimento humano ou no desenvolvimento de equipamentos, a operação de submarinos com propulsão nuclear esteja restrita a algumas poucas nações, que não por acaso têm as marinhas mais bem preparadas e estão entre as que possuem maior poder econômico. Se considerarmos a efetividade do meio, esse número se torna mais reduzido, sendo mais seletivo do que qualquer outro grupo, não importando qual aspecto esteja se considerando: econômico, social, científico e tecnológico, etc.

Ao lado A capacidade de discrição e de mobilidade do submarino nuclear
alteraram todo o equilíbrio alcançado entre os meios navais. Na foto, o HMS Superb, da Royal Navy (Foto: Royal Navy)

Grupo dos Quatro
Os Estados Unidos da América (EUA), Rússia, Grã-Bretanha (GB) e França têm mantido uma hegemonia ao longo do tempo, que não se prevê em curto prazo possa ser conflitada ou discutida.
A China está prestes a ingressar no clube, após inúmeras tentativas de acertos e erros. Seu programa, que contou com um apoio muito grande da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, teve início no final da década de cinqüenta. Apesar desse suporte, o primeiro submarino nuclear chinês (401, da classe “Han” — Projeto 091), só foi incorporado em 1974, e o segundo (402) em 1980. Foi então decidido alongar o casco em oito metros, construindo-se então mais três submarinos (403, 404 e 405), o último dos quais foi incorporado no início da década de noventa. Tratam-se de submarinos nucleares de ataque (SSN), sem capacidade de lançamento de mísseis balísticos. Segundo o Jane’s Fighting Ships (edição 2002-2003), após passarem algum tempo fora de serviço, o 401 e o 402 foram modernizados e re-incorporados; o 403 e o 404 foram modernizados a partir de 1998 e recolocados em serviço em 2000, ano em que também foi iniciada a modernização do 405.

Acima Apesar de desempenhar um importante papel na composição das forças navais e de representarem uma arma formidável de negação do uso do mar ao inimigo, submarinos de ataque convencionais, como os da Classe “Kilo” russa não têm a mesma capacidade de um submarino nuclear de ataque (Foto: Royal Navy).

O único submarino nuclear lança-mísseis (SSBN) da China é (o Xia — Projeto 092 —, cuja construção foi iniciada em 1971 e concluída em 1988), nunca tendo apresentado resultado operacional. O programa chinês de submarinos nucleares continua ativo, outros projetos estão tendo prosseguimento, levando a supor que, apesar das dificuldades, no período de 2010-2020 a Força Naval Chinesa contará com dez submarinos, sendo seis de ataque (Projeto 093) e quatro com capacidade de lançamento de mísseis balísticos (Projeto 094). Esses últimos terão cerca de 107 m de comprimento, 6.000 toneladas de deslocamento quando submersos, e propulsados por dois reatores que fornecerão 20.000 HP no eixo. Eles estarão aptos a lançar 16 mísseis balísticos JL-2 a partir de tubos verticais, além de torpedos e minas pelos seis tubos da proa.
O importante a destacar é que mesmo com toda a assistência da Rússia, o programa nuclear chinês, após mais de trinta anos, ainda não pode se equiparar aos dos demais componentes do Grupo dos Quatro.

Ao lado A Classe russa “Typhoon”, de Submarinos Nucleares de Mísseis Balísticos, é composta pelos maiores navios do tipo já construídos, com deslocamento submerso de 26.000 toneladas (Foto: Royal Navy).

A Índia é outra nação que luta por ingressar naquele seleto Grupo. Seu programa “Plataforma de Tecnologia Avançada” (ATV, ou Advanced Technology Vessel), iniciado em 1974, ainda não apresentou resultado que pudesse alterar o quadro atual das marinhas com propulsão nuclear.
Com a participação efetiva de cientistas e técnicos russos envolvidos nas diversas fases do programa, há possibilidade de que o primeiro submarino indiano com propulsão nuclear, com 9.400 toneladas de deslocamento quando submerso e 124 metros de comprimento, possa estar operacional em 2009, se for lançado em 2006-2007. Esse meio teria a possibilidade de múltipla atuação: poderia utilizar mísseis de cruzeiro de médio alcance (1.000 km), mísseis balísticos de curto alcance (300 km), torpedos e minas, além de participar de operações especiais. Se houver sucesso nessa empreitada, será válido supor que a Frota Indiana contará com quatro desses submarinos até o ano de 2020.
As nações do Grupo dos Quatro — EUA, GB, Rússia e França — continuarão a ter a supremacia desse meio naval, apesar das notícias que revelam uma certa desaceleração nos programas de construção. O boato de descontinuidade dos programas levados a cabo nesses países não deve ser considerado, pois mesmo se houver confirmação das previsões, hoje apresentadas, os totais de submarinos com propulsão nuclear no mundo seriam, em 2020, 40 com capacidade de lançar mísseis balísticos (SSBN) e 102 de ataque (SSN), assim distribuídos:

Como pode ser inferido, a força de submarinos com propulsão nuclear crescerá qualitativamente e será preponderante no poder naval, no decorrer do presente século, com o balanço do poder pendendo para o lado ocidental.
Em razão dos custos envolvidos, é previsível que o número dos submarinos de ataque ou de ação pontual decline em relação ao total hoje existente; haverá preferência pela construção de submarinos com multipropósito, como o pretendido pela Índia. Essa característica é mais destacada se considerarmos a possibilidade de outras nações desenvolverem programas autóctones ou mesmo optarem pela adoção de propulsão diferenciada, como a utilização de baterias com maior capacidade ou sistemas de motorização com independência do ar.

Caso do Brasil
Cabem algumas considerações sobre o programa de propulsão nuclear naval brasileiro, que por razões financeiras não apresenta um resultado mais consistente, apesar dos avanços verificados no desenvolvimento do ciclo de combustível e do projeto do reator. Poucas vezes se viu um programa — considerado por todos que já tiveram a oportunidade de conhecê-lo como importante e fundamental para a Defesa Nacional — ser tão pouco aquinhoado com recursos. É conflitante, e de difícil entendimento, vê-lo restrito aos recursos orçamentários destinados ao Comando da Marinha, considerando os valores necessários para sua concretização, se comparados com as contrapartidas de domínio da arte da guerra e de segurança para a Defesa Nacional.

Acima A Classe “Astute” representa a nova geração de submarinos nucleares de ataque britânicos (Foto: Royal Navy).

Se só a capacitação de construção de um submarino com propulsão nuclear representa uma vitória da tecnologia nacional, o que não dizer do arraste tecnológico que tal atividade produz, não se restringindo, exclusivamente, ao setor militar. Como exemplo dessa dualidade poderiam ser citados: a geração de energia elétrica, o desenvolvimento de novos materiais, a produção de radioisótopos para a medicina e a irradiação de alimentos para conservação. Ressalte-se que, ao contrário do que aconteceu nos demais países (à exceção dos EUA e Rússia), todo o avanço conseguido não contou com o mínimo apoio de nação estrangeira.
A infra-estrutura hoje existente no país é cada vez mais exigente da capacitação alcançada pela Marinha no desenvolvimento do Programa de Propulsão Nuclear Naval. Esse espectro é tão grande que permite promovê-lo não como uma necessidade exclusiva da Força Naval, mas sim como anseio nacional, em mesmo nível de outros programas importantes para o desenvolvimento social e econômico do Brasil e, mais importante, para a Defesa Nacional.
Transformar o sonho em realidade é uma opção, pois só assim poderemos almejar uma melhor posição no cenário internacional. O Brasil não deve perder a oportunidade; muitos sacrifícios foram exigidos e realizados. Não há como desprezá-la. Mais cedo ou mais tarde haveremos de nos confrontar com novos chamamentos da sociedade e, assim como ocorreu no passado (Guerras de Consolidação da Independência, embates no Período Imperial, participação nas duas Grandes Guerras), não será possível nos furtarmos a ocupar posição na linha de frente. Não podemos nos apequenar.

Acima “A decisão de construir ou não um submarino com propulsão nuclear deve ser da Nação; a capacidade de saber construí-lo é uma obrigação, que temos que assumir com essa mesma Nação, para mantê-la livre, coesa e defendida para as futuras gerações.” (Foto:Marinha do Brasil).

O País tem obrigação de preservar suas riquezas no meio marinho. Muito se fala sobre a Amazônia. Esquece-se um espaço físico no oceano que aumenta nossa soberania em mais de (três) milhões de quilômetros quadrados. Ali estão riquezas exploradas — tais como as plataformas petrolíferas (hoje com contribuição de mais de 80% do petróleo explorado no país) e as bacias pesqueiras; e as inexploradas, que nada ficam a dever àquelas existentes no Oceano Verde. Se acrescentarmos que mais de 70% da população nacional e do poder econômico e cultural do País estão a menos de 300 km das praias, esse tesouro ganha grande expressão econômica e social. Como defendê-lo? Eis a questão...
A decisão de construir ou não um submarino com propulsão nuclear deve ser da Nação; a capacidade de saber construí-lo é uma obrigação, que temos que assumir com essa mesma Nação, para mantê-la livre, coesa e defendida para as futuras gerações.
O desenvolvimento de nova tecnologia de propulsão naval — independência do ar, baterias com maior capacidade e durabilidade —, não deve ser justificativa para o não prosseguimento ou desaceleração do Programa de Propulsão Nuclear Naval. Temos que transmitir credibilidade e perseverança no desenvolvimento de tecnologia de ponta, senão seremos vistos como eternos nômades enganados com miragens de oásis, que nunca se tornam realidade.
O país só terá futuro se preservar as conquistas do passado e as mantiver no presente. O esforço desenvolvido por tão insignes brasileiros, inclusive em foros internacionais, não pode ser olvidado.
Concretizar o sonho de ter capacidade de construir um submarino com propulsão nuclear será a solução para a defesa do nosso vasto território marítimo. Para tanto é necessário que, semelhante às ações adotadas pelos governos do Grupo dos Quatro, o Programa de Propulsão Nuclear Naval seja adotado como um anseio nacional e não fique restrito aos parcos recursos orçamentários destinados ao Comando da Marinha, em condições semelhantes às adotadas pelos governos do Grupo dos Quatro, quando do desenvolvimento de seus programas de propulsão nuclear.
A propósito, é muito significativo o ensinamento de Sun Tzu:
“Dominar a arte da guerra é fundamental para o Estado.
Conhecê-la bem é questão de vida ou morte.
A diferença entre segurança e ruína.
Em nenhuma circunstância deve ser negligenciada.”

Capa SD 113
 

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