Haverá
um futuro para os carros de combate pesados? Esta pergunta
não é nova, e tem sido feita com freqüência
desde a introdução em serviço da primeira
geração de CC, por ocasião da Primeira
Guerra Mundial. Cabem, portanto, alguns comentários
a respeito do cenário atual e das perspectivas futuras.
Mário Roberto Vaz Carneiro
O carro de combate
(CC) surgiu na Primeira Guerra Mundial, em resposta à
estagnação representada pela guerra de trincheiras.
Na época e mesmo nos anos que se seguiram àquele
conflito, não foram muitos os que vislumbraram que
o emprego dos CC somente no acompanhamento da infantaria
a pé configurava uma imensa subutilização.
Mesmo assim, os CC foram evoluindo e, de uma maneira geral,
impondo-se de forma bem sucedida à grande maioria
das armas anticarro (AC) de então.
Até o início da Segunda Guerra Mundial, o
armamento anticarro mais amplamente empregado eram os canhões
e munições especificamente projetados para
vencer a blindagem dos veículos. Surgiram então
os lança-rojões e, por um breve momento, parecia
que o reinado dos CC no campo de batalha estava encerrado,
já que um simples infante passava a ter à
sua disposição um meio eficaz para sua destruição.
Na prática as coisas não se mostraram tão
simples, pois esses e outros armamentos disponíveis
para o combatente individual podiam ser sobrepujados pelo
emprego de blindagens mais espessas ou melhores. Nesse caso
a vantagem ficava com o projetista de blindados, pois o
limite de calibre (e conseqüentemente do peso e da
eficácia) dos lança-rojões e suas munições
seria atingido de forma relativamente rápida.
 |
Ao
lado Outra forma
de top attack é
proporcionada pelas
submunições do tipo
self-forging munitions.
Na ilustração, a Bonus, desenvolvida na
França. (Foto: GIAT) |
O
posterior aparecimento dos mísseis anticarro complicou
a situação para os CC, principalmente quando
seu uso foi combinado com os helicópteros de ataque.
O aumento da espessura da blindagem comum começou
a prejudicar consideravelmente as características
das viaturas, principalmente em termos de mobilidade. Isso
levou ao desenvolvimento de novos tipos de blindagem, (composta,
espaçada, reativa, etc.), que durante algum tempo
conferiram aos carros pesados (MBT, ou Main Battle Tanks)
de ponta um certo grau de imunidade contra grande parte
dos mísseis (pelo menos no arco frontal do casco
e em pontos vitais, como a torre).
Num primeiro estágio, a resposta dos projetistas
de mísseis foi aumentar o calibre das cabeças
de guerra (que logo atingiram o limite prático) e,
em seguida, desenvolver novos mísseis capazes de
atacar parte superior dos carros (perfil do tipo top
attack), menos protegida que as outras. Essa parte
é também o alvo prioritário do novo
tipo de submunição AC desenvolvida para uso
pela artilharia de campanha: as self-forging submunitions.
Tratam-se de submunições extremamente compactas,
armazenadas em granadas (normalmente nos calibres 120 mm
a 155 mm), que são ejetadas sobre a área do
alvo e que descem lentamente de pára-quedas, executando
um padrão de busca em espiral. Detectado um blindado,
o sistema de disparo é ativado, lançando sobre
o topo do veículo um jato de metal incandescente
a velocidades e temperaturas altíssimas (princípio
da carga oca).
| Ao
lado Os modernos lança-rojões,
dos quais o Bofors AT4 é um bom
exemplo, conferem ao infante um meio de se
contrapor a blindagens menos sofisticadas.
(Foto: Bofors) |
|
Essas
novas blindagens constituem-se também em uma boa
defesa contra as munições (inclusive tipo
flecha, nas quais o projétil é
um penetrador feito de material muito duro e denso
urânio exaurido, por exemplo) disparadas pelos canhões
de veículos menos sofisticados. A evolução
no projeto e produção de munição
flecha dificultou sobremaneira a probabilidade
de sobrevivência a um acerto; via de regra, é
difícil a um CC resistir a um impacto de munição
flecha disparada por outro CC da mesma geração
e porte. É claro que se está falando em tese,
já que o resultado de um engajamento vai depender
de diversas variáveis, entre elas os tipos de veículos
e o ângulo do impacto. Por outro lado, os MBT de uma
geração são praticamente imunes à
maioria dos tiros dos carros da geração anterior,
e também aos tiros dos veículos de reconhecimento
de sua própria geração.
Defesa
Logicamente, o ideal para um CC seria: a) não ser
descoberto; b) se descoberto, não ser atingido; c)
se atingido, limitar ao máximo os danos ao equipamento
e à guarnição. Para atender o item
a, um CC pode utilizar os tradicionais expedientes
de ocultação e camuflagem (as modernas redes
de camuflagem, aliás, são eficazes em uma
larga faixa do espectro de radiação eletromagnética,
inclusive infravermelho). Além disso, no projeto
dos carros modernos busca-se baixas assinaturas visual (baixa
silhueta, compacidade), acústica (abafamento de ruídos),
de radar (cuidadoso desenho das superfícies exteriores)
e infravermelho (IV). Para atender o quesito b,
os carros de combate há muito tempo já dispunham
de dispositivos lançadores de fumígenos, que
originalmente protegiam apenas contra sistemas de pontaria
e guiamento óticos, mas que atualmente são
eficazes também contra IV; a mobilidade é
outro fator importante para minimizar a possibilidade de
ser atingido. O terceiro e último item exige pelo
menos blindagem eficaz, um bom sistema de combate a incêndio,
e projeto cuidadoso para que a força das possíveis
explosões internas seja dirigido para fora do veículo.
Além dessas, outras providências devem ser
tomadas para proteger a guarnição (sistema
de proteção NBQ, sistema de armazenamento
da munição que ofereça alguma proteção
aos homens em caso de impacto, etc.), mas para efeito do
presente texto as já relacionadas são suficientes.
 |
Ao
lado O míssil anticarro
é uma ameaça importante aos MBT, principalmente
quando utilizado por helicópteros de ataque (na
foto, um Mokopa é lançado a partir de
um Rooivalk). Muitos mísseis modernos possuem
duas cabeças de guerra, em tandem, o que reduz
consideravelmente a eficácia das Blindagens Reativas
Explosivas. (Foto: Alf Yssel/MediaMakers) |
|
Os
modernos métodos e equipamentos de camuflagem podem
permitir um certo grau de invisibilidade a um
carro emboscado, por exemplo. Entretanto, uma vez tendo
entrado em ação, não é fácil
a um CC evitar a detecção. A assinatura visual
produzida pelo disparo do canhão, por exemplo, pode
ser vista a longas distâncias. Sendo inevitável
que o inimigo acione seus próprios meios contra o
CC, torna-se imperativo que este disponha de suficiente
proteção para sobreviver a um ou mais impactos
do armamento adversário.
A primeira solução foi a aplicação
de blindagem adicional, passiva ou do tipo ERA (Explosive
Reactive Armor, ou Blindagem Explosiva Reativa), como já
mencionado. Israel foi o primeiro país a adotar placas
de ERA em grande escala, o que garantiu que seus M48, M60
e Centurion empregados nas operações no Líbano
ficassem extremamente bem protegidos contra lança-rojões
RPG-7, além de mísseis e projéteis
de carga oca. Aparentemente, um dos fatores que influenciam
a eficiência das ERA são a distância
a que são colocadas do corpo do veículo e
sua inclinação daí sua aplicação
ser específica para cada modelo de viatura. Atualmente
vários fabricantes, de diversos países, oferecem
kits para aplicação em blindados.
| Ao
lado Para aumentar o nível de proteção
de seus CC AMX-30B2, a França optou pelo sistema
de Blindagem Explosiva Reativa Brenus,
desenvolvido pela GIAT. (Foto: GIAT) |
 |
|
Em
teoria, a adoção de blindagens cada vez mais
espessas poderia por si só tornar um blindado imune
ao armamento inimigo. Entretanto, na prática isso
acabaria por inviabilizar a própria existência
dos MBT, já que seu peso e dimensões assumiriam
proporções que tornariam impossível
sua utilização. Existe um limite para o peso
de um CC, e este é estipulado pela capacidade de
carga das pontes e estradas da região onde o veículo
precisa operar. Mesmo desconsiderando aberrações
como o Maus, CC de 185 toneladas desenvolvido pelos alemães
durante a guerra, é inegável que o peso dos
CC subiu a níveis alarmantes.
Para corroborar o que foi dito acima, seria conveniente
um rápido exame de seis dos principais MBT da atualidade:
M1, Leopard 2, Leclerc, Merkava , Challenger e T-80. As
características físicas encontram-se na tabela.
Abrams
 |
Ao
lado Essa foto ilustra graficamente o problema de
baixa mobilidade estratégica dos MBT atuais:
apesar de sua imensa capacidade de carga, um C-17 só
pode transportar de cada vez um M1 Abrams. (Foto: Boeing) |
|
O M1
Abrams entrou em serviço no exército dos Estados
Unidos em 1978, e a grande novidade era que seu grupo propulsor
consistia de uma turbina. Mais de 3.200 unidades do M1 (com
canhão de 105 mm) foram produzidas para o U. S. Army,
que recebeu a seguir 4.796 M1A1 (com canhão de 120
mm); outros 221 M1A1 foram entregues ao U. S. Marine Corps,
além de 555 kits para o Egito, que instalou uma linha
de produção local. A variante final foi o
M1A2, da qual o U. S. Army recebeu 66 exemplares originais
aos quais se seguiram várias centenas convertidos
a partir de modelos anteriores. O M1A2 foi também
produzido para o Arábia Saudita (315) e o Kuwait
(218).
A turbina acabou sendo o calcanhar de Aquiles do Abrams.
O consumo de combustível é grande, o que se
revelou um problema sério durante a Guerra do Golfo.
Existe um projeto da General Dynamics para instalar no Abrams
um motor diesel MTU MT883 V12, mas a princípio isso
se aplicaria somente a veículos encomendados no futuro.
O U.S. Army planeja converter um total de 1.533 Abrams para
o padrão M1A1D (versão digitalizada,
dotada de situation awareness system
sistema de consciencia situacional , receptor GPS,
telêmetro laser seguro para os olhos, melhor sistema
de comunicações, etc.). Além disso,
1.174 estão recebendo um Pacote de Melhoramento dos
Sistemas (SEP, ou Systems Enhancement Package), que além
dos equipamentos relacionados para o M1A1D inclui também
displays coloridos melhores e um sistema de gerenciamento
térmico integrado. Posteriormente, deverá
ser implementado um outro programa de upgrade
através dos quais os M1A1D receberão alguns
sistemas semelhantes aos do M1A2 SEP.
Leopard 2
Embora tendo entrado em serviço em 1979, o Leopard
2 produto da KMW, da Alemanha é em
geral considerado o melhor MBT do mundo. Encontra-se em
serviço na Alemanha (1.800), Holanda (445), Suíça
(380, dos quais 345 construídos localmente), Suécia
(160 provenientes do exército alemão, acrescidos
de 50 Leopard 2 novos produzidos na Alemanha e mais 70 produzidos
na Suécia), e Espanha (219, sendo 29 produzidos pela
KMW e o restante localmente pela Santa Barbara; como medida
provisória, 108 Leopard 2 foram arrendados da Alemanha).
Em fevereiro de 2002, a Finlândia anunciou a intenção
de adquirir, por US$86 milhões, aproximadamente 100
Leopard 2A4 anteriormente operados pelo exército
alemão. Recentemente, o Leopard 2 foi selecionado
pela Grécia, numa versão conhecida como Leopard
2GR, enquanto a Polônia deverá receber 128
Leopard 2A5 proveniente dos estoques excedentes da Alemanha.
Pelo programa KWS2 (Kampfwertsteigerung 2), a Alemanha está
modernizando 350 Leopard 2A4 para o padrão 2A5, que
inclui nova blindagem na torre, rodetes blindados, e saias
laterais melhoradas. Esses veículos já serão
preparados para receber o novo tubo de 55 calibres para
o canhão, previsto para instalação
quando os carros forem elevados para o padrão 2A6.
Para 2004-2005, está planejada a adoção
do sistema Ifis de gerenciamento de combate nos carros em
questão.
| Ao
lado O Leopard 2A5 é geralmente considerado
como o melhor CC do mundo. A variante 2A6 terá
um canhão com tubo mais longo. (Foto: KMW) |
 |
A Dinamarca
e a Holanda (ver S&D nº66 págs. 20-25) também
estão aplicando o mesmo programa, com a diferença
que os CC dinamarqueses utilizarão o pacote de blindagem
semelhante aos Leopard suecos, e serão conhecidos
como 2A5+. Os Leopard suecos, conhecidos como Strv 122,
são provavelmente os CC mais bem protegidos do mundo.
Seu peso de combate, entretanto, chega a 62.000 kg.
Leclerc
O Leclerc é o mais recente MBT totalmente novo a
ser projetado no Ocidente, e o primeiro exemplar de produção
ficou pronto em dezembro de 1991. Seus projetistas merecem
elogios por terem, em plena Guerra Fria, projetado um MBT
relativamente compacto, com peso menos elevado do que seus
contemporâneos, e com um tripulante a menos. O carregador
automático dispõe de 22 tiros para pronto
uso, armazenados na parte traseira da torre, e internamente
são utilizados displays coloridos ao invés
da instrumentação convencional. O canhão
de 120 mm é francês, mas pode usar a mesma
munição do canhão usado no Leopard
2 e no Abrams. A adoção de um tubo mais longo
(55 calibres) resulta em maior velocidade inicial quando
se usa munição APFSDS (Armor-Piercing, Fin-Stabilized
Discarding Sabot).
A França desejava re-equipar seu exército
com até 1.400 Leclerc, o que permitiria a substituição
de todos os AMX-30 em uso. Eventualmente, a quantidade adquirida
caiu para 406 da versão CC e 20 da variante de socorro,
o DNG . Em 1993, a GIAT produtora do veículo
assinou um contrato de US$3,4 bilhões para
o fornecimento de 436 Leclerc (390 carros de combate e 46
viaturas de socorro) aos Emirados Árabes Unidos.
Por discordâncias quanto aos termos contratuais, as
entregas foram suspensas durante alguns meses, em 2000-2001,
mas a situação já foi normalizada.
 |
Ao
lado O único sucesso de exportação
do carro francês Leclerc foi para os Emirados
Árabes Unidos, que adquiriram 390 unidades da
versão CC e 46 da versão de socorro. (Foto:
GIAT) |
| Ao
lado Essa vista do
interior do Leclerc mostra a sofisticação
do Sistema de Gerenciamento de Batalha adotado. (Foto:
GIAT) |
 |
|
O GIAT
está trabalhando em um estudo técnico-operacional
para a renovação dos Leclerc em 2010. Em princípio,
todos os carros voltariam à fábrica, para
que fossem zerados seus cascos e grupos propulsores.
Simultaneamente seriam incorporados kits stealth,
de contramedidas e de proteção balística.
Um dos objetivos é oferecer diferentes combinações
desses três itens, para que o CC possa ser otimizado
para cada missão. Por exemplo: em missões
de manutenção da paz o nível de proteção
de um carro pode ser menor do que em um cenário em
que se preveja a possibilidade de engajamento contra outros
CC da mesma geração. Outros melhoramentos
para o Leclerc poderiam incluir maior proteção
lateral, superior e no piso, novos sistemas de detecção
e identificação de alvos e adoção
de novas munições para o armamento principal.
A GIAT Industries está concluindo a fabricação
dos veículos para os Emirados Árabes, e a
entrega dos últimos veículos da encomenda
francesa será feita em 2005. No momento, está
sendo negociado com a Arábia Saudita o fornecimento
de 355 Leclerc na versão CC e mais 38 na variante
de socorro, um contrato cujo valor pode chegar a US$4,6
bilhões. Aparentemente, porém, o maior obstáculo
é o fato da Arábia Saudita insistir para que
a França receba de volta, como parte do pagamento,
as centenas de carros de combate AMX-30 e de viaturas de
combate de infantaria AMX-10 que atualmente são utilizados
pelo exército saudita. Os franceses rejeitam essa
opção, já que no momento não
há mercado que possa absorver esses veículos
de segunda mão. A França apelou ao Primeiro-Ministro
do Líbano para que esse tente ajudar na comercialização
das viaturas usadas; a Tunísia poderia ser um comprador
em potencial. Se o contrato com os sauditas não for
assinado até julho de 2003, a GIAT terá que
fechar a linha de produção.
Merkava
Ao projetar o Merkava, os israelenses claramente deram ênfase
à blindagem, deixando a mobilidade em segundo plano.
Diferentemente do usual, o motor foi colocado na parte dianteira
do carro, abrindo espaço para que na traseira houvesse
um compartimento relativamente amplo, para transporte de
munição extra. Se a quantidade de munição
extra para o canhão principal for reduzida em 45
tiros, é possível ao Merkava transportar nesse
compartimento dez soldados (que, entretanto, ficariam totalmente
isolados, já que para eles não há dispositivos
que permitam a visão para fora do veículo).
 |
Ao
lado O pesadíssimo Merkava (na foto o Mk.3)
israelense tem o motor na parte dianteira, aumentando
o nível de proteção da guarnição
contra ataques frontais. Os especialistas têm
criticado o desenho da torre, alegando a formação
de shot traps, que desviariam projéteis
contra o vulnerável anel da torre. (Foto: Segurança
& Defesa) |
O primeiro
protótipo foi completado em 1974, sendo interessante
o fato de que os Estados Unidos contribuíram com
US$100 milhões para custear o desenvolvimento e parte
da produção do veículo. Os primeiros
Merkava 1, dotados de canhão de 105 mm e motor de
900 hp, foram produzidos pela IMI (Israel Military Industries)
e entregues ao exército de Israel em 1979, sendo
empregados em combate três anos depois, no Líbano.
Em 1984 foi introduzido o Merkava 2 ainda com canhão
de 105 mm e mesmo motor, mas melhor protegido e equipado
com novo telêmetro laser e outras melhorias. Em 1990
apareceu o Merkava 3 (com canhão de 120 mm de alma
lisa, motor de 1.200 hp, controles elétricos para
a torre etc.), também conhecido como Baz (Falcão),
que atualmente é o principal carro de combate do
exército israelense.
Nas recentes operações contra os palestinos,
um Merkava 3 teve a parte inferior do casco rompida pela
explosão comandada de uma bomba enterrada numa estrada,
o que causou a morte dos tripulantes. Os israelenses informam
que na ocasião não estava instalada no veículo
a placa de blindagem adicional (removível) para o
piso do casco, exatamente para proteção contra
esse tipo de ataque.
Não foram liberados dados sobre a quantidade de Merkava
produzidos, mas acredita-se que o exército de Israel
disponha atualmente de 1.280 desses carros. À exceção
do motor um diesel de origem americana, desenvolvendo
1.200 hp , todos os itens principais são produzidos
no próprio país. A próxima versão
será o Merkava 4, com motor mais potente. Até
agora o Merkava não foi exportado, mas comenta-se
que a nova variante será alvo de uma forte campanha
de comercialização.
Challenger
2
O Challenger 2, britânico, é em essência
um Challenger 1 com casco melhorado e nova torre. As entregas
ao British Army foram iniciadas em 1994, mas o veículo
só foi declarado operacional em 1999. Ao todo, o
exército britânico possui 386 exemplares da
versão CC, além de 22 da variante de treinamento
de motoristas, e o último exemplar para o cliente
da casa foi entregue pela VDS (Vickers Defence
Systems) em fevereiro de 2002. A única exportação
ocorreu para Omã, que adquiriu um total de 38 unidades
do Challenger 2E e quatro viaturas de socorro do Challenger
1.
 |
Ao
lado O Challenger 2
é utilizado pela
Grã-Bretanha e por Omã. Seu custo, entretanto,
tornará difícil exportações
adicionais. (Foto: VDS) |
O veículo
permanecerá muito tempo em serviço, estando
planejados três Grupos de Inserção
de Tecnologia (TIG=Technology Insertion Groups). No
TIG-A a ênfase será na digitalização,
sendo integrado o novo sistema de comunicações
Bowman. No TIG-B, planejado para 2010, será aumentada
a capacidade de visão térmica e adotadas novas
munições. Quanto ao TIG-C, previsto provavelmente
para 2020, não há ainda definição.
Visando a eventual substituição do Challenger
2, a DERA está desenvolvendo alguns conceitos. Sabe-se
que um deles adota como armamento principal um canhão/lançador
de mísseis montado em uma torre, de cada lado da
qual é instalado um canhão leve para defesa
antiaérea.
T-80
O T-80 é um dos principais CC pesados russos, e sua
produção em série foi iniciada em 1983.O
veículo foi produzido em enormes quantidades (pelo
menos 20.000 até 1993, e a partir de então
o ritmo foi reduzido). Recentemente, 320 T-80 foram encomendados
pelo Paquistão e 30 pela Coréia do Sul. O
T-80 foi o primeiro CC russo a ser impulsionado por uma
turbina, e a adoção de um carregador automático
(com 28 tiros disponíveis para pronto uso, e mais
17 armazenados a bordo) permite que seja guarnecido por
três homens.
| Ao
lado O T-80U tem
aproximadamente 75% do peso e volume dos MBT ocidentais,
o que reflete a filosofia russa de projeto de CC,
que privilegia a
compacidade e silhueta baixa, em detrimento do conforto
da guarnição. (Foto: Rosoboronexport) |
 |
O armamento
principal é o canhão/lançador de mísseis
2A46M-1, de 125 mm e alma lisa, que pode disparar vários
tipos de munição entre elas APFSDS
(Armor-Piercing Fin-Stabilized Discarding Sabot, a conhecida
munição flecha), HEAT (high Explosive
Anti-Tank, ou Alto Explosivo Anticarro) e HEF (High Explosive
Fragmentation, ou Alto Explosivo de Fragmentação)
, bem como mísseis anticarro. As versões
iniciais do T-80 usavam o míssil 9M112 Kobra (AT-8
Songster, na denominação da OTAN), mas a variante
atual emprega o 9M119M (AT-11 Sniper), guiado a laser e
com cabeça de guerra do tipo HEAT. A utilização
desse míssil confere ao T-80U a capacidade de engajar
alvos a distâncias de até 5.000 m.
Como é comum em carros russos, a silhueta é
baixa, o que, somado ao cuidadoso desenho do casco e torre,
isolamento térmico, e outras providências,
lhe confere excelentes níveis de assinaturas. O maior
consumo de combustível que resulta do uso da turbina
é parcialmente compensado pela capacidade de transportar
combustível adicional em tanques externos, removíveis
(outra característica típica dos CC russos).
Peso demasiado
Se há alguma coisa sobre a qual todos os especialistas
em blindados concordam, é que a próxima geração
de MBT (se houver uma próxima geração)
não poderá ter peso superior aos carros pesados
atuais. CC como o M1A2 (69,5 t), Challenger 2 (64,0 t),
Leopard 2A5 (59,7 t), Leclerc (56,5 t) e Merkava 3 (65,0
t) já atingiram o patamar máximo e peso admissível
muitos especialistas afirmam até que alguns
deles já ultrapassaram esse patamar. Os MBT russos
tradicionalmente são mais leves (o T-80U pesa 46,0
t), em parte porque sacrificam certos aspectos que não
são politicamente corretos no Ocidente
(o conforto da tripulação, por exemplo).
Pesos elevados dificultam a mobilidade (não são
todas as estradas e pontes que os suportam), limitam o emprego
(em geral não são adequados a operações
de manutenção ou imposição de
paz em países em desenvolvimento ou não desenvolvidos),
resultam em custo elevado (por motivos óbvios), criam
problemas de mobilidade estratégica (por exemplo:
somente um Challenger 2 pode ser transportado de cada vez
por um C-17), etc.
 |
Ao
lado O Black Eagle pode ser a base de
um futuro MBT russo. Com baixa silhueta, Blindagem Reativa
Explosiva e canhão de 135mm, o veículo
seria um adversário indigesto.
(Foto: Rosoboronexport) |
Uma
das maneiras de diminuir o peso seria a adoção
de soluções radicais, como o abandono da torre,
colocando-se o canhão no próprio casco. Um
veículo assim já foi produzido em quantidade
significativa e usado operacionalmente em décadas
passadas: o famoso S-tank, da Suécia.
A desvantagem principal é que é necessário
apontar todo o carro em direção ao alvo, o
que tornaria impossível o tiro em movimento. Uma
solução intermediária seria a adoção
de torres não-guarnecidas (e portanto menores), com
o comandante passando a assumir uma posição
no casco e adotando-se um carregador automático (carregadores
automáticos já são uma realidade, estando
em uso no Leclerc, T-80U, T-90S, etc.).
Nova
proteção
A inevitabilidade de que futuramente sejam adotados veículos
mais leves leva a algumas considerações. Na
impossibilidade de se acrescentar mais e mais blindagem,
começaram a ser desenvolvidos alguns interessantes
equipamentos de proteção, conhecidos como
DAS (Defensive Aid Systems, ou Sistemas de Auxílio
à Defesa). Relativamente leves, não têm
impacto sensível no peso do veículo, mas aumentam
consideravelmente o nível de proteção,
o que compensaria a diminuição na blindagem.
| Ao
lado Esta foto de um Challenger 2 disparando seu
canhão claramente ilustra porque, uma vez tendo
engajado o inimigo, é muito difícil
a um CC não ser detectado. (Foto: Crown Copyright) |
 |
Atualmente,
vários países já usam dispositivos
de alerta-laser, capazes de avisar quando o veículo
está sendo iluminado por raios laser provenientes
de telêmetros ou sistemas de designação
de alvos ou de direção de tiro inimigos. Para
a guarnição, é desejável que
esse alerta possa ser dado não importando de que
direção venha o laser. Em outros termos, isso
significa que devem ser adotados detectores que cubram um
arco o mais amplo possível. É igualmente desejável
que seja indicado aos tripulantes o azimute aproximado da
origem do laser, de forma a facilitar o engajamento. Os
sistemas mais sofisticados podem analisar o tipo de radiação
e através de comparação com
uma biblioteca já armazenada indicar o tipo
da ameaça.
Foram também desenvolvidos alguns equipamentos de
alerta-radar, bem como jammers infravermelho. Esses jammers
objetivam confundir as unidades de tiro de mísseis
anticarro, fazendo-as aceitar o sinal falso gerado ao invés
do que vem do flare ou da lâmpada de xenônio
localizada na cauda do míssil AC. Existem informações
de que já na Guerra do Golfo, em 1991, muitos carros
T-72 da Guarda Republicana do Iraque possuíam jammers
IV no topo da torre, tendo através de seu uso conseguido
desviar vários mísseis.
Entretanto, logo se verificou que a simples instalação
de tais equipamentos poderia não ser suficiente.
O ideal era o desenvolvimento de suites de proteção
que combinassem os diversos equipamentos, integrando-os
em um sistema que envolvesse contramedidas ativas e passivas.
Os DAS têm custo elevado, e fica no ar a questão
de quanto se deve gastar na proteção de um
MBT. Definir esse ponto de equilíbrio não
é fácil. Os CC modernos não são
baratos nem existem em quantidades comparáveis àquelas
da Segunda Guerra precisam, portanto, ser preservados.
Se, entretanto, a aplicação de sofisticados
sistemas de proteção tornar seu custo elevado
demais, o resultado será a produção
de uma quantidade menor de veículos, o que terá
sobre a frota de CC de um país um efeito semelhante
ao atrito sofrido em possíveis combates. A situação
complica-se ainda mais quando se verifica que os meios anticarro
continuam evoluindo.
Parece haver um consenso de que, no futuro, um CC precisará
ter capacidade de detectar uma ameaça e neutralizá-la
antes que seja atingido. Sistemas de soft kill podem ser
eficazes contra mísseis, desviando-os, mas munições
balísticas, uma vez disparadas pelo inimigo, só
poderão ser neutralizadas através de hard
kill, ou seja, sua destruição física.
Os russos parecem já ter constatado isso há
muito tempo. Em 1983 iniciaram-se os testes com um sistema
denominado Drozd, desenvolvido pelo KBP Instrument Design
Bureau. A variante 1 protegia somente o arco frontal,
mas o Drozd-2 cobre 360 Î; montado na torre, pesa 1.000
kg e consiste de três módulos de radar, quatro
unidades de armamento (cada uma com duas munições
defensivas), um painel de controle e um módulo de
equipamento de radar. O radar detecta e acompanha a ameaça
(munição chegando, a uma velocidade entre
70 m/s e 700 m/s) e uma das munições defensivas
(cuja velocidade é de 190 m/s) é lançada
quando o projétil está a aproximadamente 200m
do carro. A explosão da munição lançada
(alto explosivo, de fragmentação) ocorre a
6-7 m do carro, lançando grande número de
fragmentos na trajetória do projétil inimigo.
O primeiro veículo a receber a instalação
do Grozd foi o T-55AD (não mais em serviço),
seguindo-se o T-62D/D1; o sistema foi também demonstrado
no T-80U.
O disparo automático das munições defensivas
é suspenso quando a escotilha do veículo estiver
aberta. Isso revela um problema encontrado quando se utiliza
esse tipo de sistema, ou mesmo blindagem reativa: os danos
e baixas que podem ser causados, por exemplo, à infantaria
amiga desabrigada, que esteja nas proximidades do CC. Até
o presente, não foi encontrada uma solução
satisfatória para isso.
O Drozd foi instrumental no desenvolvimento do Arena, muito
mais sofisticado. Um radar colocado sobre a torre realiza
a vigilância, e uma vez detectada a aproximação
de uma munição inimiga que seja caracterizada
como ameaça (disparos que não vão atingir
o veículo são ignorados, mesmo que passem
perto; o mesmo ocorre com estilhaços de artilharia
e tiros de armas pequenas), e passa a rastreá-la.
No momento adequado é acionada automaticamente uma
munição defensiva (em número de 22
a 26, localizadas em silos no entorno da torre).
A detonação ocorre a uma distância considerada
segura, e uma chuva de fragmentos atinge a ameaça.
O Arena protege os setores frontal e laterais do carro,
e foi demonstrado nos protótipos do T-80M2, tendo
sido oferecido para o programa de modernização
dos T-72M1 da Índia. O tempo gasto num engajamento
é 0,07 segundos; 0,2 a 0,4 segundos depois, o sistema
está pronto para detectar e engajar outros alvos.
Como no Drozd, a munição defensiva só
é disparada se a escotilha estiver fechada. Os russos
informam que a área letal para a infantaria é
de 20 m a 30 m do carro, e que uma luz externa de aviso
sinaliza que o sistema está ativado. É pouco
provável, entretanto, que soldados em ação
prestem muita atenção a esses detalhes...
Os Estados Unidos planejam adotar, para o seu programa FCS
(Future Combat Systems), um sistema defensivo bastante abrangente,
que possa se contrapor inclusive a mísseis em trajetória
de top attack e a submunições
do tipo self-forging.
Armamento
A questão do armamento principal também é
importante. Os MBT via de regra utilizam canhões
de 120 mm, e embora vários países tenham feito
testes com calibres maiores (mormente 140 mm), é
provável que o limite atual não seja ultrapassado.
A adoção de um canhão de maior calibre
significaria maior peso, que é o que se quer evitar.
Por outro lado, não traria nenhuma garantia de que
um veículo defendido por um moderno sistema de proteção
pudesse ser destruído. Em princípio, portanto,
não há porque usar um calibre maior.
Essa é, pelo menos, a visão que prevalece
no Ocidente. Em 1997 foi revelada a existência do
protótipo de um novo MBT russo, de silhueta excepcionalmente
baixa, ao qual se denominou Black Eagle. Embora
não se saiba muitos detalhes sobre o veículo,
o armamento principal constava de um canhão de alma
lisa de 135 mm, alimentado por um carregador automático.
Pouco depois, anunciou-se estar em estudo um MBT denominado
T-95, também armado com um canhão de 135 mm
e cujo peso chegaria a 50 t. Dada à atual situação
da economia russa, é pouco provável que um
desses dois veículos seja colocado em produção
a curto prazo.
|
|
 |
Ao
lado O peso dos atuais MBT (na foto, o Leclerc)
limita seriamente sua mobilidade estratégica,
e deverá levar ao
desenvolvimento de
veículos mais leves.
(Foto: GIAT) |
|
|
Alguns
setores pregam uma regressão para o calibre 105 mm,
caso se opte por veículos mais leves. Buscar-se-ia
na sofisticação das futuras munições
uma forma de igualar a eficácia do atual 120 mm.
Existe também a possibilidade de desenvolvimento
de armas totalmente revolucionárias, como canhões
eletrotérmicos-químicos (ETC= ElectroThermal
Chemical), que permitiriam obter com o calibre 120 mm o
desempenho que hoje só seria possível com
o 140 mm.
Em parelelo, novas munições podem aumentar
a capacidade dos MBT. Fala-se, por exemplo, no desenvolvimento
de munições guiadas que, disparadas pelo canhão,
confiram um grande aumento na capacidade de engajamento
de helicópteros pelo CC.
Tem
futuro?
Parece certo, portanto, que a médio e longo prazos
serão adotados veículos mais leves mas que,
graças a progressos nas áreas de armamento
e medidas defensivas ativas, possam desempenhar o mesmo
papel dos MBT atuais. Os futuros veículos deverão
também ter maior mobilidade e menores custos inicial
e de operação requisitos difíceis
de ser compatibilizados. Os EUA, por exemplo, almejam um
limite de 20 t para seu FCS, mas muitos pensam que
a menos que ocorra alguma inesperada revolução
tecnológica não será possível,
na melhor das hipóteses, obter um peso menor que
30 t.
A curto prazo, vão prevalecer os CC já existentes
sofrendo modernizações que lhes permitam
se contrapor à evolução do armamento
anticarro. A atual geração de MBT ainda vai
estar em serviço durante muito tempo. O Exército
dos EUA espera colocar em serviço os primeiros FCS
a partir do Ano Fiscal 2012, mas reconhece que o M1 Abrams
ainda se constituirá num componente importante de
suas forças blindadas pelo menos pelos próximos
25 anos. O mesmo se pode dizer quanto ao Leclerc e ao Leopard
2, em relação aos países onde estão
em uso.
Novos sistemas de proteção serão uma
opção interessante para a modernização
de carros existentes. Seu custo, porém, representa
um impedimento para sua implementação em grande
escala, o que pode significar que estarão disponíveis
somente para instalação em parte das frotas
blindadas. Os carros assim protegidos seriam empregados
nas primeiras levas de ataques contra adversários
que disponham de sistemas AC de última geração.
O cenário ainda não está suficientemente
claro para que se chegue a definições exatas.