
Acima
As únicas opções em matéria
de mísseis ar-ar à disposição
da FAB para armar seus caças, hoje, são
o MAA-1 Piranha, cuja versão de manejo é
vista nas pontas das asas deste F-5E, e o Python 3, de
fabricação israelense, visto nos cabides
sob as asas. Ambos, entretanto, são de curto alcance
(Foto: Segurança & Defesa).
Para
a Força Aérea Brasileira (FAB), um dos principais
requisitos do programa F-X é o acesso às
chamadas “armas inteligentes”. Entre essas,
destacam-se os mísseis ar-ar BVR (Beyond Visual
Range), com capacidade de engajar alvos além do
alcance visual do piloto, e os mísseis ar-ar de
curto alcance, ou WVR (Within Visual Range). Este artigo
analisa as opções à disposição
da FAB para estes tipos de arma.
• Alexandre Fontoura
Não é
segredo que um dos requisitos-chave do chamado Programa
F-X da Força Aérea Brasileira (FAB) é
a aquisição, juntamente com o novo caça
propriamente dito, de um arsenal de “armas inteligentes”.
Duas dessas armas são de vital importância,
a tal ponto que sua ausência tornaria a aquisição
dos aviões quase inútil. Tratam-se dos mísseis
ar-ar de curto alcance, com guiagem infravermelho (IR),
capazes de engajar alvos dentro do alcance visual (Within
Visual Range, ou WVR) mas fora da linha-de-visada (“off-boresight”),
e os mísseis ar-ar de médio alcance com
capacidade de engajar alvos além do alcance visual
(Beyond Visual Range, ou BVR). Esses dois tipos de míssil
— juntamente com uma suíte de aviônicos
no estado da arte — tornariam possível ao
futuro avião de combate da FAB se contrapor a aeronaves
modernas em combate aéreo, em igualdade de condições.
Hoje, a capacidade dos aviões de combate da FAB
é praticamente nula em diversos pontos fundamentais
para a sobrevivência em combate aéreo. Além
de não possuírem radares, sensores e contramedidas
no estado-da-arte, eles contam hoje, para sobreviver na
arena ar-ar, apenas com seus canhões, um lote de
mísseis israelenses Python 3, de terceira geração,
e com o míssil ar-ar MAA-1 Piranha(1), que começará
em breve a ser entregue aos esquadrões . Os antigos
mísseis ar-ar Matra R530, fornecidos com os primeiros
Mirage IIIE/DBR e os AIM-9B Sidewinder, fornecidos com
os F-5E, não estão mais em serviço.
Com o processo de seleção do futuro F-X
previsto para deslanchar novamente no próximo mês
de agosto (e com a escolha final devendo ser anunciada
já no início de 2004), bem como com a modernização
dos 46 F-5E/F e 54 A-1 (AMX), esse cenário deverá
mudar. A incorporação deste mix
de aviões novos e modernizados torna a aquisição
das chamadas “armas inteligentes” condição
sine qua non para a eficiente utilização
destas aeronaves, de modo a que a FAB possa dar ao país
uma capacidade de defesa aérea crível.
Cada empresa concorrente ao programa F-X tem, em ligação
sinérgica com o fornecimento da aeronave propriamente
dita, propostas para a venda e/ou integração
de determinados mísseis. Algumas dessas combinações
são bastante óbvias, como os trios F-16
+ AIM-120 + AIM-9L e Mirage 2000BR + MICA IR + MICA EM.
Os russos oferecem o Sukhoi Su-35 ou o MiG-29 em conjunto
com os mísseis Vympel R77 e R73 (ou AA-12 Adder
e AA-11 Archer, respectivamente, pela designação
da OTAN), enquanto os suecos e britânicos apresentam
junto com o JAS 39C/D o maior leque de possibilidades,
incluindo AIM-9L, Python 4 (ou o novíssimo Python
5), IRIS-T e A-Darter entre os mísseis com guiagem
IR (para combate aproximado), e os já citados AIM-120
e MICA, além do israelense Derby e o sul-africano
R-Darter, como opções entre as armas BVR.
Combate
moderno
Embora muitos especialistas tenham previsto o fim do combate
aéreo do tipo dogfight (a curta distância),
e guerras aéreas mais recentes — como a campanha
do Kosovo e a Guerra do Golfo, onde a maior parte dos
combates aéreos aconteceram na modo BVR —
pareçam confirmar essa previsão, é
interessante perceber como a capacidade de dogfights é
enfatizada por algumas forças aéreas importantes,
como a israelense. Nos Estados Unidos, um estudo realizado
pelo Departamento de Defesa chegou à conclusão
que, no futuro, cerca de 25% dos combates aéreos
terminarão na arena WVR.
Os Estados Unidos, que desde a colocação
em serviço do AIM-9 Sidewinder se mantinham na
liderança no desenvolvimento de armas WVR, acabaram
por ficar para trás, talvez por terem enfatizado
excessivamente o desenvolvimento de armas como o AIM-54
Phoenix e o AIM-120 AMRAAM (Advanced Medium Range Air-to-Air
Missile). Agora, pretendem recuperar o atraso com o AIM-9X,
uma versão evoluída dos Sidewinder das versões
-9L e -9M.
Embora a classificação de um determinado
míssil como uma arma de quarta geração
seja ainda assunto de controvérsias, certas características
têm sido aceitas por consenso. Um exemplo disso
seria uma grande capacidade de aquisição
de alvos fora da linha-de-visada (off-boresight), além
de precisão elevada (permitindo grande letalidade
mesmo com uma cabeça de guerra de peso relativamente
modesto de explosivos). O resultado disso seria uma no-escape
zone (zona na qual o alvo não pode escapar do impacto)
consideravelmente ampliada. Assim, um míssil de
quarta geração, de curto alcance, deve ter:
– grande agilidade, em geral obtida por meio do
uso de uma combinação de empuxo vetorado
e/ou controles aerodinâmicos avançados;
– cabeças de busca (seekers) de
grande acuidade e alta resistência a contramedidas
IR;
– capacidade de ser empregado em associação
ao uso de visor de tiro montado no capacete do piloto
(Helmet-Mounted Sight, ou HMS),
Os seekers dos mísseis ar-ar WVR de primeira
geração, como o AIM-9B Sidewinder norte-americano
e o russo AA-2 Atoll, possuíam campos de visão
extremamente limitados e eram facilmente “distraídos”
por outras fontes de calor, como o Sol ou mesmo o solo.
O resfriamento dos sensores infravermelhos era feito por
criogênio, o que significava só podiam obter
e manter um lock-on num alvo por períodos
de tempo muito curtos. Esses seekers primitivos podiam
rastrear e destruir apenas alvos pouco manobráveis
(de preferência com a pós-combustão
ativada) e estavam limitados a um ângulo de aspecto
de cerca de 30º em relação a esses mesmos
alvos. Isso forçava o piloto de um caça
equipado com um míssil ar-ar de primeira geração
a manter a posição de tiro às “seis
horas” em relação ao seu alvo, exatamente
como nos combates aéreos da Segunda Guerra ou da
Guerra da Coréia (porém em alcances maiores,
obviamente).
Os mísseis de segunda geração que
entraram em serviço nos anos 60 tiveram aperfeiçoamentos
na sensibilidade de seus seekers, bem como uma
maior capacidade de adquirir alvos off-boresight,
mas ainda limitada, forçando o piloto de caça
a permanecer no hemisfério traseiro do possível
alvo.
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Ao
lado e abaixo Uma fração de
segundo após ser lançado por um F/A-18,
este AIM-9X Sidewinder (visto abaixo) inicia uma curva
pronunciada em direção ao alvo, demonstrando
sua capacidade off-boresight.
No círculo no meio, uma imagem infra-vermelha
do alvo (um drone QF-4C) captada pelo seeker do AIM-9X
milésimos de segundo antes do impacto (Fotos:
Raytheon). |
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Os
mísseis de terceira geração foram
os que introduziram a capacidade de engajamento all-aspect,
ou seja, era possível atacar a partir de qualquer
direção. Os seekers destes mísseis
eram suficientemente sensíveis para não
precisarem mais “ver” os motores dos seus
alvos, podendo ser lançados de qualquer ângulo
relativo. Um bom exemplo deste tipo de arma é o
AIM-9L Sidewinder, usado pelos ingleses na Guerra das
Malvinas, tendo sido obtida uma elevada taxa de impactos
contra aviões argentinos. O Python 3, usado pela
FAB, também é representativo desta geração
de armas ar-ar.
Vympel
R73
O verdadeiro salto na tecnologia WVR veio da Rússia,
em meados dos anos 80, por meio do míssil Vympel
R73 (denominado AA-11 Archer pela OTAN). Revelado aos
olhos do Ocidente em 1986, ele realmente estava uma geração
à frente dos mísseis WVR ocidentais. Associado
a um HMS, o R73 apresenta uma grande capacidade de engajar
alvos off-boresight; as novas versões
do míssil prometem uma capacidade off-boresight
de mais de 60º. Associado a um caça dotado de empuxo
vetorado, como o Su30MK, ele representa sem dúvida
uma grande ameaça a qualquer adversário.
Isso, é claro, sem contar com seu alcance, de cerca
de 30 km.
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| Acima
O míssil que causou um choque no Ocidente com
seu aparecimento: o Vympel R73 russo, também
conhecido como AA-11 Archer pela OTAN. Quando foi
revelado, em meados dos anos 80, descobriu-se que
o R73 estava muito à frente de seus similares
fabricados nos Estados Unidos e Europa (Foto: Rosoboronexport). |
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Embora muitos observadores e estudiosos da guerra ar-ar
desdenhem a real utilidade num combate aéreo das
manobras fantásticas que os russos costumam demonstrar
em shows aéreos (como a “Cobra de Pugachev”),
a combinação do R73 com um caça que
utiliza HMS e empuxo vetorado (e que portanto possui a
capacidade de alterar rapidamente o alinhamento do eixo
longitudinal da aeronave em relação à
direção de vôo) pode ser extremamente
letal. Simulações realizadas nos Estados
Unidos, e anteriormente consideradas sigilosas, demonstraram
que o lançamento de um míssil BVR guiado
por radar, seguido de rápida desaceleração,
uma curva fechada e o lançamento de um R73 por
um Su-30MK com vetoração de empuxo, invariavelmente
derrotaria o F-15C em combate singular (um contra um).
AIM-9L
Sidewinder
Durante muitos anos, o AIM-9L foi objeto do desejo da
FAB, que buscava um substituto para o AIM-9B, Sidewinder
de primeira geração usado em seus F-5 e
Mirage, e para o Matra R530 usado pelos Mirage III do
1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA). As tentativas
de obtenção da arma foram, entretanto, infrutíferas,
com o Departamento de Estado dos EUA oferecendo apenas
versões com desempenho inferior. A recente obtenção
destes mísseis pela Fuerza Aérea Argentina
(FAA) para uso em seus A-4AR Fightinghawk (veja matéria
nesta edição) é um indicativo de
que, hoje, os EUA já não impediriam a venda
desta arma ao Brasil. Devido aos vetos americanos, a FAB
acabou adquirindo um lote de mísseis israelenses
Rafael Python 3, de desempenho semelhante ou superior
ao AIM-9L. Por isso, atualmente, dificilmente a FAB se
interessaria novamente pelo míssil americano. Prova
disso é que a proposta de venda de 12 caças
Lockheed Martin F-16C/D Block 50/52+ ao Brasil, apresentada
ao Congresso Americano pelo Departamento de Defesa dos
EUA, sequer lista o AIM-9L entre as armas oferecidas,
apresentando apenas 50 AIM-120C (junto com quatro mísseis
da versão inerte, para treinamento), além
de sensores e outros equipamentos.
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Ao
lado Fotograma de um filme
de um lançamento de teste do Python 4 a partir
de um F-15 israelense. Apontado para o alvo pelo HMS
do piloto, o míssil realiza uma curva de mais
de 90º para o lado e para cima, em direção
ao drone, que é atingido. |
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Rafael
Python 4
Desenvolvido e produzido pela Rafael, de Israel, o Python
4 foi o primeiro míssil ocidental à altura
do R73 russo. Altamente manobrável, o míssil
pode engajar alvos manobráveis a distâncias
máximas de até 15 km. Embora detalhes sobre
seu seeker sejam secretos, acredita-se que possa
formar imagens ou pseudo-imagens precisas de seus alvos
e que, graças a avançadas contra-contramedidas
IR, seja capaz de rejeitar flares. O Python 4 possui algoritmos
que permitem que ele faça manobras do tipo lag
pursuit, o que significa uma grande vantagem em certas
situações táticas. Como um indicativo
de sua capacidade, vale mencionar que, de 240 dogfights
simulados entre pilotos e aeronaves israelenses equipadas
com o Python 4, associados ao HMS Elbit DASH Gen III,
contra pilotos e aeronaves da US Navy, os israelenses
venceram 220.
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Acima
e ao lado Dois modos de oferecer a alta capacidade
de manobra dos mísseis modernos: um grande
número de superfícies aerodinâmicas
móveis, como no Python 4, mostrado acima, ou
o uso combinado de bocais de escape com empuxo vetorado,
solução adotada no MICA (Fotos: Saab
e Matra BAe Dynamics). |
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O
Python 4, que na América do Sul já foi encomendado
pelas Forças Aéreas de Chile e Equador e,
ao que tudo indica, Venezuela, está sendo oferecido
para equipar os JAS 39C/D Gripen, caso ele seja escolhido
como o F-X, e também para os F-5BR da FAB.
Kentron
V-3E A-Darter
A África do Sul continua com um impressionante
desenvolvimento de seu programa de mísseis, iniciado
quando o país era alvo de embargos internacionais.
Um exemplo recente é o A-Darter, um míssil
ar-ar WVR, de alta manobrabilidade, grande capacidade
off-boresight, equipado com um motor dotado de vetoração
de empuxo. O míssil é capaz de executar
curvas de mais de 100g e, de acordo com a Kentron, seu
fabricante, excede as já impressionantes características
do Python 4 israelense. O fato de que será a arma
WVR padrão dos Gripen sul-africanos, quando estes
estiverem em serviço, o torna candidato natural
a equipar também os Gripen oferecidos à
FAB, pois os custos para sua integração
à aeronave seriam mínimos. Isso não
impede, é claro, que independentemente da escolha
ou não do Gripen pela FAB, ele não possa
ser usado em outras aeronaves. E o grupo sul-africano
tem isso em perspectiva, sem dúvida.
IRIS-T
Desenvolvido e fabricado por um consórcio internacional
liderado pela empresa alemã Bodenseewerk Gerätetechnik
GmbH (BGT), o IRIS-T foi planejado como um update do AIM-9L
Sidewinder e incorpora algumas das lições
aprendidas com os R73. Um lote desses mísseis “caiu
do céu” para o Ocidente quando a Luftwaffe
incorporou as aeronaves da antiga Força Aérea
da Alemanha Oriental, entre elas alguns MiG-29. O IRIS-T
(Infra-Red Imaging System — Thrust-Vectored) apresenta
um avançado seeker IIR (Imaging Infra-Red, ou capaz
de formar imagens infravermelhas do alvo), empuxo vetorado
e alcance de cerca de 12 km. O míssil, cuja capacidade
off-boresight é de 90º, deverá entrar em
serviço em 2004, com os Typhoon da Luftwaffe. O
IRIS-T também será adotado pela Suécia,
para equipar o Gripen, além de possivelmente vir
a equipar os Typhoon, F-4E e F-16 da Grécia e os
F-16, Typhoon e AMX italianos.
Na verdade, por compartilhar com o AIM-9L o mesmo diâmetro
de corpo, peso, centro de gravidade e lançadores,
o IRIS-T é compatível com qualquer aeronave
capaz de usar o Sidewinder. Pelas previsões da
BGT, mais de 4.000 mísseis IRIS-T poderão
vir a ser encomendados, sendo de 2.560 unidades a encomenda
inicial da Luftwaffe.
AIM-120
AMRAAM
O AMRAAM foi desenvolvido como o substituto do Raytheon
AIM-7 Sparrow, que emprega um sistema de guiagem por radar
semi-ativo, o que requer que o alvo seja permanentemente
“iluminado” pelo radar do avião lançador
(impossibilitando, portanto, o engajamento de mais de
um alvo de cada vez). Utilizando uma cabeça de
busca por radar ativo, o AIM-120 permite ao caça
lançador engajamentos múltiplos e torna
possível que a trajetória dos mísseis
possa ser atualizada via datalink, em tempo real,
compensando eventuais manobras evasivas do alvo.
 |
| Acima
O AIM-120 é o míssil BVR padrão
do Ocidente e está sendo oferecido ao Brasil
como componente ar-ar do arsenal do F-16C/D. Se os
EUA entregariam ou não o míssil ao Brasil,
entretanto, é uma incógnita (Foto: Raytheon). |
O
AIM-120 entrou em serviço em 1991 e já no
ano seguinte obteve a primeira de uma série de
vitórias na Guerra do Golfo, contra aeronaves iraquianas.
O míssil já foi exportado para o Reino Unido,
Bélgica, Dinamarca, Finlândia, Alemanha,
Grécia, Itália, Coréia do Sul, Holanda,
Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e
Turquia.
No caso do Brasil, se o F-16 for o avião escolhido
como F-X, existe o risco de que seja feito um arranjo
similar ao de Taiwan: os F-16 desse país são
fitted for, but not with, ou seja, foram entregues
preparados para usar os mísseis, mas estes ficaram
retidos nos Estados Unidos e só seriam entregues
após pedido dos taiwaneses, devidamente justificado
e aprovado pelos EUA (2). Acreditamos que tal tipo de
coisa jamais seria aceita pelo Brasil, o que em muito
prejudica as chances do F-16 na concorrência brasileira.
Como o Chile também adquiriu o F-16C/D, seria oportuno
observar o que será feito em relação
ao fornecimento de tais armas ao país. Notícias
mais recentes já dão conta de que a Fuerza
Aérea de Chile (FACh) já teria adquirido
um lote de mísseis Rafael Derby, em Israel, para
equipar seus F-16C/D e F-5E/F modernizados. Como dito
acima, a FACh já utiliza o Python 4 em seus caças.
MICA
A garantia de que, se o Mirage 2000BR (versão modificada
do Mirage 2000-5 Mk2) for o caça escolhido pela
FAB, os mísseis MICA serão fornecidos sem
restrições é um ponto forte de venda
do caça francês, que está sendo oferecido
pelo consórcio Mirage 2000BR, composto pela Embraer
e seus parceiros franceses.
A produção do MICA teve início em
1995, com um pequeno lote encomendado pela França.
Em 1997 foi adquirido um lote maior (225 unidades), e
revelado que a França eventualmente necessitaria
de 1.300 exemplares. O desenvolvimento do MICA se deu
a partir de uma idéia interessante: a de que um
mesmo míssil poderia cobrir tanto a arena WVR como
a BVR, usando-se basicamente o mesmo corpo, mas com cabeças
de busca diferentes. Hoje, a própria França
parece já não acreditar que essa solução
seja a de melhor relação custo/benefício,
tanto que já anunciou o Meteor como substituto
do MICA, como futuro míssil BVR padrão.
As razões para isso são várias: apesar
de possuir um alcance superior a 50km, contar com atualização
de dados do alvo por datalink, ser altamente
manobrável (curvas superiores a 80 g, graças
ao uso de motor de combustível sólido dotado
de empuxo vetorado), o MICA é em geral considerado
um míssil caro (estima-se que seu custo seja de
duas a três vezes o preço do AIM-120). Além
disso, a vetoração de empuxo é eficiente
em alcances curtos, enquanto ainda há combustível
queimando no motor; nas fases finais de um engajamento
BVR, quando o combustível já queimou por
completo e resta apenas a energia cinética residual,
a capacidade de manobra fica reduzida, dependendo apenas
das superfícies aerodinâmicas de controle.
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Ao
lado O Mirage 2000BR é fortemente
beneficiado pelo fato de que o consórcio liderado
pela Embraer e composto por diversas empresas francesas
não tem restrições ao fornecimento
do míssil BVR MICA, cuja versão com
guiagem IR é vista na foto menor (Fotos: Dassault
e Matra BAe Dynamics). |
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Mesmo
assim, o MICA é uma arma formidável quando
associada ao radar Thales RDY-2, que equipa o Mirage 2000BR,
sendo capaz de acompanhar oito alvos e atacar quatro deles
simultaneamente. O fato de existir uma versão com
cabeça de busca IR, o MICA IR, o que permite engajamentos
totalmente passivos, é outro ponto forte do binômio
Mirage 2000BR + MICA.
Além do Mirage 2000, o MICA está sendo oferecido
ao Brasil para equipar o Gripen, como alternativa ao AIM-120.
O fato de ser uma arma pequena, pouco maior e pouco mais
pesado do que um Sidewinder, torna o MICA uma opção
também para outros caças da FAB, como os
F-5BR e A-1, assim como os Skyhawk da Aviação
Naval (que teriam, entretanto, de passar por uma modernização,
recebendo um radar moderno).
Vympel
R77
Do mesmo modo que os franceses em relação
ao MICA, os russos da Rosoboronexport se comprometem a
transferir para sua associada brasileira (no caso, a Avibras)
o ferramental para aferição e toda a tecnologia
para integração dos seus mísseis
ao Sukhoi Su-35 Flanker, bem como a outros aviões
da FAB.
Assim como o R73 mostrou ao mundo o avanço da tecnologia
de mísseis ar-ar russa na arena WVR, o Vympel R77
é o equivalente russo ao AIM-120 americano, e embora
tenha sido desenvolvido alguns anos antes deste, o R77
aparentemente tem alcance e manobrabilidade maiores. O
míssil, também conhecido como RVV-AE, pesa
175kg (contra 151,5 kg do AIM-120), comprimento de 3,60m
(contra 3,65m do míssil americano) e o corpo tem
diâmetro de 0,20m (o do AIM-120 é de 0,18
cm). Visualmente sua característica principal são
as superfícies de controle móveis, localizadas
à ré, e cuja forma é de treliça.
Na América do Sul, o Peru revelou há algum
tempo possuir esses mísseis, o que teria precipitado
a possível autorização por parte
do Departamento de Estado dos Estados Unidos para a venda
do AIM-120 a países como Chile e Brasil. Mais tarde,
entretanto, descobriu-se que os mísseis do Peru
estavam sem condições de uso, pois as bancadas
fornecidas para a sua aferição encontravam-se
fora de operação, defeituosas.
Rafael
Derby
O Rafael Derby tem uma história interessante, compartilhando
suas raízes e algumas características com
o Kentron R-Darter sul-africano. Além disso, os
requisitos israelenses para esta arma são objeto
de muita discussão entre analistas de defesa. Para
alguns o desenvolvimento do míssil foi uma resposta
à não-liberação imediata do
AIM-120 para Israel, ao contrário do que sempre
ocorrera com outras armas americanas. Outros acreditam
que a demora dos EUA em fornecer os AIM-120, que só
foram liberados para uso em Israel após a entrega
dos F-15I, foi na verdade parte de uma estratégia
israelense: não recebendo o AIM-120 de imediato,
este também não poderia ser fornecido aos
árabes, mantendo a IDF/AF na incontestável
dianteira tecnológica em relação
aos seus tradicionais inimigos no conturbado Oriente Médio.
Outros fatos, como o atraso no programa norte-americano
para integração do AIM120 aos F-16 (que
formam a espinha dorsal da aviação de combate
israelense), podem ter contribuído para que os
israelenses se decidissem pelo desenvolvimento do Derby.
De qualquer modo, o míssil teve seu desenvolvimento
iniciado em meados dos anos 80, quando Israel acertadamente
identificou a necessidade de uma arma deste tipo para
fazer frente aos avanços dos mísseis russos.
Israel e África do Sul decidiram-se por um programa
conjunto, no qual investiram cerca de US$ 1 bilhão,
divididos equitativamente, na fase de pesquisa e desenvolvimento.
Em meados dos anos 90, os programas dos dois países
tomaram direções diferentes, embora sejam
óbvias as semelhanças entre os dois mísseis.
Entretanto, o futuro do Derby pode estar ameaçado
por uma série de fatores, em sua maioria internos
(muitos consideram uma extravagância possuir dois
tipos de mísseis BVR em serviço simultaneamente),
e o programa pode vir a ser extremamente dependente de
exportações.
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| Acima
O Gripen é, certamente, o candidato ao F-X
que oferece o maior leque de opções
em matéria de armas ar-ar e ar-terra. Na foto,
ele exibe mísseis Python 4 nos wingtips, R-Darter
nos cabides externos das asas e a bomba guiada a laser
israelense SPICE, nos cabides internos das asas (Foto:
Saab BAe Gripen). |
R-Darter
O R-Darter é a vertente sul-africana do programa
conjunto mencionado acima. Desenvolvido pela Kentron (África
do Sul) e pela Rafael (Israel), o míssil é
a resposta sul-africana aos embargos internacionais para
o fornecimento de armas ao antigo governo, que adotava
a política do apartheid (segregação
racial). Mesmo com o fim do antigo regime, a África
do Sul não só não interrompeu o excepcional
programa de mísseis como o ampliou, o que permitiu
ao país oferecer ao mercado mundial uma grande
variedade de armamentos de excelente qualidade.
Sem dúvida, a África do Sul vê o mercado
brasileiro como extremamente promissor. A Kentron tem
sido particularmente ativa e vem oferecendo, por exemplo,
o míssil Umkhonto-IR, de lançamente vertical
e guiagem IR, para a modernização do Navio-Aeródromo
São Paulo, e também mísseis anticarro
para o Exército Brasileiro. Além disso,
o R-Darter, que já equipa os Atlas Cheetah da Força
Aérea da África do Sul e será a principal
arma dos Gripen sul-africanos, também está
sendo oferecido à FAB.
O R-Darter é um míssil BVR bastante ágil
(capaz de manobras com acelerações superiores
a 50 G), guiado por radar ativo, com peso de lançamento
de cerca de 120 kg (28 kg mais leve que o AIM-120, portanto)
e um alcance máximo superior a 60 km —considerando
o avião lançador voando a Mach 0.90 a 25.000
pés, num engajamento do tipo head-on (frontal).
Essas características são bem similares
às apresentadas pelo Derby israelense, assim como
os dois modos de lançamento, ambos dentro do padrão
fire-and-forget: o LOBL, ou Lock-on Before Launch
(travamento antes do lançamento), quando o alvo
encontra-se a distâncias mais curtas, ainda dentro
do alcance visual, e o LOAL, ou Lock-On After Launch (travamento
após o lançamento), quando o alvo encontra-se
além do alcance visual.
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Ao
lado O R-Darter, da Kentron sul-africana,
está sendo oferecido ao Brasil e pode ser incluído
num amplo programa de cooperação militar,
uma vez que os dois países assinaram recente
acordos na área militar e de defesa (Foto:
Kentron). |
A
única desvantagem do R-Darter, compartilhada pelo
Derby israelense, é a impossibilidade por parte
do piloto da aeronave lançadora de introduzir de
mudanças de rota após o disparo, devido
à ausência de um datalink. A omissão
deste recurso, que pode ter acontecido devido a questões
financeiras, ou a uma opção por enfatizar
a capacidade de engajamento a curtas/médias distâncias,
significa dizer que o R-Darter (assim como o Derby) poderá
ter dificuldades em alguns tipos de engajamentos a longa
distância. Nessas situações, dependerá
apenas da eficiência da cabeça de busca por
radar ativo para localizar o alvo, que poderá ter
realizado manobras evasivas.
Fase
final
Todos os concorrentes ao programa F-X atendem aos requisitos
técnicos da FAB, no que se refere a alcance, carga
bélica, etc. Sob estes aspectos, não cabe
discussão. Existem, entretanto, fatores políticos,
econômicos, logísticos e de limitação
de horizonte evolutivo que podem fazer a balança
pender para este ou aquele candidato, agora que, finalmente,
o processo de escolha do futuro avião de combate
brasileiro entra na sua derradeira fase.
Entendemos, entretanto, que a decisão final deve
levar em consideração a opinião da
FAB que, em primeira e última análises,
é quem “entende” de avião militar
no Brasil, e quem deve escolher o caça que melhor
se adapta aos seus requisitos. O modelo selecionado para
ser o futuro avião de combate da FAB também
ditará qual será a combinação
ideal de mísseis WVR e BVR a ser escolhida. As
opções disponíveis são muitas,
e todas de excelente qualidade. •