Introduzido em 15/01/2004
Royal Navy: uma
Marinha oceânica em ação


Apesar das reduções ocorridas desde o fim da Guerra Fria, a Marinha Real britânica ainda é uma força naval oceânica, capaz de operar em áreas marítimas distantes do Reino Unido – como Caribe, Atlântico Sul, Mediterrâneo, Golfo Pérsico e Extremo Oriente.

Eduardo Italo Pesce


Acima O navio porta-helicópteros de assalto anfíbio HMS Ocean é visto na foto navegando ao lado do navio-aeródromo HMS Illustrious, o que permite uma comparação direta das dimensões dos dois navios (Foto: Royal Navy).

Na década de 70 do século passado, Ken Booth classificou as Marinhas em quatro tipos: (1) Marinhas globais (global navies), capazes de operar praticamente em todos os mares do mundo (Estados Unidos e União Soviética); (2) Marinhas oceânicas (ocean-going navies), capazes de montar uma operação de porte significativo, em águas distantes de seu território (Grã-Bretanha e França); (3) Marinhas de mar contíguo (contiguous sea navies), capazes de operar a alguma distância de seu litoral, possuindo porém poucas unidades com capacidade oceânica (a maioria das Marinhas de porte médio, inclusive a do Brasil); e (4) Marinhas costeiras (coastal navies), que possuíam apenas unidades de porte modesto, com capacidade de emprego costeiro e litorâneo.
Apesar da dissolução da antiga URSS, no início dos anos 90, e do rebaixamento da Marinha russa pós-soviética ao mesmo nível da britânica e da francesa, a classificação de Ken Booth permanece válida. A Royal Navy atual, embora muito menor do que foi no passado, é ainda uma força naval oceânica com capacidade de projeção de poder, dotada de navios-aeródromo (NAe) capazes de operar com aeronaves de decolagem curta e pouso vertical (STOVL – Short Takeoff/Vertical Landing), modernos navios de escolta, submarinos nucleares de ataque e de mísseis balísticos, navios de assalto anfíbio e uma quantidade razoável de navios de apoio logístico móvel. Por ironia, pouco antes do conflito do Atlântico Sul de 1982, o governo britânico havia decidido transformar a Marinha Real numa força anti-submarino (constituída por submarinos nucleares e por navios de escolta de superfície, apoiados por aviação baseada em terra), cuja área de operações seria restrita ao Atlântico Norte.

Ao lado A HMS Lancaster, uma das 16 fragatas Type 23 que formam o esteio da força de escoltas da Royal Navy (Foto: Royal Navy).

Situação dos meios
No segundo semestre de 2003, a Royal Navy (RN) dispunha de 121 unidades de combate e auxiliares, sem incluir as embarcações de serviço e de desembarque. Um total de 101 navios de superfície e submarinos, identificados pela sigla HMS (Her Majesty’s Ship, ou Navio de Sua Majestade) antes do nome, eram tripulados por pessoal militar da Marinha Real. As menores unidades em serviço eram o HMS Sabre e o HMS Scimitar, duas lanchas rápidas de patrulha do Gibraltar Squadron (Esquadrão de Gibraltar). Outros 20 navios auxiliares (de apoio logístico, desembarque ou transporte), tripulados por pessoal civil da Marinha Mercante, integravam o Royal Fleet Auxiliary Service (Serviço Auxiliar da Esquadra Real), sendo identificados pela sigla RFA antes do nome.
Além dos meios flutuantes, a Marinha Real dispõe de uma Arma Aérea da Esquadra (Fleet Air Arm – FAA) orgânica, constituída por 18 esquadrões, equipados com aeronaves de asa fixa e helicópteros (cerca de 200 aeronaves operacionais e 50 de instrução), que operam embarcados a bordo de navios-aeródromo e outras classes de navios de superfície, assim como em apoio às operações anfíbias dos Royal Marines (Reais Fuzileiros Navais) ou em missões de busca e salvamento, apoio logístico e instrução.
As aeronaves de asa rotativa, que constituem a maioria dos meios aéreos em serviço na RN, incluem o Agusta Westland EH101 Merlin (anti-submarino), o Westland Sea King (em versões anti-submarino, de alarme aéreo antecipado e de transporte), o Westland Lynx (nas versões naval e de apoio terrestre) e o Westland Gazelle. As unidades aéreas da FAA são apoiadas por vários esquadrões da Real Força Aérea (Royal Air Force – RAF). Os esquadrões de aeronaves STOVL do tipo Sea Harrier são complementados regularmente por esquadrões de Harrier da RAF. A Real Força Aérea também opera a aviação de patrulha marítima baseada em terra, cujos esquadrões são equipados com aeronaves do tipo Nimrod.
Por sua vez, a 3ª Brigada de Comandos dos Reais Fuzileiros Navais (3 Commando Brigade Royal Marines – 3 CDO BDE) inclui unidades de apoio de artilharia, blindados e engenharia do Exército Britânico, além de pessoal especializado da RAF. Refletindo a ênfase no combate ao terrorismo, as unidades de comandos (RM Commandos), equivalentes a batalhões de infantaria, foram recentemente reorganizadas em componentes de combate, apoio de fogo e apoio logístico. A composição do pessoal que guarnece os meios flutuantes, aéreos e anfíbios (de fuzileiros navais) à disposição da Royal Navy atesta o elevado grau de integração das Forças Armadas britânicas.

Modernização
O principal item do programa de modernização naval britânico é o projeto CVF (Future Aircraft Carrier), que visa à substituição dos três navios-aeródromo da classe “Invincible” por duas unidades de maior porte, cuja entrada em serviço está prevista para 2012 e 2015 (ver S&D n° 74, págs. 48-51). Os futuros NAe britânicos deverão operar com novos caças STOVL Lockheed Martin F-35B Lightning II (em substituição aos Sea Harrier FA.2 e Harrier GR.7 – e, mais adiante, GR.9 – operados pelos esquadrões da FAA e da RAF) e com aeronaves de alarme aéreo antecipado (AEW – Airborne Early Warning) de tipo a ser definido, além de helicópteros anti-submarino Westland Agusta Merlin HM.1.


Acima O HMS Spartan é um dos cinco submarinos nucleares de ataque da Classe "Swiftsure", agora armados com mísseis de cruzeiro Tomahawk, além de torpedos e do míssil anti-navio Sub-Harpoon (Foto: Royal Navy).

Entre 2007 e 2011, deverão entrar em serviço seis contratorpedeiros da classe “Daring”, ou Type 45 (HMS Daring, HMS Dauntless, HMS Diamond, HMS Dragon, HMS Defender e HMS Duncan), substituindo parte dos Type 42 ainda em serviço. Dois novos navios de desembarque e transporte doca, o HMS Albion e o HMS Bulwark, vêm substituir, com algum atraso, duas unidades semelhantes que já deram baixa. O primeiro já foi entregue, estando a prontificação do segundo prevista para 2004. Quatro navios de desembarque doca da classe “Bay” (RFA Largs Bay, RFA Lyme Bay, RFA Mounts Bay e RFA Cardigan Bay) encontram-se em construção, para entrada em serviço em 2004-2005, devendo substituir os três navios de desembarque logístico classe “Sir Bedivere” e o navio de desembarque logístico RFA Sir Galahad. Três submarinos nucleares de ataque da classe “Astute” estão em construção (HMS Astute, HMS Ambush e HMS Artful), com mais três projetados. Três navios-patrulha da classe “River” (HMS Tyne, HMS Severn e HMS Mersey), o primeiro dos quais já entregue, estão substituindo as unidades remanescentes da classe “Island”.


Acima Embora com algumas limitações, os mísseis Sea Dart ainda são a principal arma de defesa anti-aérea de área de que dispõe a Royal Navy, equipando os 3 lotes de Contratorpedeiros Type 42. Na foto, o HMS Exeter, do Lote 2 (Foto: Royal Navy).

É interessante notar que, para atender as necessidades de maior quantidade de meios de apoio a operações de vulto a grandes distâncias, a Royal Navy costuma arrendar navios civis do tipo “Roll-on-Roll-off” (como o RFA Sea Crusader e o RFA Sea Centurion) ou terceirizar esses serviços. Em 26 de outubro de 2000 foi anunciada a concessão de um contrato à empresa A.W.S.R. Ltd. para fornecer serviço de transporte marítimo estratégico em apoio à Joint Rapid Reaction Force (da qual falaremos mais adiante) por um período de 25 anos. Com esse fim, em 2003 está sendo concluída a entrega da série de três navios de transporte logístico “Ro-Ro” da classe “Hartland Point”. Esses navios deverão ser utilizados apenas em grandes exercícios/operações; durante o restante do tempo estarão disponíveis para serviço comercial.
A incorporação dos novos meios permitirá à Marinha Real manter a capacidade de operar, por períodos relativamente prolongados, em águas distantes do Reino Unido, não só participando de operações combinadas e interaliadas – no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sob os auspícios da Organização das Nações Unidas (ONU) ou em função de compromissos bilaterais e regionais – como realizando ações de presença naval, em defesa dos interesses nacionais britânicos.
Elementos da Royal Navy e dos Royal Marines integram várias Forças Combinadas (Joint Forces), no âmbito das Forças Armadas do Reino Unido, tais como as Joint Rapid Reaction Forces (constituídas por unidades de pronta resposta), a Joint Force Harrier (que reúne os esquadrões de Sea Harrier FA.2 da Marinha e de Harrier GR.7 da RAF) e o Joint Helicopter Command (constituído pelos helicópteros de ataque e transporte de tropas).



Evolução da estrutura
Desde a criação do Ministério da Defesa britânico, na década de 60, o comando militar da Royal Navy é exercido pelo First Sea Lord and Chief of Naval Staff (Primeiro Lorde do Mar e Chefe do Estado-Maior Naval). A este almirante (quatro estrelas) estão hoje subordinados os departamentos técnicos, a Esquadra (inclusive o RFA e a Fleet Air Arm), os Royal Marines, as bases e os estabelecimentos de apoio. O Comandante-em-Chefe da Esquadra (Commander-in-Chief Fleet – CINCFLEET), sediado em Northwood (nos arredores de Londres), é atualmente um almirante (quatro estrelas).
Os navios de superfície, os submarinos, a aviação e os fuzileiros navais constituem os quatro ramos combatentes da Royal Navy. Os Royal Marines (RM) não chegam a ser uma força singular autônoma (como ocorre nos Estados Unidos), podendo ser descritos como um regimento de infantaria orgânico da Marinha Real. O Comandante-Geral dos Reais Fuzileiros Navais (Commandant General Royal Marines – CGRM) é um major-general (duas estrelas) desta corporação.
Para fins administrativos, os navios da Esquadra britânica constituem flotilhas e esquadrões. O adestramento operativo é atribuição do Flag Officer Sea Training (FOST), um contra-almirante (duas estrelas) cujo comando inclui elementos sediados em Devonport e na foz do Clyde (Escócia), com um destacamento em Northwood. Para fins de emprego, o CINCFLEET tem outros dois subordinados: o Comandante das Forças Marítimas do Reino Unido (Commander United Kingdom Maritime Forces – COMUKMARFOR) e o Comandante das Forças Anfíbias do Reino Unido (Commander UK Amphibious Forces – COMUKAMPHIBFOR).
O COMUKMARFOR, um contra-almirante, tem como subordinados o Comandante do Grupo-Tarefa do Reino Unido (Commander UK Task Group – COMUKTG) e o Comandante do Grupo-Tarefa Anfíbio (Commander Amphibious Task Group – COMATG), ambos comodoros (uma estrela). O COMUKAMPHIBFOR é exercido cumulativamente pelo CGRM, um major-general ao qual se subordina o comandante da 3 CDO BDE, um brigadeiro (uma estrela).

Operações marítimas
O COMUKMARFOR dispõe de um estado-maior denominado UK Maritime Battle Staff (UKMARBATSTAFF), que pode ser rapidamente expandido para um total de aproximadamente 70 oficiais e embarcado a bordo de navios, constituindo o estado-maior de um Comandante de Componente Marítimo (Maritime Component Commander – MCC). Esta equipe atua tanto no nível operacional, prestando apoio ao comando de uma Força-Tarefa Combinada (Joint Task Force – JTF), como no nível tático, apoiando o componente marítimo desta força.

Ao lado Os quatro submarinos nucleares de mísseis balísticos (SSBN) da Classe “Vanguard”, cada um armado com 16 mísseis Trident D5, são o principal meio de dissuasão da Marinha Real (Foto: Royal Navy).

Em períodos normais de paz, o COMUKMARFOR e o COMUKAMPHIBFOR, assim como o COMUKTG, o COMATG e o comando da 3 CDO BDE, estão sediados num quartel-general em Whale Island (uma ilha no porto de Portsmouth). A reunião destes comandos de força, com seus respectivos estados-maiores, é denominada Estado-Maior de Batalha da Esquadra (Fleet Battle Staff – FBS). Esta organização, que inclui elementos sediados em Portsmouth e Plymouth, é o núcleo a partir do qual são constituídos, em caso de guerra ou de crise internacional, comandos de forças-tarefa e grupos-tarefa da Royal Navy e dos Royal Marines para operar em qualquer parte do mundo.

Acima A Royal Navy possui grande capacidade de projetar poder onde quer que seja necessário. Na foto, Royal Marines em ação durante o conflito do Kosovo (Foto: Royal Navy).

Atualmente, as operações da Marinha Real abrangem seis áreas marítimas, onde é mantida uma presença naval em caráter permanente ou intermitente: Atlântico Norte (incluindo o Caribe), Atlântico Sul, Reino Unido, Mediterrâneo, Golfo Pérsico e Extremo Oriente. Naturalmente, o nível da presença naval britânica, em operações multinacionais ou em defesa de interesses nacionais, é muito inferior àquele mantido pela Marinha dos EUA, em suas operações de escala global. No entanto, o nível de atividade das unidades da Royal Navy, considerando a quantidade limitada de meios hoje disponíveis, é realmente significativo.

Atlântico Norte e Caribe
Com o fim da Guerra Fria, a necessidade de manter forças navais poderosas, para operações anti-submarino no Atlântico Norte, deixou de existir. O número de navios de escolta em serviço foi progressivamente reduzido, até chegar a 31 unidades. Por razões de economia (a fim de permitir a construção dos novos NAe), foi recentemente tomada a decisão de reduzi-lo para apenas 26 unidades. Entretanto, nos anos 90 a interdição marítima do tráfego internacional de drogas passou a ser considerada tarefa militar, o que tornou necessário o emprego de navios de superfície em ações desse tipo.
Em 1998, foi estabelecida uma estação de patrulha no Caribe, designada como Atlantic Patrol Task (North). Esta estação é guarnecida durante a maior parte do ano por um navio de escolta (contratorpedeiro ou fragata), o qual é mantido em alerta de 14 dias pelo restante do ano. Em agosto de 2003, o contratorpedeiro Type 42 Batch 3 HMS Manchester substituiu a fragata Type 23 HMS Iron Duke como navio em serviço de patrulha no Caribe. Aquela unidade desempenhará operações antidrogas e atuará na promoção dos interesses britânicos na região, até dezembro.
No âmbito da OTAN, existe a Força Naval Permanente do Atlântico (Standing Naval Force Atlantic – STANAVFORLANT), integrada por navios de escolta e de apoio logístico de várias nacionalidades. Esta força conduz exercícios operativos em ambos os lados do Atlântico Norte, em atendimento ao Artigo 7º da Carta da OTAN. No início do segundo semestre de 2003, a fragata Type 22 Batch 3 HMS Cornwall era a contribuição britânica para a STANAVFORLANT.


Acima O Super Lynx HAS Mk.8 é o helicóptero embarcado na maioria dos navios de escolta britânicos (Foto: Royal Navy).

Ainda no âmbito da OTAN, deve ser mencionada a Força de Contramedidas de Minas (Norte) – Mine Countermeasures Force (North) –, constituída por navios de contraminagem dos vários países-membros. No início do segundo semestre, esta força incluía o caça-minas britânico HMS Inverness, da classe “Sandown”. O pequeno número de navios em operação no Atlântico Norte e no Caribe reflete o caráter modesto do Poder Naval britânico de hoje. Normalmente, são necessárias três unidades de determinado tipo de navio (uma em posicionamento avançado, uma em trânsito ou adestramento e uma terceira em manutenção), a fim de manter uma unidade permanentemente disponível para emprego operativo.

Atlântico Sul e Antártica
No caso do Atlântico Sul, as distâncias envolvidas são ainda maiores. Basta recordar o esforço logístico desenvolvido pelas Forças Armadas britânicas em 1982, durante a Guerra das Falklands/Malvinas, a fim de sustentar e apoiar as operações militares nesta parte do mundo. Em 1998, foi estabelecida a estação de patrulha denominada Atlantic Patrol Task (South), guarnecida durante a maior parte do ano por um navio de escolta (apoiado por um navio de apoio logístico do RFA), cuja área de operações abrange o Atlântico Sul e a África Ocidental. Quando a área está desguarnecida, um navio é mantido em alerta de 14 dias, a fim de responder a qualquer emergência.


Acima Concepção artística da nova classe de submarinos nucleares de ataque britânica, a “Astute” (Foto: Royal Navy).

No primeiro semestre deste ano, o início da comissão da fragata Type 23 HMS Lancaster no Atlântico Sul sofreu atraso, devido à realização da Operação “Fresco” (em apoio à autoridade civil durante a greve dos bombeiros no Reino Unido), o que criou um hiato de presença naval na área. Com o fim daquela operação, o navio seguiu para sua área de patrulha em julho, devendo aí permanecer até dezembro de 2003. Periodicamente, a presença naval britânica no Atlântico Sul inclui também um submarino nuclear de ataque.
O Reino Unido mantém ainda um navio-patrulha na área das Falklands/Malvinas e Geórgias do Sul. Esta estação, denominada Falklands Patrol Ship, é guarnecida por uma unidade da classe “Castle”, atualmente o HMS Leeds Castle. Durante o verão austral (por aproximadamente seis meses a cada ano), o navio-patrulha polar HMS Endurance opera em águas da Antártica, a fim de apoiar a presença britânica naquele continente e garantir a segurança da navegação na área. Este ano, após encerrar sua comissão como Navio de Patrulha Antártico (Antarctic Patrol Ship), o navio regressou ao Reino Unido, fazendo escala em Nova York.

Águas do Reino Unido
Em águas domésticas, onde estão concentrados os navios em fase de adestramento ou manutenção, a Marinha Real mantém o Esquadrão de Proteção à Pesca (Fishery Protection Squadron), que pode empregar navios-patrulha das classes “Castle”, “Island” e “River”, assim como caça-minas da classe “Hunt” adaptados, na proteção à pesca e em outras tarefas subsidiárias. O HMS Guernsey e o HMS Anglesey, da classe “Island”, o HMS Cattistock, da classe “Hunt”, e o novo HMS Tyne, da classe “River”, operam atualmente em missões de proteção à pesca.


Acima A Royal Navy mantém uma importante força de navios especializados em
operações de guerra de minas. Na foto, o HMS Berkeley, da Classe “Hunt” (Foto: Royal Navy).

Em águas da Irlanda do Norte, opera o Northern Ireland Squadron, atualmente constituído por três unidades da classe “Hunt”, o HMS Cottesmore, o HMS Dulverton e o HMS Brecon. Estes navios (o primeiro dos quais estava em serviço de patrulha em meados do ano) participam da Operação “Sealion”, de interdição marítima contra o terrorismo. A Royal Navy mantém ainda, em águas do Reino Unido, um navio de escolta em alerta, como Escolta Pronto da Esquadra (Fleet Ready Escort – FRE). Em setembro de 2003, o contratorpedeiro Type 42 Batch 3 HMS Edinburgh substituiu a fragata Type 23 HMS Grafton nesta função. Atuando em exercícios navais no Báltico, encontrava-se, nesta ocasião, o caça-minas HMS Penzance, da classe “Sandown”.

Mediterrâneo
Estabelecida em 1992 no âmbito da OTAN, a Força Naval Permanente do Mediterrâneo (Standing Naval Force Mediterranean – STANAVFORMED), é constituída por navios dos vários países da organização. Em julho de 2003, a fragata britânica Type 23 HMS Northumberland foi substituída por uma unidade da mesma classe, a fragata HMS Portland, que deverá integrar esta força até dezembro. Desde outubro de 2001, a STANAVFORMED, juntamente com a STANAVFORLANT, participa da Operação “Active Endeavour” no Mediterrâneo Oriental.


Acima Os helicópteros Merlin já estão entrando em serviço e em breve substituirão totalmente os Sea King (Foto: Royal Navy).

A Operação “Active/Direct Endeavour” é realizada em caráter intermitente (durante três meses de cada vez), para o monitoramento do tráfego marítimo destinado à Europa (procedente de Suez, do Mar Negro, do Oriente Próximo ou do Norte da África), em busca de terroristas da Al-Qaeda. Ainda no âmbito da OTAN, opera no Mediterrâneo a Força de Contramedida de Minas (Sul) — Mine Countermeasures Force (South) —, constituída por navios de contraminagem de várias nações. No início do segundo semestre, nenhum navio britânico integrava esta força.

Golfo Pérsico e Mar da Arábia
Desde o início de 2003, a atividade naval britânica nesta região foi aumentada. No início de maio, era de aproximadamente 30 navios. A maioria das unidades estava envolvida na Operação “Telic”, dando seqüência à participação britânica na guerra contra o Iraque. O navio-aeródromo HMS Ark Royal foi temporariamente configurado como porta-helicópteros de assalto, operando juntamente com o HMS Ocean nesta função. O NAe atuou como navio-capitânia de um grupo-tarefa anfíbio sob comando do COMUKTG, Comodoro James Millar, RN.
Além do grupo-tarefa anfíbio e dos elementos da 3ª Brigada de Comandos, com apoio aéreo, as operações britânicas contra o Iraque incluíram a participação de navios de escolta, de contraminagem e de apoio logístico, assim como dos submarinos nucleares de ataque HMS Turbulent, da classe “Trafalgar”, e HMS Splendid, da classe “Swiftsure” (que, durante a campanha, lançaram mísseis de cruzeiro Tomahawk contra alvos iraquianos).


Acima Os Sea Harrier FA.2 ainda são, ao lado dos Harrier Gr.7 da RAF (que também embarcam nos navios-aeródromo da Classe “Invincible”), o principal avião de combate de asa fixa da Esquadra britânica (Foto: Royal Navy).

O comando geral do grupo-tarefa britânico foi exercido pelo COMUKMARFOR, Contra-Almirante David Snelson, RN, da base naval norte-americana em Bahrain, no Golfo Pérsico, para onde foi deslocado um estado-maior constituído por cerca de 50 oficiais. Desde novembro de 2001, quando forças navais do Reino Unido passaram a operar no Golfo, o Fleet Battle Staff, em Portsmouth, vinha mantendo uma equipe permanentemente em alerta de 48 horas. Em apoio à participação britânica na campanha iraquiana, foi utilizado um total de 64 navios mercantes fretados. Os britânicos chegaram a manter na região cerca de nove mil oficiais e praças de todas as forças singulares envolvidos em operações marítimas. Em maio, as unidades navais britânicas começaram a retornar a suas bases no Reino Unido.
Operação “Oracle” é a designação da participação britânica na Operação “Enduring Freedom” norte-americana, que inclui navios de 13 nações, no desempenho de missões de interdição marítima contra a Al-Qaeda e outros grupos terroristas. A área de cobertura vai do norte do Golfo Pérsico até o Chifre da África. Em julho de 2003, a fragata Type 23 HMS Kent substituiu a fragata Type 22 Batch 3 HMS Chatham nesta operação, devendo permanecer a leste de Suez até novembro de 2003.
Há ainda a Operação “Resinate” (também denominada Armilla Patrol), mantida desde 1980. Esta estação de patrulha foi criada no início da Guerra Irã-Iraque e vem sendo mantida desde então, com a finalidade principal reprimir o contrabando de petróleo iraquiano. Freqüentemente, o pessoal da Royal Navy e dos Royal Marines realiza ações de abordagem de navios mercantes suspeitos, no mar ou no porto. Em julho de 2003, a fragata Type 23 HMS Sutherland substituiu a fragata HMS Richmond, da mesma classe, na Operação “Resinate”. Os navios britânicos na região visitam portos de diferentes países e realizam diversas operações de interdição marítima, em cumprimento a resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Extremo Oriente
Em época recente, a presença britânica nesta região do globo tem sido intermitente e periódica. No primeiro semestre deste ano, foi realizado o NTG (Naval Task Group 2003), o primeiro exercício operativo a leste de Suez (na região do Golfo, no Oceano Índico ou em águas asiáticas do Pacífico) desde 2000. Estes exercícios tiveram início com a Operação “Ocean Wave” em 1997, e tiveram seqüência com o NTG 2000 três anos depois. O exercício NTG 2003 teve que ser reduzido, devido à Operação “Telic”. O grupo-tarefa, constituído pela fragata Type 23 HMS Marlborough (capitânia), o contratorpedeiro Type 42 Batch 2 HMS Liverpool e o navio-tanque RFA Green Rover, regressou ao Reino Unido em agosto.
Simultaneamente, foi realizado o exercício trienal “Flying Fish”, em atendimento aos acordos multilaterais de defesa (Five Power Defence Arrangements – FPDA), entre Reino Unido, Austrália, Malásia, Nova Zelândia e Cingapura. Este ano, o exercício (que contou com a participação dos navios do grupo-tarefa britânico) teve como anfitrião a Malásia, que se reveza com Cingapura no desempenho desta função. Hoje em dia, a atividade naval britânica em águas do Extremo Oriente é muito reduzida, em comparação com o que foi até meados do século passado.


Acima A Royal Navy tem na excelência da formação de seu pessoal um de seus diferenciais. Na foto, mergulhadores de combate ingleses (Foto: Royal Navy).

Capacidade oceânica
Os esforços da Royal Navy no sentido de manter um nível razoável de presença em águas distantes do Reino Unido caracterizam as limitações de uma Marinha oceânica, capaz de realizar apenas uma operação de porte significativo em áreas remotas, conforme foi mencionado no início deste trabalho. No primeiro semestre de 2003, a Operação “Telic”, no Golfo Pérsico, constituiu o esforço principal. Nas demais áreas marítimas de interesse estratégico, como vimos, a atividade naval britânica é reduzida ou intermitente. O sistema britânico de presença naval intermitente, por meio do envio periódico de grupos-tarefa a áreas marítimas distantes, difere do sistema francês de presença permanente, por meio da manutenção de guarnições navais reduzidas nos departamentos de ultramar.
As unidades de superfície da moderna Royal Navy incluem três NAe e vários navios de assalto anfíbio, assim como uma quantidade razoável de navios de escolta (contratorpedeiros e fragatas). Entretanto, com relação a unidades de combate, o que realmente distingue a Marinha Real de outras Marinhas de porte médio é sua numerosa força de submarinos nucleares, constituída por 11 unidades de ataque (SSN) e quatro de mísseis balísticos (SSBN). Todos os submarinos britânicos atualmente em serviço (assim como em construção ou sob encomenda) são dotados de propulsão nuclear.
Como os navios de escolta necessitam com freqüência de reabastecimento no mar, a relação entre o número destes e o de navios de apoio logístico é indicativo da capacidade oceânica de uma Marinha. A Royal Navy possui atualmente 31 navios de escolta, dispondo de 13 navios de reabastecimento (nove navios-tanque e quatro navios de apoio e suprimento) operados pelo RFA, o que corresponde a uma relação de 2,4 escoltas para cada unidade de reabastecimento.
O número de navios de apoio logístico móvel é uma das características mais marcantes da Royal Navy atual. A disponibilidade de tais navios em número razoável permite acrescentar pelo menos um a cada grupo-tarefa, por mais reduzida que seja a sua composição (um ou dois navios de escolta e um navio-tanque, por exemplo), possibilitando que este permaneça em sua área de operações por períodos de até seis meses.
O número de navios-patrulha operados pela Marinha Real é reduzido, pois o Reino Unido tem uma área marítima costeira relativamente pequena para patrulhar. Entretanto, o número de navios de contraminagem é elevado, denotando a importância desta modalidade de guerra, em águas restritas como as do Canal da Mancha e do Mar do Norte. O pequeno número de navios hidroceanográficos em serviço deve-se ao fato de que a área marítima em torno das Ilhas Britânicas já foi levantada com precisão há bastante tempo.

Implicações para o Brasil
O total de navios de todos os tipos, em serviço na Royal Navy e no RFA, é apenas cerca de 20% superior ao número de navios de que dispõe a Marinha do Brasil. A experiência britânica em “operações fora de área” pode fornecer lições bastante úteis para o nosso país. De fato, se a aspiração brasileira de vir a integrar, em caráter permanente, o Conselho de Segurança da ONU vier a concretizar-se, nossa Marinha deverá incrementar sua capacidade de realizar operações em áreas marítimas distantes. A ampliação da capacidade oceânica, pelo aumento do número de navios de apoio logístico móvel, deve estar entre as prioridades do programa de reaparelhamento da Marinha do Brasil.
Há quem considere absurda tal sugestão, alegando que um país pobre, como o nosso, não pode possuir uma Marinha de águas profundas. Só que o Brasil não é exatamente um país pobre. Existem atualmente apenas três países com mais de oito milhões de quilômetros quadrados de território, cuja população é superior a 170 milhões de habitantes e cujo Produto Interno Bruto (PIB) é superior a meio trilhão de dólares norte-americanos: Estados Unidos, China e Brasil.
A constituição de uma verdadeira Marinha oceânica é tarefa para várias décadas, mas nada impede que uma Marinha de porte modesto adquira a capacitação necessária para operar em áreas marítimas distantes. O ingrediente principal é a vontade de realizar tal transformação. Em tempo de paz (participando de operações da ONU ou desempenhando ações de presença naval, na promoção dos interesses nacionais), a capacidade de permanência de uma força naval no mar, e não o poder de fogo de suas unidades, é o fator essencial. Em tais condições, o controle de uma área marítima não é disputado, e sim compartilhado por forças de várias nações.
Apesar disso, a definição das características dos meios flutuantes, aéreos e anfíbios que compõem uma Marinha deve estar baseada em requisitos de desempenho em combate, e não em operações destinadas a “mostrar a bandeira”. Uma força desenvolvida para o combate possui a credibilidade necessária para atuar como instrumento de política externa. O contrário, porém, não é necessariamente verdadeiro.

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