Rússia: a abertura
para a cooperação



Acima O presidente Putin dá atenção pessoal ao desenvolvimento das indústrias russas de defesa e aeroespacial. Na foto, ele inspeciona a exposição das tropas espaciais da Rússia na feira MAKS-2003, perto de Moscou.(Foto: Cortesia ITAR-TASS).

A pauta da visita do presidente da Federação Russa, Vladmir Putin, ao Brasil em novembro terá como um dos itens de destaque a cooperação industrial na área de defesa.

R. Ruizree

O mercado brasileiro de material de emprego militar de origem estrangeira sempre foi dominado pelos Estados Unidos e pela Europa (países como França, Alemanha, Reino Unido, Itália e Suécia são fornecedores de longa data). Penetrar nesse mercado é uma tarefa árdua, à qual os russos vêm se dedicando já há algum tempo, por razões ao mesmo tempo simples e fortes: o país necessita de divisas, e sua indústria de defesa objetiva abrir mais seu leque de países-clientes. No continente sul-americano, o material russo há muito tempo é empregado pelo Peru. Alguns outros países utilizam equipamento militar russo, mas em muito menor escala. Entretanto, o Brasil é sem discussão o país de maior potencial no futuro a médio prazo.
A Rússia quer se fazer presente de forma mais constante e incisiva no mercado sul-americano, e para que isso aconteça de forma firme o processo deve passar pelo fornecimento ao Brasil. Se estabelecidos acordos de cooperação industrial, o Brasil automaticamente funcionaria como a porta de entrada, possibilitando uma atuação mais ampla e contínua no continente.


Acima Embora a Força Aérea Brasileira tenha desistido da aquisição imediata de helicópteros pesados para uso na Amazônia, considera-se que será imprescindível
a incorporação de aeronaves de asa rotativa de grande porte, como o Mi-26 (Foto: Rostvertol).


Em nosso país, até o momento, o único material militar de procedência russa já adquirido para as Forças Armadas foram os mísseis antiaéreos 9K38 Igla (SA-18) com que se mobiliaram Exército e Força Aérea a partir de 1995. Isso é pouco para representar a alavanca que a indústria russa deseja. A visita do presidente Putin pode ser vista, portanto, como mais um passo num bem elaborado programa que incluiu visitas de delegações russas ao país, participação nas quatro edições da LAD, viagens de militares brasileiros à Rússia, etc. À frente desse esforço para estabelecer fortes laços russo-brasileiros no âmbito da cooperação em assuntos de defesa está a Rosoboronexport, principal exportadora russa de material de emprego militar.
No momento, o principal programa militar brasileiro no qual a indústria russa compete é o do F-X. A especificação brasileira não limita o peso da futura aeronave, o que possibilitou a participação do Sukhoi Su-27. Posteriormente, a Rússia passou a oferecer o Su-35, mais sofisticado (ver S&D nº71, págs.16-17). O Su-35 é o único caça pesado a continuar na competição, pois os fabricantes dos outros dois (Boeing
F/A-18 e Eurofighter Typhoon) se desinteressaram, sabendo que o custo de seus produtos reduziria a zero suas chances. O custo relativamente barato da mão de obra russa (algo que aquele país tem em comum com o nosso) permitiu que seu caça pesado apresentasse custo competitivo com as outras aeronaves (todas da categoria leve) ainda na concorrência. Deixaremos de mencionar propostas de fornecimento de Su-27 provenientes da força aérea russa como medida provisória, por se tratar de assunto estranho ao objetivo do presente texto.

Ao lado O armamento russo tem como
característica inerente a rusticidade (o AK-47 e o RPG-7 são provas
indubitáveis disso), algo que é fundamental para a operação por tropas brasileiras. Na foto, um morteiro SANI de 120 mm sendo carregado com a munição guiada GRAN (Foto: KBP).

Os russos estão cientes que, no contexto atual, qualquer negociação de material de emprego militar têm suas chances de sucesso multiplicadas se envolver algum tipo de acordo de cooperação industrial. Não se trata mais, portanto, de demonstrar um item de equipamento, receber a encomenda e entregar a mercadoria como uma “caixa preta”. Em relação ao Brasil isso praticamente não existe mais. Por isso, assinaram um acordo de cooperação industrial com a Avibras, que poderá envolver montagem de aeronaves, manutenção/revisão, acesso a tecnologia avançada, etc. É de conhecimento geral que — caso o caça da Sukhoi seja vencedor — o acordo em questão tem todas as possibilidades para ser ampliado, envolvendo outras empresas russas e brasileiras. Uma aeronave de combate é um item sofisticado que envolve milhares de subsistemas e tecnologias avançadas.
Ainda no setor aerospacial, embora a Força Aérea Brasileira tenha desistido da aquisição imediata de helicópteros pesados para uso na Amazônia, considera-se que será imprescindível a incorporação de aeronaves de asa rotativa de grande porte. Nessa área, no que toca a desempenho, o Mi-26, fabricado pela Rostvertol, é topo de linha. Capaz de transportar, interna ou externamente, uma carga útil de 20 toneladas, seu desempenho não é igualado por nenhum outro helicóptero (ver s&D nº72, págs. 46-48).

Ao lado Capaz de
transportar, interna ou externamente, uma carga útil de 20 toneladas, o desempenho do Mi-26 não é igualado por
nenhum outro helicóptero (Foto: Rostvertol)

Na área naval, embora a indústria russa detenha capacitação para projeto e construção de todo e qualquer tipo de navio de combate, no momento o interesse centraliza-se no programa do próximo submarino de ataque brasileiro, a classe “SMB-10”. O Brasil terá que escolher um parceiro estrangeiro para assessorar no projeto desse navio. Não entrando nos meandros políticos que cercariam as áreas comuns entre esse projeto e o futuro submarino nuclear de ataque, a escolha forçosamente terá que recair entre Alemanha, França, Rússia e Suécia. O país escolhido terá uma enorme vantagem sobre os demais quando da especificação dos sistemas embarcados, e além disso terá forjado uma parceria duradoura com o Brasil, que poderá render bons frutos em outros programas.
Para o programa brasileiro, a Rússia oferecerá a tecnologia da classe “Amur 1650”, submarino desenvolvido pelo Bureau de Projetos Rubin, de S. Petersburgo. Deslocando 1.765t na superfície e 2.650t submerso, esse submarino tem 66,8m de comprimento e casco resistente com diâmetro de 7,1m — quase um metro a mais que nossa classe “Tupi”. O primeiro exemplar da variante russa do “Amur 1650” , conhecida como classe “Lada” (Projeto 677), construído para a marinha russa é o Sankt Petersburg, lançado em 2000 e que deverá iniciar os testes de mar em breve, com incorporação prevista para o próximo ano.
Quanto a programas para a força terrestre, a Rússia acompanha com atenção o de um blindado polivalente sobre rodas 8x8 para o Exército Brasileiro. Os russos têm significativa expertise no campo dos blindados sobre rodas, e quando chegar o momento sem dúvida será oferecido o BTR-90, da Arzamas Machine Building Plant. Na versão de combate de infantaria, a viatura é armada com uma torre que dispõe de canhão automático de 30mm, metralhadora de 7,62mm, lançador de granadas de 30mm e lançador de mísseis anticarro. Transporta sete soldados e três tripulantes e pesa, em ordem de marcha, 21t. Uma outra possibilidade seria o BTR-80, da mesma empresa, com armamento mais leve, menor nível de proteção e menor peso (aproximadamente 13,5t)
Sabedores do interesse brasileiro na defesa da Amazônia, os russos têm estado atentos às possibilidades de seus veículos de colchão de ar (hovercraft) para emprego naquele teatro. O Bureau Central de Projetos Navais Almaz desenvolveu uma série de hovercrafts de vários tamanhos. Provavelmente a empresa estaria disposta a oferecer a classe “Chilim”, especificamente projetada para operar em águas pouco profundas (uma descrição mais completa desse veículo pode ser encontrada em S&D nº79, pág. 51).

Ao lado Vários itens do portfólio da indústria russa poderiam ser passíveis de oferecimento às Forças Armadas brasileiras. De fuzis de precisão a lançadores de mísseis. Na foto, o míssil anticarro Kornet-E
(montado sobre o lançador 9P163M-1) em posição de tiro (Foto: KBP).

A Rússia é um dos poucos países cuja indústria de defesa tem capacidade global, ou seja, está habilitada a projetar e construir a totalidade de tipos de material de defesa. Assim, vários outros itens de seu portfólio da indústria russa poderiam ser passíveis de oferecimento às Forças Armadas brasileiras: fuzis de precisão, equipamento de visão noturna, radares de pequeno porte para vigilância terrestre, armamento para mergulhadores de combate, mísseis superfície-ar, equipamento de guerra eletrônica, etc. O armamento russo tem como característica inerente a rusticidade (o AK-47 e o RPG-7 são provas indubitáveis disso), algo que é fundamental para a operação por tropas brasileiras. Foge ao escopo desse trabalho relacionar todos os materiais de emprego militar que já foram oferecidos ao Brasil, mas eles variam desde o difundidíssimo lança-rojão anticarro RPG-7 (motivo de um artigo mais extenso nessa mesma edição) a helicópteros médios, passando por armas inteligentes e armamento pessoal da KBP, e pelo o Igla e Iskander da KBM.
A tendência — acertada, por sinal — é a aquisição, sempre que possível, de armamento totalmente desenvolvido em nosso país. Entretanto, na maioria das vezes “reinventar a roda” pode levar a um consumo de tempo inaceitável, deixando-nos mais atrás ainda no estado da arte. Por exemplo: deve o Brasil desenvolver sozinho a tecnologia das cabeças de combate termobáricas ou conseguir grande parte dela de alguém que a domina, através de acordos? A tecnologia de uso militar é sempre um segredo bem guardado e pouco dividido com estrangeiros, mas os russos já tornaram claro que não se opõem à transferência de tecnologia — e a excelência de sua ciência aplicada é inquestionável.
Além disso, Putin vai apontar a nossas autoridades a completa ausência de interesses políticos e geopolíticos divergentes entre o Brasil e a Rússia — a curto, médio e longo prazos. Ao governo brasileiro cabe manter os ouvidos atentos e as portas abertas, não descartando de antemão nenhuma opção. Cada possibilidade deve ser motivo de um estudo aprofundado em que todos os aspectos sejam analisados em sua completa extensão. Uma missão que extrapolará a esfera exclusiva do Ministério da Defesa e deverá envolver, entre outros, os Ministérios da Indústria e Comércio e o Ministério das Relações Exteriores. •


Capa SD90
 

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