Acima Uma Fragata Type 22 (Classe “Greenhalgh” na Marinha do Brasil) da Royal Navy dispara um míssil antiaéreo Sea Wolf a partir de seu lançador sêxtuplo de proa. A aquisição de todo o Batch 1 de Fragatas Type 22 (Classe “Broadsword” na Royal Navy) pela Marinha do Brasil permitiu que ela se mobiliasse com essa excelente arma, com ótimo desempenho antimíssil e AAé (Foto: Royal Navy).

Primeira Força Armada brasileira a entrar na “Era do Míssil Antiaéreo”, com a instalação de um lançador de mísseis Sea Cat em um de seus Contratorpedeiros no final dos anos 60, a Marinha do Brasil utiliza, hoje, três tipos de mísseis antiaéreos a bordo de seus navios. Este artigo descreve o cenário atual do uso deste tipo de arma na MB e as possibilidades futuras.

• Alexandre Fontoura


Apesar da crônica falta de recursos, a Marinha do Brasil sempre procurou manter-se atualizada nos cenários da Guerra de Superfície, Guerra Anti-Submarino e Guerra Antiaérea, acompanhando as mudanças de táticas e sistemas navais ao longo dos anos. Durante a chamada Guerra Fria, por influência da doutrina americana, a MB concentrou seus maiores esforços na Guerra Anti-Submarino, devido à ameaça submarina soviética. A idéia de então era de, em caso de conflito, contar com o “guarda-chuva AAé” fornecido pelos Grupos de Batalha de Navios-Aeródromo da U.S. Navy, em operações conjuntas no Atlântico Sul.
Com o colapso da URSS e a evolução do cenário internacional, a Marinha passou a preocupar-se de forma mais ampla com outros aspectos da Guerra Naval, como a Guerra de Superfície, Guerra Anfíbia e a Guerra Antiaérea. Prova disso são fatos como a aquisição, em anos recentes, de meios como um novo Navio-Aeródromo (o
A12 São Paulo), aeronaves de combate a jato, navios de emprego em operações anfíbias e de novas escoltas com maior capacidade AAé, além de modernizações que transformaram navios já em operação, como as Fragatas classe “Niterói”, em escoltas mais capazes.

Determinando as ameaças
Os recursos de que dispõe a Marinha do Brasil não lhe possibilitaram até o momento operar um sistema de defesa antiaérea de área. Entretanto, o que tem sido possível fazer foi e está sendo feito, com o intuito de prover a melhor defesa antiaérea possível dentro das limitações existentes. Partindo da visualização das principais ameaças aéreas aos navios de superfície, define-se o que pode ser feito para defendê-los.
As principais ameaças seriam, em primeiro lugar, os mísseis antinavio com perfil de vôo sea-skimmer ou os de trajetória intermediária alta, sejam eles lançados de terra, de outros navios ou de aeronaves. Nesta categoria, enquadram-se armas como o Exocet, Harpoon, Otomat, Silkworm e outros. Existem ainda mísseis antinavio menores, como o Sea Skua, que embora em geral não consigam afundar um navio do porte de uma Fragata, podem causar danos suficientes para impossibilitar tal navio de realizar sua missão (mission kill). Em segundo lugar viriam os caças-bombardeiros (baseados em terra ou em Navios-Aeródromos), armados com bombas, foguetes, canhões e — o que seria mais perigoso — armamento stand off, de longo alcance, capaz de ser lançado a longa distância do alvo.
A aquisição do Navio-Aeródromo São Paulo (ex-Foch da Marine Nationale francesa) é um inegável avanço para a defesa dos Grupos-Tarefa da MB mas, como podemos deduzir da leitura do artigo “A Revolução do São Paulo”, publicado nas páginas 39-42 desta edição de “Segurança & Defesa”, alguns anos ainda se passarão até que a MB tenha condições de deslanchar um programa de modernização de seus Skyhawk, equipando-os com um radar multimodo com capacidade look-down/shoot-down e com algum míssil ar-ar com capacidade BVR (Beyond Visual Range, ou Além do Alcance Visual). Entretanto, independente da modernização dos Skyhawk ou da incorporação de algum outro caça com capacidade de engajar eficientemente e a distâncias seguras outras aeronaves, a Marinha não pode se furtar de equipar seus principais navios de superfície com capacidade de defenderem a si próprios e a outros navios da ameaça representada por aeronaves de ataque e mísseis antinavio que porventura ultrapassem a barreira das aeronaves de defesa aérea.
Por questões de espaço, não trataremos aqui da defesa antiaérea do Corpo de Fuzileiros Navais, nem dos armamentos de tubo utilizados nas plataformas flutuantes. Não que a MB tenha se esquecido desses aspectos — para constatar que não é assim basta lembrar dos mísseis Mistral e dos canhões Bofors BOFI, de 40mm, usados pelos Fuzileiros Navais e dos modernos reparos Bofors Mk.3, também de 40mm, usados no programa ModFrag (também adotados na Corveta Classe “Barroso”). A seguir, descrevemos os principais sistemas de Mísseis Superfície-Ar (MSA) usados pela Marinha do Brasil e as perspectivas futuras nesta área.

Acima O antigo Contratorpedeiro Mariz e Barros (D26) foi o primeiro navio da Marinha do Brasil a receber um sistema MSA. O lançador quádruplo de Sea Cat (círculo vermelho) pode ser visto na foto instalado no convés a vante da torre de canhão de 127mm de popa (Foto: Segurança & Defesa)

O Sea Cat
O primeiro passo da Marinha do Brasil na área de mísseis de qualquer tipo foi com a aquisição de um lançador quádruplo de mísseis superfície-ar (MSA) Sea Cat (conhecido na Royal Navy como GWS20), instalado no final dos anos 60 a bordo do antigo Contratorpedeiro Classe “M” (inicialmente M1 e, depois, D26) Mariz e Barros, construído no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro segundo o projeto dos Contratorpedeiros Classe “Mahan”, da Marinha dos Estados Unidos (U.S. Navy) e incorporado à MB em 29 de novembro de 1943.

Ao lado O grau de
obsolescência e as
limitações do sistema Sea Cat pode ser aquilatado
nestas fotos mostrando a sequência de recarga do lançador triplo de uma Fragata Classe “Niterói”, desde a retirada do míssil do paiol, até sua prontificação, passando pela retirada dos invólucros rígido (externo) e o interno (Fotos: Segurança & Defesa).

Com a desincorporação do antigo Mariz e Barros em 22 de agosto de 1972, o lançador quádruplo de Sea Cat foi retirado e transferido para outro Contratorpedeiro, o D34 Mato Grosso (Classe “Allen M. Sumner” da US Navy), incorporado à MB em 27 de setembro de 1972. O lançador permaneceu em uso no navio até sua desincorporação, em julho de 1990.
Paralelamente ao uso deste lançador, no início dos anos 70, a MB especificou que suas seis novas Fragatas classe “Niterói” seriam equipadas, cada uma, com dois lançadores triplos de mísseis Sea Cat. A opção pelo Sea Cat deveu-se ao fato de que era um sistema já em uso na Marinha, no estado-da-arte (à época), e às restrições impostas pelos Estados Unidos à venda a algumas marinhas (inclusive a nossa) de sistemas mais sofisticados, como o Sea Sparrow e o Terrier/Standard.
O Sea Cat era um MSA guiado, de curto alcance (inferior a 5 km), destinado a defesa contra aeronaves atacantes a baixa altura, com 1,47m de comprimento, 0,19m de diâmetro, envergadura de 0,66cm e com peso total de 93,4 kg. No lançamento era usado um “booster” de cordite, após o que era acionado o motor de sustentação, de combustível sólido, cujo tempo de queima era de cerca de 15 segundos. Tratava-se de um sistema limitado a alcances curtos, devido principalmente ao emprego do conceito “man-on-the-loop”.
O Sea Cat funcionava do seguinte modo: ao ser detectada a aproximação de uma aeronave atacante por um dos radares do navio ou de modo independente, o alvo era designado ao operador do Sea Cat que cobria o respectivo setor. Assim que o alvo era adquirido e encontrava-se dentro do alcance do míssil, o Sea Cat era lançado na direção do mesmo. Um flare localizado na parte de trás do míssil facilitava sua aquisição visual pelo operador, através de uma alça ótica binocular. Este passava a guiar o míssil em direção ao alvo por meio de um link de rádio na Banda L, enviando impulsos através de um pequeno joystick, até que uma espoleta de proximidade detonasse a cabeça de guerra explosiva de cerca de 18 kg. Além do tempo de vôo de 15 segundos proporcionado pela queima do motor, o artilheiro do Sea Cat ainda dispunha de cerca de cinco segundos adicionais de controle para o míssil, usando unicamente a energia cinética remanescente.
Obviamente, somente um Sea Cat podia ser controlado por vez, o que se constituía em fator extremamente limitador para o sistema como um todo, no caso de um ataque múltiplo, vindo de diferentes direções. Outro problema é que, com o Sea Cat, mesmo um artilheiro extremamente bem treinado e com os diversos aperfeiçoamentos realizados durante sua vida operacional, teria grandes dificuldades para engajar mísseis antinavio com perfil de vôo sea-skimmer. Além disso, nas Fragatas classe “Niterói”, cada um dos dois lançadores dispunha de somente três mísseis para uso imediato; a recarga, manual (ver fotos nesta página), tornava o tempo de resposta penosamente lento para a moderna guerra antiaérea. Apesar disso, o Sea Cat conseguiu alguns sucessos contra a aviação argentina em 1982, na Guerra do Atlântico Sul, entre Inglaterra e Argentina.

Mistral
O caso do Mistral na MB tem aspectos interessantes. O programa ModFrag, para a modernização das “Niterói”, previa a substituição do Sea Cat por um míssil mais capaz. Na concorrência para definir a proposta vencedora, foi selecionado o projeto da Vosper Thornychroft, que especificava o Mistral. Desenvolvido na França pela então Matra (hoje parte da MBDA), o Mistral usa como sistema de guiagem uma cabeça de busca infravermelho, com capacidade all-aspect (pode engajar alvos vindos de qualquer quadrante), tem alcance de 6km contra aviões de ataque velozes e 4km contra helicópteros (com baixa assinatura IV), e a cabeça de guerra pesa aproximadamente 3kg. O comprimento é de 1,84m, o diâmetro é de 0,09m, a envergadura é de 0,19m e o peso alcança 24kg. O alcance eficaz mínimo é de 300m e a altitude mínima de engajamento é dada por algumas fontes como sendo de 15m, o que configuraria uma limitação ao engajamento eficaz de mísseis sea-skimmer.

Ao lado O MSA Mistral chegou a ser cotado para substituir o Sea Cat na Marinha do Brasil, mas acabou sendo usado apenas em dois lançadores SIMBAD como o da foto instalados durante uma modernização do antigo NAeL Minas Gerais e em lançadores MANPADS dos Fuzileiros Navais (Foto: MBDA).

Os primeiros tiros de teste aconteceram em 1983, e a campanha de homologação prolongou-se até 1988, ano em que foram entregues às forças armadas francesas os primeiros exemplares de produção. Além do lançador individual, o Mistral existe atualmente em múltiplas formas, que incluem lançadores montados em viaturas terrestres, helicópteros, e lançadores navais múltiplos (de até seis mísseis).
A precisão superior do Mistral em relação ao Sea Cat que ele substituiria na MB pode ser aquilatada pela diferença de peso entre as respectivas cabeça de guerra: a do Sea Cat pesa seis vezes mais, para aumentar o envelope letal e compensar a menor precisão. Tendo o Mistral sido escolhido para o ModFrag, nada mais natural que a Marinha, por razões de padronização, adotasse o mesmo míssil para o Corpo de Fuzileiros Navais (com o reparo MANPADS) e para o Navio-Aeródromo Minas Gerais, no qual foram instalados dois reparos duplos SIMBAD. Com a desincorporação do Minas Gerais e sua substituição pelo NAe São Paulo, é provável que os dois lançadores SIMBAD sejam reaproveitados em outros navios, como os Navios de Desembarque-Doca Rio de Janeiro e Ceará (ex-Classe “Thomaston” da US Navy). A utilização do Mistral pelo Corpo de Fuzileiros Navais está detalhada em “Segurança & Defesa” nº 68, pgs. 23-26. Como na edição mencionada o Mistral está tratado em bom nível de detalhamento, limitar-nos-emos a mencionar que sua capacidade fire-and-forget é um atrativo em certos cenários, já que imediatamente após o lançamento o operador está liberado para o imediato engajamento de outro alvo.
O fato é que, em certo estágio, o Mistral tinha tudo para ser amplamente adotado pela MB, o que acabou não acontecendo: a Vosper acabou sendo desclassificada no programa ModFrag, e numa segunda avaliação foi escolhido outro projeto, do qual o Mistral não estava incluído. Por isso, na MB o Mistral só é usado atualmente pela Bateria Antiaérea do CFN e em dois reparos embarcados.

O Sea Wolf
Na Royal Navy, o GWS20 Sea Cat foi substituído pelo GWS25 Sea Wolf, projetado e fabricado pela British Aerospace (Divisão Bristol) para fazer frente principalmente aos mísseis antinavio. Na Royal Navy, o Sea Wolf equipou cinco das Fragatas Classe “Leander”, as 14 Fragatas “Type 22” (quatro do Lote 1, seis do Lote 2 e quatro do Lote 3) e — na versão de lançamento vertical — todas as Fragatas “Type 23”. Mais recentemente, essa variante foi adotada nas duas Fragatas de 2.270t (Lekiu e Jebat) construídas pelo estaleiro britânico Yarrow para a Malásia.
No Sea Wolf eliminaram-se-se as desvantagens do Sea Cat. O míssil é supersônico (velocidade >Mach 2), totalmente automático, tem tempo de reação extremamente curto e pode ser disparado em salvas (notadamente a versão de lançamento vertical), sendo resistente a ECM e extremamente preciso. Essa precisão foi demonstrada durante testes, ao interceptar uma granada de canhão de 4,5 polegadas em vôo, e também durante a guerra no Atlântico Sul, quando teve creditada a derrubada de cinco caças argentinos.

Ao lado A foto, tirada a bordo de uma fragata Type 22 da Royal Navy, permite verificar as pequenas dimensões do MSA Sea Wolf (Foto: Royal Navy).

O desenvolvimento do Sea Wolf teve início no final dos anos 60 e em 1968 já eram feitos os primeiros disparos de testes, incluindo a demonstração do conceito de lançamento vertical. Em 1979, o míssil foi colocado em serviço operacional na Royal Navy, em lançadores sêxtuplos que equipavam cinco navios da Classe “Leander” e os sucessivos lotes de fragatas Classe “Type 22” (incluindo as da classe “Broadsword”, mais tarde adquiridas pela Marinha do Brasil). Em 1986, a pedido da Royal Navy, foi desenvolvido um lançador leve, quádruplo, para instalação do míssil em navios menores. No ano seguinte, a versão de lançamento vertical do Sea Wolf tornou-se operacional nas fragatas “Type 23”.
O Sea Wolf mede 1,90m de comprimento, tem diâmetro de 0,30m e envergadura de 0,45m; pesa cerca de 82 kg, e tem um alcance de 6,5km na versão para lançadores conteiráveis e de 10km na versão de lançamento vertical. O míssil usa um sistema de guiagem por Comando Automático de Linha-de-Visada (Automatic Command To Line-Of-Sight, ou ACLOS) e a seqüência de engajamento é a seguinte: o radar de busca aérea do navio que emprega o Sea Wolf mede a velocidade, rumo e tamanho do alvo. O computador designa a prioridade num cenário de múltiplos alvos, determina o lançador e o ângulo apropriados. Se o alvo é um míssil, somente um Sea Wolf é lançado; se for um avião de ataque manobrando a baixa altitude, uma salva de dois ou três mísseis é mais apropriada.
Com o Sea Wolf no ar, um radar de direção de tiro, como o Marconi Type 910 originalmente usado, rastreia o alvo usando dois feixes de rádio na Banda I, enquanto recebe o sinal do beacon (transmissor para indicação da posição) do próprio míssil (também na Banda I). A angular entre a posição do alvo e o sinal do míssil é medida 100 vezes por segundo, e qualquer correção de rumo que se fizer necessária é enviada ao Sea Wolf. Duas antenas de comando em forma de disco operam em freqüências ligeiramente diferentes para reduzir os efeitos de clutter do solo e do mar. O feixe relativamente amplo do radar de rastreamento pode ser ineficiente em baixas elevações (1º a 5º) e, por isso, um rastreador baseado numa câmera de TV é usado contra alvos a baixas altitudes.
Como radar rastreador as “Type 22” usavam originalmente um Marconi Type 910 (chegou a ser planejada a adoção de um Marconi Type 1802SW, com melhor desempenho contra mísseis sea skimmer, para uma modernização de meia-vida), embora a BAE Systems ofereça o radar HSA VM40 STING como opção para seus clientes de exportação, por considerar que os equipamentos da Holandse SignaalApparatten têm melhor penetração no mercado (30 operadores, comparados com os três países-clientes da então Marconi). Outras opções são o já citado Type 1802SW, o 9LV 200 (Phillips), o RTN 10X/30X (Alenia) e o TR 76 (RCA). Esses radares funcionam na Banda K, mais estreita e com maior precisão e eficácia contra alvos a baixa altitude do que os que funcionam na Banda I.

Acima As três fotografias mostram a sequência de interceptação de um míssil (visto à esquerda na primeira foto) por um MSA Sea Wolf (Fotos: BAe Dynamics)

Na época dos estudos da MB para a modernização das Fragatas classe “Niterói” o uso do Sea Wolf VL GWS26 Mod 1 foi contemplado na proposta do consórcio liderado pela então British Aerospace Dynamics Ltd. (BADL), que não foi entretanto a vencedora. A posterior aquisição de todo o Batch 1 das Fragatas “Type 22” da Royal Navy pela MB, na segunda metade dos anos 90, acabou fazendo com que o Sea Wolf fosse introduzido na Marinha do Brasil, pois cada um dos quatro navios (F46 Greenhalgh, F47 Bosísio, F48 Dodsworth e F49 Rademaker) é equipado com dois lançadores sêxtuplos de Sea Wolf GWS25 Mod.2 e dois radares Type 911 cada um (um voltado para a proa e outro à popa).
A aquisição do Sea Wolf deveu-se a uma compra de oportunidade: a MB precisava de navios de segunda mão em bom estado para substituir seus antigos Contratorpedeiros de origem americana (Classes “Gearing” e “Allen M. Sumner”), e a compra das “Type 22” foi um negócio excepcionalmente vantajoso. Com o dispêndio de apenas US$ 150 milhões (menos da metade do custo de uma fragata nova do porte das “Type 22”), a MB equipou-se com quatro navios relativamente novos, muito capazes, em excelente estado, e com grande compatibilidade (em termos de máquinas, etc.) com os navios de escolta já em serviço. O pacote também incluiu sete navios de contramedidas de minas Classe “Ton”, sendo que quatro foram convertidos em navios-patrulha costeiros e três em navios balizadores. Ficou então a Marinha com dois mísseis antiaéreos — o Mistral e o Sea Wolf —, sem se considerar ainda que as “Niterói”, ainda não modernizadas, pelo menos teoricamente permaneciam com os velhos Sea Cat, já então totalmente ineficazes.

O Aspide
A proposta de modernização das Fragatas classe “Niterói” eventualmente selecionada como vencedora foi a do consórcio de empresas liderado pela DSND Consub, que contemplava a adoção do sistema italiano Albatros. O míssil era o Aspide 2000, derivado do AIM/RIM-7H Sparrow/Sea Sparrow, largamente empregado pelas marinhas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Ao lado A adoção do
sistema Aspide/Albatros para a modernização das seis Fragatas Classe “Niterói” deu à MB um MSA de maior alcance, mas ainda não resolveu o problema da defesa AAé de área (Foto: Segurança & Defesa).

Numa primeira análise, um MSA com sistema de guiagem do tipo ACLOS (como o Sea Wolf e outros) é preferível a um com sistema de guiagem semi-ativa (como o SM-1, o Sea Sparrow e o Aspide). Isso porque eles dispensam o uso de uma cabeça de busca (seeker) e, com isso, apresentam uma série de vantagens, tais como: ausência de limitação dos ângulos de lançamento e rastreamento, menor vulnerabilidade a contramedidas eletrônicas, e insensibilidade a efeitos indesejáveis de clutter, que afetam os mísseis com seeker semi-ativo, principalmente contra alvos a baixa altitude.
Entretanto, uma das características que devem ter influenciado a MB para escolher o sistema Aspide/Albatros é a capacidade de defesa AAé de área curta. O alcance do Aspide 2000 é superior a 21 km, embora o alcance de interceptação seja, idealmente, de cerca de 15km. Além disso, o sistema Albatros foi desenvolvido com especial ênfase na capacidade de detecção de alvos voando a baixa altitude, sendo oportuno lembrar que, no caso do Aspide 2000, a semelhança com o Sea Sparrow é basicamente externa. A parte interna foi modificada pela Selenia Elsag, sendo adotado um novo motor SNIA e um novo seeker. Isso resultou em elevada capacidade de interceptação de alvos altamente manobráveis e em perfil de vôo sea-skimmer, capacidade de operar em ambiente de clutter e ECM intensos e alta resistência a contramedidas ativas e passivas. Além disso, existe uma capacidade home-on-jam no míssil, ou seja, qualquer tentativa de interferir no sistema de guiagem do Aspide fará com que o míssil engaje a fonte da interferência.
Uma opção possível para o futuro seria a Marinha considerar a aquisição do sistema Spada/Skyguard para os Fuzileiros Navais. Versão para uso terrestre do sistema Albatros, o Spada/Skyguard usa os mesmos mísseis Aspide e poderia vir a ser uma opção interessante para reforçar o componente AAé do CFN, sem prejudicar a filosofia de padronização.

O que o futuro reserva
Apesar do que já foi feito na MB no que se refere a equipar os navios capitais com MSA de defesa de ponto (sem descuidar do armamento de tubo), é certo que a Força ainda sofre de uma grave deficiência, que é a ausência de navios de escolta dotados de um sistema MSA de defesa de área, com alcance superior a 40-50 km. Certamente o Alto Comando da Marinha tem essa percepção e, por isso mesmo, o Plano de Renovação de Meios Flutuantes que será implementado entre 2005 e 2018 deve contemplar a aquisição de algumas fragatas antiaéreas, equipadas com um MSA de longo alcance e algum sistema de radar 3D para dirigir os mísseis.

Ao lado A aquisição de duas a quatro Fragatas Classe “Oliver Hazard Perry” ex-US Navy, equipadas com o MSA SM-1MR Standard daria à MB a tão desejada capacidade de defesa antiaérea de área (Foto: US Navy).

É lógico que sistemas como o Aegis da U.S. Navy estão fora de cogitação, devido ao seu custo. Mas é possível que os Estados Unidos não se neguem a transferir de duas a quatro Fragatas classe “Oliver H. Perry”, equipadas com mísseis Standard SM-1, que assegurariam uma cobertura AAé maior para um Grupo-Tarefa constituído com ou sem a presença do NAe São Paulo.
Este é um caso em que a crônica falta de verbas pode trabalhar a favor da Marinha, obrigando-a, num primeiro estágio, a adquirir sua capacidade AAé de Defesa de Área recorrendo à aquisição de navios de segunda mão, como as citadas Fragatas classe “Oliver H. Perry”, mas ao mesmo tempo dando chance que sistemas em desenvolvimento atualmente e que parecem promissores atinjam um estado de maturidade. Entre esses sistemas estão os MSA Aster 15/30 europeus e o Umkhonto-IR sul-africano.
O Umkhonto-IR vem sendo oferecido à MB pela Kentron para uso na modernização do NAe São Paulo, que claramente precisa de um sistema de autodefesa. Entretanto, poderá também vir a ser uma opção atraente para dotar escoltas atuais e futuros da Marinha. O míssil mede cerca de 3 metros de comprimento e pesa 125 kg no lançamento, usando um motor de combustível sólido que produz pouca fumaça, desenvolvido pela Somchem, uma subsidiária da Denel. O motor, de empuxo vetorado, confere ao Umkhonto-IR uma elevada capacidade de manobra, e o fato de ser lançado verticalmente facilita o enfrentamento de ataques múltiplos. O míssil é lançado a partir de um conjunto de casulos selados e pressurizados, montados verticalmente no convés do navio, e é equipado com um seeker infravermelho e sofisticado sistema de guiagem, que inclui um piloto automático digital, dando ao míssil capacidade Lock-On After Launch (LOAL) e correção de curso durante o vôo, o que permite uma proteção efetiva de qualquer quadrante (360º). A seleção do Umkhonto-IR pela Marinha da Finlândia, um país da União Européia, para equipar uma classe de Corvetas, pode ser um real indicativo da qualidade do Umkhonto-IR, tornando-o uma opção viável para uma parceria que poderia envolver, inclusive, a fabricação sob licença do míssil no Brasil.

Ao lado A recente seleção do míssil sul-africano Umkhonto-IR pela Marinha da Finlândia para equipar uma classe de corvetas é
um real demonstrativo das qualidades dessa arma que vem sendo oferecida pela Kentron para a modernização do NAe São Paulo (Foto: Kentron).

É provável que, durante os próximos 10 ou 15 anos, tempo no qual a MB recorreria a navios usados para prover sua tão necessária Defesa AAé de Área, surjam radares do tipo Phased-Array mais baratos do que o sistema SPY-1 americano (usados no sistema Aegis), talvez baseados na tecnologia desenvolvida pela Ericsson no sistema EriEye.
Conceitualmente, pelo menos, a Marinha do Brasil poderá vir a possuir, num segundo estágio, uma classe de navios de escolta equipados com radar de varredura eletrônica, capaz de controlar salvas de MSA de origem não americana, lançados verticalmente e com alcances de até 100km. Tal radar, apesar de eficiente, seria mais barato do que os existentes na atualidade. Até lá, o caminho parece ser a modernização dos meios existentes e a aquisição, mais uma vez, de navios de segunda mão, com capacidade de defesa de área — é exatamente esse conceito de “subir um degrau de cada vez” que permitiu à MB, por exemplo, chegar onde chegou no campo dos submarinos, e não há porque não adotá-lo no caso da defesa antiaérea. •

 
Capa SD 113
 

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