Introduzido
em 15/01/2004
Royal
Navy: uma
Marinha oceânica em ação
Apesar
das reduções ocorridas desde o fim
da Guerra Fria, a Marinha Real britânica ainda é uma
força naval oceânica, capaz de operar em áreas
marítimas distantes do Reino Unido – como
Caribe, Atlântico Sul, Mediterrâneo, Golfo
Pérsico e Extremo Oriente.
•
Eduardo Italo Pesce

Acima O
navio porta-helicópteros de assalto anfíbio
HMS Ocean é visto na foto navegando ao lado
do navio-aeródromo HMS Illustrious, o que
permite uma comparação direta das dimensões
dos dois navios (Foto: Royal Navy).
Na década de 70 do século passado, Ken Booth
classificou as Marinhas em quatro tipos: (1) Marinhas globais
(global navies), capazes de operar praticamente em todos
os mares do mundo (Estados Unidos e União Soviética);
(2) Marinhas oceânicas (ocean-going navies), capazes
de montar uma operação de porte significativo,
em águas distantes de seu território (Grã-Bretanha
e França); (3) Marinhas de mar contíguo (contiguous
sea navies), capazes de operar a alguma distância
de seu litoral, possuindo porém poucas unidades
com capacidade oceânica (a maioria das Marinhas de
porte médio, inclusive a do Brasil); e (4) Marinhas
costeiras (coastal navies), que possuíam apenas
unidades de porte modesto, com capacidade de emprego costeiro
e litorâneo.
Apesar da dissolução da antiga URSS, no início
dos anos 90, e do rebaixamento da Marinha russa pós-soviética
ao mesmo nível da britânica e da francesa,
a classificação de Ken Booth permanece válida.
A Royal Navy atual, embora muito menor do que foi no passado, é ainda
uma força naval oceânica com capacidade de
projeção de poder, dotada de navios-aeródromo
(NAe) capazes de operar com aeronaves de decolagem curta
e pouso vertical (STOVL – Short Takeoff/Vertical
Landing), modernos navios de escolta, submarinos nucleares
de ataque e de mísseis balísticos, navios
de assalto anfíbio e uma quantidade razoável
de navios de apoio logístico móvel. Por ironia,
pouco antes do conflito do Atlântico Sul de 1982,
o governo britânico havia decidido transformar a
Marinha Real numa força anti-submarino (constituída
por submarinos nucleares e por navios de escolta de superfície,
apoiados por aviação baseada em terra), cuja área
de operações seria restrita ao Atlântico
Norte.
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Ao
lado A HMS Lancaster, uma das
16 fragatas Type 23 que formam o esteio da força
de escoltas da Royal Navy (Foto: Royal Navy). |
|
Situação
dos meios
No segundo semestre de 2003, a Royal Navy (RN) dispunha
de 121 unidades de combate e auxiliares, sem incluir as
embarcações de serviço e de desembarque.
Um total de 101 navios de superfície e submarinos,
identificados pela sigla HMS (Her Majesty’s Ship,
ou Navio de Sua Majestade) antes do nome, eram tripulados
por pessoal militar da Marinha Real. As menores unidades
em serviço eram o HMS Sabre e o HMS Scimitar, duas
lanchas rápidas de patrulha do Gibraltar Squadron
(Esquadrão de Gibraltar). Outros 20 navios auxiliares
(de apoio logístico, desembarque ou transporte),
tripulados por pessoal civil da Marinha Mercante, integravam
o Royal Fleet Auxiliary Service (Serviço Auxiliar
da Esquadra Real), sendo identificados pela sigla RFA antes
do nome.
Além dos meios flutuantes, a Marinha Real dispõe
de uma Arma Aérea da Esquadra (Fleet Air Arm – FAA)
orgânica, constituída por 18 esquadrões,
equipados com aeronaves de asa fixa e helicópteros
(cerca de 200 aeronaves operacionais e 50 de instrução),
que operam embarcados a bordo de navios-aeródromo
e outras classes de navios de superfície, assim
como em apoio às operações anfíbias
dos Royal Marines (Reais Fuzileiros Navais) ou em missões
de busca e salvamento, apoio logístico e instrução.
As aeronaves de asa rotativa, que constituem a maioria
dos meios aéreos em serviço na RN, incluem
o Agusta Westland EH101 Merlin (anti-submarino), o Westland
Sea King (em versões anti-submarino, de alarme aéreo
antecipado e de transporte), o Westland Lynx (nas versões
naval e de apoio terrestre) e o Westland Gazelle. As unidades
aéreas da FAA são apoiadas por vários
esquadrões da Real Força Aérea (Royal
Air Force – RAF). Os esquadrões de aeronaves
STOVL do tipo Sea Harrier são complementados regularmente
por esquadrões de Harrier da RAF. A Real Força
Aérea também opera a aviação
de patrulha marítima baseada em terra, cujos esquadrões
são equipados com aeronaves do tipo Nimrod.
Por sua vez, a 3ª Brigada de Comandos dos Reais Fuzileiros
Navais (3 Commando Brigade Royal Marines – 3 CDO
BDE) inclui unidades de apoio de artilharia, blindados
e engenharia do Exército Britânico, além
de pessoal especializado da RAF. Refletindo a ênfase
no combate ao terrorismo, as unidades de comandos (RM Commandos),
equivalentes a batalhões de infantaria, foram recentemente
reorganizadas em componentes de combate, apoio de fogo
e apoio logístico. A composição do
pessoal que guarnece os meios flutuantes, aéreos
e anfíbios (de fuzileiros navais) à disposição
da Royal Navy atesta o elevado grau de integração
das Forças Armadas britânicas.
Modernização
O principal item do programa de modernização
naval britânico é o projeto CVF (Future Aircraft
Carrier), que visa à substituição
dos três navios-aeródromo da classe “Invincible” por
duas unidades de maior porte, cuja entrada em serviço
está prevista para 2012 e 2015 (ver S&D n° 74,
págs. 48-51). Os futuros NAe britânicos deverão
operar com novos caças STOVL Lockheed Martin F-35B
Lightning II (em substituição aos Sea Harrier
FA.2 e Harrier GR.7 – e, mais adiante, GR.9 – operados
pelos esquadrões da FAA e da RAF) e com aeronaves
de alarme aéreo antecipado (AEW – Airborne
Early Warning) de tipo a ser definido, além de helicópteros
anti-submarino Westland Agusta Merlin HM.1.
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Acima O
HMS Spartan é um dos cinco submarinos nucleares
de ataque da Classe "Swiftsure", agora armados
com mísseis de cruzeiro Tomahawk, além de
torpedos e do míssil anti-navio Sub-Harpoon (Foto:
Royal Navy).
Entre
2007 e 2011, deverão entrar em serviço
seis contratorpedeiros da classe “Daring”,
ou Type 45 (HMS Daring, HMS Dauntless, HMS Diamond, HMS
Dragon, HMS Defender e HMS Duncan), substituindo parte
dos Type 42 ainda em serviço. Dois novos navios
de desembarque e transporte doca, o HMS Albion e o HMS
Bulwark, vêm substituir, com algum atraso, duas unidades
semelhantes que já deram baixa. O primeiro já foi
entregue, estando a prontificação do segundo
prevista para 2004. Quatro navios de desembarque doca da
classe “Bay” (RFA Largs Bay, RFA Lyme
Bay,
RFA Mounts Bay e RFA Cardigan Bay) encontram-se em construção,
para entrada em serviço em 2004-2005, devendo substituir
os três navios de desembarque logístico classe “Sir
Bedivere” e o navio de desembarque logístico
RFA Sir Galahad. Três submarinos nucleares de ataque
da classe “Astute” estão em construção
(HMS Astute, HMS Ambush e HMS Artful), com mais três
projetados. Três navios-patrulha da classe “River” (HMS Tyne, HMS Severn e HMS Mersey), o primeiro dos quais já entregue,
estão substituindo as unidades remanescentes da
classe “Island”.
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Acima Embora
com algumas limitações, os mísseis Sea
Dart ainda são a principal arma de defesa anti-aérea
de área de que dispõe a Royal Navy, equipando
os 3 lotes de Contratorpedeiros Type 42. Na foto, o HMS Exeter,
do Lote 2 (Foto: Royal Navy).
É
interessante notar que, para atender as necessidades de
maior quantidade de meios de apoio a operações
de vulto a grandes distâncias, a Royal Navy costuma
arrendar navios civis do tipo “Roll-on-Roll-off” (como
o RFA Sea Crusader e o RFA Sea Centurion) ou terceirizar
esses serviços. Em 26 de outubro de 2000 foi anunciada
a concessão de um contrato à empresa A.W.S.R.
Ltd. para fornecer serviço de transporte marítimo
estratégico em apoio à Joint Rapid Reaction
Force (da qual falaremos mais adiante) por um período
de 25 anos. Com esse fim, em 2003 está sendo concluída
a entrega da série de três navios de transporte
logístico “Ro-Ro” da classe “Hartland
Point”. Esses navios deverão ser utilizados
apenas em grandes exercícios/operações;
durante o restante do tempo estarão disponíveis
para serviço comercial.
A incorporação dos novos meios permitirá à Marinha
Real manter a capacidade de operar, por períodos
relativamente prolongados, em águas distantes do
Reino Unido, não só participando de operações
combinadas e interaliadas – no âmbito da Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sob os auspícios
da Organização das Nações Unidas
(ONU) ou em função de compromissos bilaterais
e regionais – como realizando ações
de presença naval, em defesa dos interesses nacionais
britânicos.
Elementos da Royal Navy e dos Royal Marines integram
várias
Forças Combinadas (Joint Forces), no âmbito
das Forças Armadas do Reino Unido, tais como as
Joint Rapid Reaction Forces (constituídas por unidades
de pronta resposta), a Joint Force Harrier (que reúne
os esquadrões de Sea Harrier FA.2 da Marinha e de
Harrier GR.7 da RAF) e o Joint Helicopter Command (constituído
pelos helicópteros de ataque e transporte de tropas).
Evolução
da estrutura
Desde a criação do Ministério da Defesa
britânico, na década de 60, o comando militar
da Royal Navy é exercido pelo First Sea Lord and
Chief of Naval Staff (Primeiro Lorde do Mar e Chefe do
Estado-Maior Naval). A este almirante (quatro estrelas)
estão hoje subordinados os departamentos técnicos,
a Esquadra (inclusive o RFA e a Fleet Air Arm), os Royal
Marines, as bases e os estabelecimentos de apoio. O Comandante-em-Chefe
da Esquadra (Commander-in-Chief Fleet – CINCFLEET),
sediado em Northwood (nos arredores de Londres), é atualmente
um almirante (quatro estrelas).
Os navios de superfície, os submarinos, a aviação
e os fuzileiros navais constituem os quatro ramos combatentes
da Royal Navy. Os Royal Marines (RM) não chegam
a ser uma força singular autônoma (como ocorre
nos Estados Unidos), podendo ser descritos como um regimento
de infantaria orgânico da Marinha Real. O Comandante-Geral
dos Reais Fuzileiros Navais (Commandant General Royal Marines – CGRM) é um
major-general (duas estrelas) desta corporação.
Para fins administrativos, os navios da Esquadra britânica
constituem flotilhas e esquadrões. O adestramento
operativo é atribuição do Flag Officer
Sea Training (FOST), um contra-almirante (duas estrelas)
cujo comando inclui elementos sediados em Devonport e na
foz do Clyde (Escócia), com um destacamento em Northwood.
Para fins de emprego, o CINCFLEET tem outros dois subordinados:
o Comandante das Forças Marítimas do Reino
Unido (Commander United Kingdom Maritime Forces – COMUKMARFOR)
e o Comandante das Forças Anfíbias do Reino
Unido (Commander UK Amphibious Forces – COMUKAMPHIBFOR).
O COMUKMARFOR, um contra-almirante, tem como subordinados
o Comandante do Grupo-Tarefa do Reino Unido (Commander
UK Task Group – COMUKTG) e o Comandante do Grupo-Tarefa
Anfíbio (Commander Amphibious Task Group – COMATG),
ambos comodoros (uma estrela). O COMUKAMPHIBFOR é exercido
cumulativamente pelo CGRM, um major-general ao qual se
subordina o comandante da 3 CDO BDE, um brigadeiro (uma
estrela).
Operações marítimas
O COMUKMARFOR dispõe de um estado-maior denominado
UK Maritime Battle Staff (UKMARBATSTAFF), que pode ser
rapidamente expandido para um total de aproximadamente
70 oficiais e embarcado a bordo de navios, constituindo
o estado-maior de um Comandante de Componente Marítimo
(Maritime Component Commander – MCC). Esta equipe
atua tanto no nível operacional, prestando apoio
ao comando de uma Força-Tarefa Combinada (Joint
Task Force – JTF), como no nível tático,
apoiando o componente marítimo desta força.
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Ao
lado Os quatro submarinos nucleares de mísseis
balísticos (SSBN) da Classe “Vanguard”,
cada um armado com 16 mísseis Trident D5,
são o principal meio de dissuasão da
Marinha Real (Foto: Royal Navy). |
Em
períodos normais de paz, o COMUKMARFOR e o COMUKAMPHIBFOR,
assim como o COMUKTG, o COMATG e o comando da 3 CDO
BDE, estão sediados num quartel-general em Whale
Island (uma ilha no porto de Portsmouth). A reunião
destes comandos de força, com seus respectivos
estados-maiores, é denominada
Estado-Maior de Batalha da Esquadra (Fleet Battle Staff – FBS).
Esta organização, que inclui elementos
sediados em Portsmouth e Plymouth, é o núcleo
a partir do qual são constituídos, em
caso de guerra ou de crise internacional, comandos
de forças-tarefa
e grupos-tarefa da Royal Navy e dos Royal Marines para
operar em qualquer parte do mundo.
 |
| Acima A Royal Navy possui grande
capacidade de projetar poder onde quer que seja necessário.
Na foto, Royal Marines em ação durante
o conflito do Kosovo (Foto: Royal Navy). |
Atualmente,
as operações da Marinha Real
abrangem seis áreas marítimas, onde é mantida
uma presença naval em caráter permanente
ou intermitente: Atlântico Norte (incluindo o Caribe),
Atlântico Sul, Reino Unido, Mediterrâneo, Golfo
Pérsico e Extremo Oriente. Naturalmente, o nível
da presença naval britânica, em operações
multinacionais ou em defesa de interesses nacionais, é muito
inferior àquele mantido pela Marinha dos EUA, em
suas operações de escala global. No entanto,
o nível de atividade das unidades da Royal Navy,
considerando a quantidade limitada de meios hoje disponíveis, é realmente
significativo.
Atlântico
Norte e Caribe
Com o fim da Guerra Fria, a necessidade de manter forças
navais poderosas, para operações anti-submarino
no Atlântico Norte, deixou de existir. O número
de navios de escolta em serviço foi progressivamente
reduzido, até chegar a 31 unidades. Por razões
de economia (a fim de permitir a construção
dos novos NAe), foi recentemente tomada a decisão
de reduzi-lo para apenas 26 unidades. Entretanto, nos anos
90 a interdição marítima do tráfego
internacional de drogas passou a ser considerada tarefa
militar, o que tornou necessário o emprego de navios
de superfície em ações desse tipo.
Em 1998, foi estabelecida uma estação de
patrulha no Caribe, designada como Atlantic Patrol Task
(North). Esta estação é guarnecida
durante a maior parte do ano por um navio de escolta (contratorpedeiro
ou fragata), o qual é mantido em alerta de 14 dias
pelo restante do ano. Em agosto de 2003, o contratorpedeiro
Type 42 Batch 3 HMS Manchester substituiu a fragata Type
23 HMS Iron Duke como navio em serviço de patrulha
no Caribe. Aquela unidade desempenhará operações
antidrogas e atuará na promoção dos
interesses britânicos na região, até dezembro.
No âmbito da OTAN, existe a Força Naval Permanente
do Atlântico (Standing Naval Force Atlantic – STANAVFORLANT),
integrada por navios de escolta e de apoio logístico
de várias nacionalidades. Esta força conduz
exercícios operativos em ambos os lados do Atlântico
Norte, em atendimento ao Artigo 7º da Carta da OTAN. No
início do segundo semestre de 2003, a fragata Type
22 Batch 3 HMS Cornwall era a contribuição
britânica para a STANAVFORLANT.
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Acima O
Super Lynx HAS Mk.8 é o helicóptero embarcado
na maioria dos navios de escolta britânicos (Foto:
Royal Navy).
Ainda
no âmbito da OTAN, deve ser mencionada a Força
de Contramedidas de Minas (Norte) – Mine Countermeasures
Force (North) –, constituída por navios
de contraminagem dos vários países-membros.
No início do segundo semestre, esta força
incluía o caça-minas britânico
HMS Inverness, da classe “Sandown”. O pequeno
número
de navios em operação no Atlântico
Norte e no Caribe reflete o caráter modesto
do Poder Naval britânico de hoje. Normalmente,
são
necessárias três unidades de determinado
tipo de navio (uma em posicionamento avançado,
uma em trânsito ou adestramento e uma terceira
em manutenção),
a fim de manter uma unidade permanentemente disponível
para emprego operativo.
Atlântico Sul e Antártica
No caso do Atlântico Sul, as distâncias envolvidas
são ainda maiores. Basta recordar o esforço
logístico desenvolvido pelas Forças Armadas
britânicas em 1982, durante a Guerra das Falklands/Malvinas,
a fim de sustentar e apoiar as operações
militares nesta parte do mundo. Em 1998, foi estabelecida
a estação de patrulha denominada Atlantic
Patrol Task (South), guarnecida durante a maior parte do
ano por um navio de escolta (apoiado por um navio de apoio
logístico do RFA), cuja área de operações
abrange o Atlântico Sul e a África Ocidental.
Quando a área está desguarnecida, um navio é mantido
em alerta de 14 dias, a fim de responder a qualquer emergência.
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Acima Concepção
artística da nova classe de submarinos nucleares de
ataque britânica, a “Astute” (Foto: Royal
Navy).
No
primeiro semestre deste ano, o início da comissão
da fragata Type 23 HMS Lancaster no Atlântico
Sul sofreu atraso, devido à realização
da Operação “Fresco” (em
apoio à autoridade
civil durante a greve dos bombeiros no Reino Unido),
o que criou um hiato de presença naval na área.
Com o fim daquela operação, o navio seguiu
para sua área de patrulha em julho, devendo
aí permanecer
até dezembro de 2003. Periodicamente, a presença
naval britânica no Atlântico Sul inclui
também
um submarino nuclear de ataque.
O Reino Unido mantém ainda um navio-patrulha na área
das Falklands/Malvinas e Geórgias do Sul. Esta estação,
denominada Falklands Patrol Ship, é guarnecida por
uma unidade da classe “Castle”, atualmente
o HMS Leeds Castle. Durante o verão austral (por
aproximadamente seis meses a cada ano), o navio-patrulha
polar HMS Endurance opera em águas da Antártica,
a fim de apoiar a presença britânica naquele
continente e garantir a segurança da navegação
na área. Este ano, após encerrar sua comissão
como Navio de Patrulha Antártico (Antarctic
Patrol Ship), o navio regressou ao Reino Unido, fazendo
escala
em Nova York.
Águas
do Reino Unido
Em águas domésticas, onde estão concentrados
os navios em fase de adestramento ou manutenção,
a Marinha Real mantém o Esquadrão de Proteção à Pesca
(Fishery Protection Squadron), que pode empregar navios-patrulha
das classes “Castle”, “Island” e “River”,
assim como caça-minas da classe “Hunt” adaptados,
na proteção à pesca e em outras tarefas
subsidiárias. O HMS Guernsey e o HMS Anglesey, da
classe “Island”, o HMS Cattistock, da classe “Hunt”,
e o novo HMS Tyne, da classe “River”, operam
atualmente em missões de proteção à pesca.
.jpg)
Acima A Royal Navy mantém uma importante força de
navios especializados em
operações de guerra de minas. Na foto, o HMS Berkeley,
da Classe “Hunt” (Foto: Royal Navy).
Em águas
da Irlanda do Norte, opera o Northern Ireland Squadron,
atualmente constituído por três
unidades da classe “Hunt”, o HMS Cottesmore,
o HMS Dulverton e o HMS Brecon. Estes
navios (o primeiro dos quais estava em serviço
de patrulha em meados do ano) participam da Operação “Sealion”,
de interdição marítima contra
o terrorismo. A Royal Navy mantém ainda, em águas
do Reino Unido, um navio de escolta em alerta, como
Escolta Pronto
da Esquadra (Fleet Ready Escort – FRE). Em setembro
de 2003, o contratorpedeiro Type 42 Batch 3 HMS Edinburgh
substituiu a fragata Type 23 HMS Grafton nesta função.
Atuando em exercícios navais no Báltico,
encontrava-se, nesta ocasião, o caça-minas
HMS Penzance, da classe “Sandown”.
Mediterrâneo
Estabelecida em 1992 no âmbito da OTAN, a Força
Naval Permanente do Mediterrâneo (Standing Naval
Force Mediterranean – STANAVFORMED), é constituída
por navios dos vários países da organização.
Em julho de 2003, a fragata britânica Type 23 HMS
Northumberland foi substituída por uma unidade da
mesma classe, a fragata HMS Portland, que deverá integrar
esta força até dezembro. Desde outubro de
2001, a STANAVFORMED, juntamente com a STANAVFORLANT, participa
da Operação “Active Endeavour” no
Mediterrâneo Oriental.
.jpg)
Acima Os
helicópteros Merlin já estão entrando
em serviço e em breve substituirão totalmente
os Sea King (Foto: Royal Navy).
A
Operação “Active/Direct Endeavour” é realizada
em caráter intermitente (durante três
meses de cada vez), para o monitoramento do tráfego
marítimo
destinado à Europa (procedente de Suez, do Mar
Negro, do Oriente Próximo ou do Norte da África),
em busca de terroristas da Al-Qaeda. Ainda no âmbito
da OTAN, opera no Mediterrâneo a Força
de Contramedida de Minas (Sul) — Mine Countermeasures
Force (South) —, constituída por navios
de contraminagem de várias nações.
No início do segundo semestre, nenhum navio
britânico
integrava esta força.
Golfo
Pérsico e Mar da Arábia
Desde o início de 2003, a atividade naval britânica
nesta região foi aumentada. No início de
maio, era de aproximadamente 30 navios. A maioria das unidades
estava envolvida na Operação “Telic”,
dando seqüência à participação
britânica na guerra contra o Iraque. O navio-aeródromo
HMS Ark Royal foi temporariamente configurado
como porta-helicópteros
de assalto, operando juntamente com o HMS Ocean nesta
função.
O NAe atuou como navio-capitânia de um grupo-tarefa
anfíbio sob comando do COMUKTG, Comodoro James
Millar, RN.
Além do grupo-tarefa anfíbio e dos elementos
da 3ª Brigada de Comandos, com apoio aéreo, as operações
britânicas contra o Iraque incluíram a participação
de navios de escolta, de contraminagem e de apoio logístico,
assim como dos submarinos nucleares de ataque HMS Turbulent,
da classe “Trafalgar”, e HMS Splendid,
da classe “Swiftsure” (que,
durante a campanha, lançaram mísseis
de cruzeiro Tomahawk contra alvos iraquianos).

Acima Os
Sea Harrier FA.2 ainda são, ao lado dos Harrier Gr.7
da RAF (que também embarcam nos navios-aeródromo
da Classe “Invincible”), o principal avião
de combate de asa fixa da Esquadra britânica (Foto:
Royal Navy).
O
comando geral do grupo-tarefa britânico foi exercido
pelo COMUKMARFOR, Contra-Almirante David Snelson, RN,
da base naval norte-americana em Bahrain, no Golfo Pérsico,
para onde foi deslocado um estado-maior constituído
por cerca de 50 oficiais. Desde novembro de 2001, quando
forças navais do Reino Unido passaram a operar
no Golfo, o Fleet Battle Staff, em Portsmouth, vinha
mantendo
uma equipe permanentemente em alerta de 48 horas. Em
apoio à participação
britânica na campanha iraquiana, foi utilizado
um total de 64 navios mercantes fretados. Os britânicos
chegaram a manter na região cerca de nove mil
oficiais e praças de todas as forças
singulares envolvidos em operações marítimas.
Em maio, as unidades navais britânicas começaram
a retornar a suas bases no Reino Unido.
Operação “Oracle” é a
designação da participação
britânica na Operação “Enduring
Freedom” norte-americana, que inclui navios de 13
nações, no desempenho de missões de
interdição marítima contra a Al-Qaeda
e outros grupos terroristas. A área de cobertura
vai do norte do Golfo Pérsico até o Chifre
da África. Em julho de 2003, a fragata Type
23 HMS Kent substituiu a fragata Type 22 Batch
3 HMS Chatham nesta
operação, devendo permanecer a leste de Suez
até novembro de 2003.
Há ainda a Operação “Resinate” (também
denominada Armilla Patrol), mantida desde 1980. Esta estação
de patrulha foi criada no início da Guerra Irã-Iraque
e vem sendo mantida desde então, com a finalidade
principal reprimir o contrabando de petróleo iraquiano.
Freqüentemente, o pessoal da Royal Navy e dos Royal
Marines realiza ações de abordagem de
navios mercantes suspeitos, no mar ou no porto. Em
julho de 2003,
a fragata Type 23 HMS Sutherland substituiu
a fragata HMS Richmond, da mesma classe, na
Operação “Resinate”.
Os navios britânicos na região visitam portos
de diferentes países e realizam diversas operações
de interdição marítima, em cumprimento
a resoluções do Conselho de Segurança
das Nações Unidas.
Extremo Oriente
Em época recente, a presença britânica
nesta região do globo tem sido intermitente e periódica.
No primeiro semestre deste ano, foi realizado o NTG (Naval
Task Group 2003), o primeiro exercício operativo
a leste de Suez (na região do Golfo, no Oceano Índico
ou em águas asiáticas do Pacífico)
desde 2000. Estes exercícios tiveram início
com a Operação “Ocean Wave” em
1997, e tiveram seqüência com o NTG 2000 três
anos depois. O exercício NTG 2003 teve que ser reduzido,
devido à Operação “Telic”.
O grupo-tarefa, constituído pela fragata Type
23 HMS Marlborough (capitânia), o contratorpedeiro
Type 42 Batch 2 HMS Liverpool e o navio-tanque
RFA Green Rover,
regressou ao Reino Unido em agosto.
Simultaneamente, foi realizado o exercício trienal “Flying
Fish”, em atendimento aos acordos multilaterais de
defesa (Five Power Defence Arrangements – FPDA),
entre Reino Unido, Austrália, Malásia, Nova
Zelândia e Cingapura. Este ano, o exercício
(que contou com a participação dos navios
do grupo-tarefa britânico) teve como anfitrião
a Malásia, que se reveza com Cingapura no desempenho
desta função. Hoje em dia, a atividade naval
britânica em águas do Extremo Oriente é muito
reduzida, em comparação com o que foi até meados
do século passado.
.jpg)
Acima A Royal Navy tem na excelência da formação
de seu pessoal um de seus diferenciais. Na foto, mergulhadores
de combate ingleses (Foto: Royal Navy).
Capacidade
oceânica
Os esforços da Royal Navy no sentido de manter um
nível razoável de presença em águas
distantes do Reino Unido caracterizam as limitações
de uma Marinha oceânica, capaz de realizar apenas
uma operação de porte significativo em áreas
remotas, conforme foi mencionado no início deste
trabalho. No primeiro semestre de 2003, a Operação “Telic”,
no Golfo Pérsico, constituiu o esforço principal.
Nas demais áreas marítimas de interesse estratégico,
como vimos, a atividade naval britânica é reduzida
ou intermitente. O sistema britânico de presença
naval intermitente, por meio do envio periódico
de grupos-tarefa a áreas marítimas distantes,
difere do sistema francês de presença permanente,
por meio da manutenção de guarnições
navais reduzidas nos departamentos de ultramar.
As unidades de superfície da moderna Royal Navy
incluem três NAe e vários navios de assalto
anfíbio, assim como uma quantidade razoável
de navios de escolta (contratorpedeiros e fragatas). Entretanto,
com relação a unidades de combate, o que
realmente distingue a Marinha Real de outras Marinhas de
porte médio é sua numerosa força de
submarinos nucleares, constituída por 11 unidades
de ataque (SSN) e quatro de mísseis balísticos
(SSBN). Todos os submarinos britânicos atualmente
em serviço (assim como em construção
ou sob encomenda) são dotados de propulsão
nuclear.
Como os navios de escolta necessitam com freqüência
de reabastecimento no mar, a relação entre
o número destes e o de navios de apoio logístico é indicativo
da capacidade oceânica de uma Marinha. A Royal Navy
possui atualmente 31 navios de escolta, dispondo de 13
navios de reabastecimento (nove navios-tanque e quatro
navios de apoio e suprimento) operados pelo RFA, o que
corresponde a uma relação de 2,4 escoltas
para cada unidade de reabastecimento.
O número de navios de apoio logístico móvel é uma
das características mais marcantes da Royal Navy
atual. A disponibilidade de tais navios em número
razoável permite acrescentar pelo menos um a cada
grupo-tarefa, por mais reduzida que seja a sua composição
(um ou dois navios de escolta e um navio-tanque, por exemplo),
possibilitando que este permaneça em sua área
de operações por períodos de até seis
meses.
O número de navios-patrulha operados pela Marinha
Real é reduzido, pois o Reino Unido tem uma área
marítima costeira relativamente pequena para patrulhar.
Entretanto, o número de navios de contraminagem é elevado,
denotando a importância desta modalidade de guerra,
em águas restritas como as do Canal da Mancha e
do Mar do Norte. O pequeno número de navios hidroceanográficos
em serviço deve-se ao fato de que a área
marítima em torno das Ilhas Britânicas já foi
levantada com precisão há bastante tempo.
Implicações
para o Brasil
O total de navios de todos os tipos, em serviço
na Royal Navy e no RFA, é apenas cerca de 20% superior
ao número de navios de que dispõe a Marinha
do Brasil. A experiência britânica em “operações
fora de área” pode fornecer lições
bastante úteis para o nosso país. De fato,
se a aspiração brasileira de vir a integrar,
em caráter permanente, o Conselho de Segurança
da ONU vier a concretizar-se, nossa Marinha deverá incrementar
sua capacidade de realizar operações em áreas
marítimas distantes. A ampliação da
capacidade oceânica, pelo aumento do número
de navios de apoio logístico móvel, deve
estar entre as prioridades do programa de reaparelhamento
da Marinha do Brasil.
Há quem considere absurda tal sugestão, alegando
que um país pobre, como o nosso, não pode
possuir uma Marinha de águas profundas. Só que
o Brasil não é exatamente um país
pobre. Existem atualmente apenas três países
com mais de oito milhões de quilômetros quadrados
de território, cuja população é superior
a 170 milhões de habitantes e cujo Produto Interno
Bruto (PIB) é superior a meio trilhão de
dólares norte-americanos: Estados Unidos, China
e Brasil.
A constituição de uma verdadeira Marinha
oceânica é tarefa para várias décadas,
mas nada impede que uma Marinha de porte modesto adquira
a capacitação necessária para operar
em áreas marítimas distantes. O ingrediente
principal é a vontade de realizar tal transformação.
Em tempo de paz (participando de operações
da ONU ou desempenhando ações de presença
naval, na promoção dos interesses nacionais),
a capacidade de permanência de uma força naval
no mar, e não o poder de fogo de suas unidades, é o
fator essencial. Em tais condições, o controle
de uma área marítima não é disputado,
e sim compartilhado por forças de várias
nações.
Apesar disso, a definição das características
dos meios flutuantes, aéreos e anfíbios que
compõem uma Marinha deve estar baseada em requisitos
de desempenho em combate, e não em operações
destinadas a “mostrar a bandeira”. Uma força
desenvolvida para o combate possui a credibilidade necessária
para atuar como instrumento de política externa.
O contrário, porém, não é necessariamente
verdadeiro. •
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