Artigo introduzido em 25 de agosto
de 2004
EDUARDO MARSON
S&D Entrevista o Gerente-geral
do
Grupo EADS no Brasil
No
início de junho, Segurança & Defesa
teve a oportunidade de entrevistar, por meio de seu editor,
Mário Roberto Vaz Carneiro, o Sr. Eduardo Marson
(foto), gerente-geral do Grupo EADS no Brasil.
S&D — Em primeiro lugar, gostaria que você falasse
um pouco sobre a EADS.
Eduardo Marson — A EADS é o resultado de um
movimento intenso de fusões e aquisições
ocorrido na Europa nas décadas de 80 e 90. É a
resposta européia ao grande budget de defesa americano. É difícil
a uma empresa concorrer sozinha, quanto mais num mercado
multi-facetado, como era o europeu. A EADS reflete a própria
tendência da União Européia. Basicamente,
três grandes grupos formam a EADS hoje. O lado francês
(SOGEADE) tem 30,1%, originários do grupo Lagardère — a
Aerospatiale Matra —, mais uma participação
do governo francês; o lado alemão (DaimlerChrysler),
também com 30,1%, é oriundo da DaimlerChrysler
Aerospace AG, a antiga DASA; e o lado espanhol (SEPI),
que detém 5,5%, é basicamente composto pelo
governo espanhol, juntamente com a antiga CASA-Construcciones
Aeronáuticas S.A.. O restante, 34,3%, é público
e está no mercado de capitais.
S&D — E quanto à presença
da EADS no Brasil?
Eduardo Marson — Aqui no Brasil a empresa já está presente
há 26 anos, enquanto sócia da Helibras, juntamente
com a Aerospatiale e, posteriormente, Eurocopter. Temos
ainda uma participação próxima a 6%
na Embraer, e isso nos faz um player antigo no mercado
brasileiro. A EADS Brasil é a responsável
pela coordenação estratégica do grupo
no país. Está sob nossa responsabilidade
todo o posicionamento estratégico do grupo. Aqui
nós não somos uma estrutura de vendas, e
sim uma estrutura de marketing e estratégia. Nossa
função primordial é manter o relacionamento
institucional com os nossos clientes — no setor militar,
as três Forças Armadas.
S&D — Nesse esquema, onde entram as business
units da EADS?
Eduardo Marson — O papel da EADS Brasil é manter
o canal de comunicação com o cliente absolutamente “azeitado”.
Ficamos atentos a qualquer movimentação das
nossas business units (Eurocopter, etc.) para que não
haja qualquer comprometimento institucional da empresa
por alguma ação delas. Devemos ter uma ação
coordenada perante o governo brasileiro. Quando dizemos
ao governo, por exemplo, que a política da EADS é aumentar
os investimentos no país, aumentar sua presença,
isso reflete um posicionamento institucional do grupo como
um todo, e não o posicionamento da MBDA ou da Eurocopter,
por exemplo. Estipulada a política, nós a
circulamos pelas Business Units, para que todos falem a
mesma língua.
S&D — Você poderia dar um exemplo concreto
do que significaria esse aumento de presença?
Eduardo Marson — Claro. Veja por exemplo a declaração
do presidente da Eurocopter, no sentido de que quer aumentar
as compras no Brasil. Por uma questão lógica
não é possível nacionalizar mais os
helicótperos da Helibras, pois já se atingiu
o máximo índice de nacionalização
possível nesse momento. Mas nada impede que busquemos
outros fornecedores para as linhas mundiais da Eurocopter.
Então não se trata de aumentar o índice
de nacionalização do produto, mas sim de
aumentar a participação do Brasil na linha
da Eurocopter como um todo. Passar a comprar partes, peças
e até serviços, pois a engenharia brasileira é extremamente
competente, para fornecimento para toda a linha da Eurocopter.
Isso é parte de uma política formulada pela
EADS de maior participação no Brasil, e de
maior inserção do Brasil nesse nosso bid
mundial.
S&D — Você poderia falar um pouco sobre
a presença da EADS no mercado de defesa brasileiro,
em termos de equipamentos?
Eduardo Marson — Somos fornecedores das três
Forças Armadas. E para certos itens a situação é extremamente
interessante. Em termos de helicópteros, por exemplo;
nas três Forças, nossas máquinas são
majoritárias em relação às
dos nossos concorrentes. Em termos de mísseis acontece
algo parecido; embora forneçamos paras as três
Forças, somos particularmente fortes na área
da Marinha do Brasil. Todos os mísseis que a MB
utiliza hoje são de fabricação da
MBDA, que por sua vez é o resultado de uma joint
venture entre a EADS, a Finmeccanica e a BAE. Embora seja
uma participação tripartite, a liderança
do marketing no Brasil e em 90% do planeta é da
EADS.
S&D — Quais programas a EADS tem em andamento
com a FAB?
Eduardo Marson — Além do programa VCX, o avião
presidencial, com contrato já assinado e em andamento
(entrega do avião está prevista para dezembro),
temos dois outros, ambos da EADS-CASA: o C-295 e a modernização
do P-3. Os contratos estão negociados com o cliente,
já estão “congelados”, não
se mexe mais, estão rubricados e só falta
assinar. Só não estão assinados por
uma questão administrativa, a Lei de Responsabilidade
Fiscal. É a mesma situação de um outro
contrato que temos com a MB. A EADS-CASA tem uma grande
tradição no mercado latino americano. No
Chile por exemplo, há pouco tempo suas aeronaves
completaram 25 nos de uso, houve celebrações,
etc. O Brasil é o único país da América
Latina onde os aviões da EADS-CASA não estão
presentes. Então estamos esperando os acontecimentos
em Brasília, pois trata-se de uma questão
político-administrativa: tem que passar pelo Congresso,
etc.
S&D — A concorrência pelo CLX foi acirrada.
A que você atribui a vitória do C-295?
Eduardo Marson — Em vários setores, a EADS
está na crista do desenvolvimento. É o caso
da Airbus, que ultrapassou seu concorrente principal porque
sua tecnologia está um passo adiante. O mesmo acontece
com o C-295. Trata-se de uma plataforma que, na área
dos turboélices de transporte militar, está na
crista do desenvolvimento tecnológico. O C-295 é hoje,
indiscutivelmente, o melhor produto em sua categoria.
S&D — E quanto ao FX?
Eduardo Marson — Nosso interesse específico
no projeto FX diz respeito ao sistema de armas. Embora
tenhamos participações no capital da Dassault
e no capital da Embraer, não temos muita interveniência
no FX propriamente dito, pois a liderança é da
Embraer. Mas estamos olhando com muito carinho a possibilidade
de vender o sistema de armas ar-ar da MBDA, o MICA. É um
míssil BVR extremamente interessante para a força.
Como pode usar cabeças de guiamento diferentes,
radar e infra-vermelho, o seu oponente pode saber que você tem
o MICA, mas não sabe de que tipo, o que dificulta
as contramedidas e/ou a evasão.
S&D — Está sendo oferecido à FAB
algum míssil ar-superfície?
Eduardo Marson — Não, no momento não
estamos oferecendo nenhum armamento ar-superfície à FAB.
Estamos nos concentrando no MICA.
S&D — E quanto à Marinha?
Eduardo Marson — Na Marinha estamos com um contrato
pendente para a remotorização dos AM39 Exocet,
contrato esse já rubricado e negociado, e que está aguardando
autorização para ser assinado, o que esperamos
aconteça nos próximos dias. Estamos discutindo
com a MB, embora ainda num estágio bem mais primário,
a solução de guerra A/S e A/Sup com o helicóptero
Cougar. Os mesmos argumentos que usamos hoje para batalhar
por uma solução brasileira no FX eu usaria
para falar no Cougar. Hoje ele é um helicóptero
maduro, que está presente nas três Forças,
portanto tem massa crítica no país. Agora
está presente também na área civil,
como Super Puma Mk.2, na Petrobras — já existem
três máquinas operando offshore, sem contar
alguns Mk.1 ainda em uso. Já existe então
uma massa crítica de Super Puma, e uma empresa nacional
chamada Helibras que pode agregar valor na montagem final
aqui, e na manutenção. E mais do que isso:
a própria Eurocopter já declarou que, aproveitando
a massa crítica de Super Pumas aqui no Brasil, talvez
valha a pena pensar numa linha Super Puma no país,
para atender a América Latina. Logicamente, isso
ainda depende do crescimento dessa massa crítica.
Estamos fazendo um esforço técnico muito
grande junto à MB. Aliás, a MB teve oportunidade
de ver o Cougar nessa versão no Chile, e achamos
que num país onde as dificuldades são grandes,
o melhor caminho é o da a “standardização” e
o de uma solução local.
S&D — A EADS está oferecendo à MB
alguma solução para a defesa antiaérea
do NAe São Paulo?
Eduardo Marson — Não iniciamos ainda o movimento
para oferecer alguma coisa para a defesa antiaérea
do São Paulo. O que ocorreu foi o seguinte: temos
duas áreas na EADS – Defence Electronics (DE)
e a Defence & Communications Systems (DCS) — que
foram totalmente reformuladas nesse início de ano,
tanto em termos físicos como em termos de equipe.
Por conta dessa reformulação tivemos que
segurar um pouco tudo que é relacionado com guerra
eletrônica, sistemas antiaéreos, aquisição
de alvos, etc. Além disso, embora muita gente esteja
falando na repotencialização do São
Paulo, não vemos como a Marinha possa lançar
no momento um projeto dessa magnitude. Nossa idéia é,
a partir de algumas visitas que o pessoal da DE e da DCS
está fazendo ao Brasil nos últimos meses,
lançar um programa interno para começar a
estudar a possibilidade de oferecer soluções à Marinha.
S&D — E que tipo de soluções
seriam essas?
Eduardo Marson — Lógico que do ponto de vista
de mísseis vamos continuar oferecendo à MB
toda a nossa gama de produtos. Somos o único fornecedor
de mísseis para a MB — quando eles foram comprados
eram de fabricantes diferentes —, e não temos
intenção de perder pessa condição.
Temos uma gama enorme de possibilidades, desde dos novos
Blocks do Exocet até, por exemplo, o VL Mica. Podemos
até dizer que conhecemos bem o São Paulo,
e suas possibilidades. A MB está falando da modernização
dos aviões, que seria prioritária. Ficou
tanto tempo sem investimentos que hoje tudo é prioridade,
o que também acontece com a Força Aérea.
Para a MB. estamos estudando, entre outros, programas ligados
a eletrônica, defesa de área, etc. Hoje, a
EADS está caminhando para um approach de solução
total. Qual é a necessidade do cliente? Determinamos
isso e então oferecemos um pacote, no qual podem
entrar as áreas de DE, de DCS, de mísseis,
de helicópteros, etc. Essa é talvez a grande
novidade desse desenho da EADS. Ela funciona como um integrador
dessa total solution. E podemos até integrar produtos
de outros fabricantes. Não temos problema algum
quanto a isso.
S&D — E em relação ao Exército?
Eduardo Marson — O contrato de fornecimento de helicópteros
Cougar para o EB está praticamente terminando, embora
obviamente esteja em andamento o contrato de offset. Estamos
empenhados em vendas adicionais de helicótperos
Super Puma para o Exército, ainda dentro da mesma
concorrência. Tudo ainda depende de budget, mas trata-se
de uma necessidade operacional real, pois diante do advento
da Brigada de Operações Especiais o deslocamento
passa a ser crítico, e atualmente o Exército
só tem os helicópteros em Taubaté e
Manaus. Não estamos negociando com o EB nenhum contrato
novo, mas sim fazendo é uma grande parceria.
S&D — E como você descreveria essa
parceria?
Eduardo Marson — A EADS não está aqui
para ações de curto prazo. Afinal, como eu
disse, já estamos há 26 anos no mercado brasileiro.
O que fizemos foi assinar um Memorando de Entendimento
com a Imbel, e isso faz parte de nossa estratégia
de longo prazo. Muitos pensaram que isso estaria diretamente “amarrado” à venda
ao EB na viatura 8x8 da Patria. Mas nossa idéia
não é essa, pois esse veículo não é algo
que o Exército possa imediatamente adquirir. A idéia é criar
uma base industrial no Brasil, até mesmo antes do
EB poder adquirir esses veículos. Estamos pensando
em exportação, e não fazendo um programa
e esperando que amanhã o EB venha a comprar uma
quantidade enorme dessas viaturas de uma só vez.
Estramos investindo no mercado, e esse é o conceito
de nossa parceria com a Imbel. É um investimento
a longo prazo.
S&D — Qual a abrangência desse
MdE?
Eduardo Marson — O MdE cobre uma série de áreas
que estamos investigando para identificar em que áreas
em que podemos atuar conjuntamente. É um memorando
genérico de apoio comercial mútuo, de transferência
de tecnologia. A EADS criou o conceito, identificou o parceiro
nacional credível perante o cliente — no caso
o EB —, que tem a boa vontade do EB, que precisa
de desenvolvimento sob todos os aspectos, que está passando
por uma transformação — porque a nova
administração está imponto um outro
ritmo, está totalmente empenhada em colocar a Imbel
no Século 21. Fizemos uma parceria estratégica.
Claro que os players dessas parcerias serão nossas
Business Units. Cabe a cada uma de nossas Business Units
definir os campos específicos de cooperação.
Apenas como exemplo, a MBDA poderá eventualmente
achar que a Imbel é interessante para produzir uma
linha de mísseis, ou a nossa área de defesa
eletrônica pode achar que a Imbel tem capacidade
para nacionalizar alguns produtos para o mercado brasileiro.
Logicamente, no momento em que estamos atuando junto ao
cliente e as informações começam a
passar por nossa estrutura, isso ajuda a retroalimentar
as equipes de vendas das nossas Business Units.
S&D — E já foi definida alguma dessas áreas
de cooperação?
Eduardo Marson — Já identificamos uma muito
palpável. Na DCS temos uma área de rádios
policiais, redes digitalizadas e criptografadas, para uso
policial. É o sistema Tetrapol, com o qual já temos
em andamento um projeto com a Polícia Federal. Identificamos
na Imbel, na Fábrica do Rio de Janeiro, no Caju,
a possibilidade de nacionalizar essa tecnologia, ao longo
de um período de tempo.
S&D — Qual seria o papel da Imbel nesse caso?
Eduardo Marson — Num primeiro momento a Imbel tem
capacidade de montar esses rádios no Brasil, prestar
assistência técnica (fundamental para a atividade
policial), e ao longo do tempo ir nacionalizando a tecnologia.
Não só para o Brasil mas também para
outros países onde o Brasil tenha algum tipo de
vantagem competitiva. Esse é um exemplo de ação
a curto prazo. O item é pequeno, mas os números
não são tão pequenos. Só a
PF, por exemplo, tem sete a oito mil homens, a Polícia
de São Paulo tem cem mil homens, a de Minas Gerais
tem quarenta mil, e por aí vai. Essa diversificação
para segurança pública é um nicho
importante, porque reduz a dependência da EADS de
receitas vindas de aviação civil e do setor
militar. Hoje, por exemplo, a EADS está desenhando
uma solução para a segurança das Olimpíadas
de Beijing, e como esse temos uma série de projetos.
S&D — E sobre o blindado AMV, da Patria, o que
você poderia dizer?
Eduardo Marson — Esse é um ponto interessante,
pois de uma certa forma eu me considero “o pai da
criança” no que concerne ao Brasil. Quando
eu entrei na EADS, em fevereiro-março de 2003, estava
se falando da família de blindados do EB. Coincidiu
que naquele momento a EADS estava adquirindo uma participação
na Patria, uma empresa estatal finlandesa, uma Imbel da
Finlândia, extremamente bem sucedida — não
só na área de blindados, mas também
por exemplo na área de aeronáutica (a caixa
do radar Erieye dos R-99A é fabricada pela Patria,
que também produz uma parte do cone de cauda do
145 e partes do A380). A EADS estava em negociações
com os governos nórdicos para os programas dos helicópteros
NH90 e do Tiger, e como parte dos offsets desses programas,
foi adquirido aproximadamente 27% da Patria. Verifiquei
que a Patria tinha um veículo 8x8, o AMV, que estava
com ótimas chances de ganhar o maior programa de
aquisição de blindados em andamento naquela
ocasião no mundo, na Polônia (que eventualmente
ganhou, para o fornecimento de 690 exemplares). Juntei
dois mais dois. Tive a felicidade de encontrar um gerente
de marketing da Patria que morou cinco anos no Brasil,
fala português, adora o Brasil. Ele tinha até participado
quando, em 1999, o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento
convidou algumas empresas para uma apresentação
do ROB (Requisito Operacional Básico — Editor)
inicial desse projeto (Fiat Iveco, Santa Barbara, etc.).
Usando minha experiência no mercado brasileiro, comecei
a montar uma idéia para que não se cometesse
os erros do passado. Por exemplo: determinei que tinha
que haver produção no Brasil, país
que tem uma longa tradição nesse setor. Há gente
qualificada, até com condição de melhorar
o projeto. O projeto está na crista de tecnologia,
tem enorme potencial de desenvolvimento/upgrades, e já mostrou
sua vantagem competitiva. As provas na Polônia foram
duríssimas, mas para você ter uma idéia
, no primeiro mês de testes o Pátria não
trocou nenhum pneu, e o mais próximo concorrente
trocou doze.
S&D — E a idéia de abrir uma linha
do AMV no Brasil?
Eduardo Marson — O Brasil passa por um momento difícil,
e não podemos montar uma base industrial para atender
somente o EB. Estamos pensando então em atender,
a partir do Brasil, os países com os quais o Brasil
tenha relacionamento privilegiado. Não há uma
definição de área, é uma questão
de determinar onde o Brasil tem uma vantagem comercial.
Como você sabe, trouxemos um AMV ao Brasil, ele foi
testado pelo Exército e a avaliação
inicial foi muito boa. Até no Lago Paranoá ele
entrou. Achamos o parceiro correto, a Imbel, que é hoje
a depositária do acervo tecnológico da Engesa,
o que é importante. Além disso, a Imbel está num
processo de revitalização dos Cascavéis
e Urutus, o que lhe dá experiência no manuseio
desse tipo de programa. E gostaria de frisar uma coisa:
o projeto não está fechado para ninguém.
Como estamos num estágio primário, ainda
não temos uma negociação objetiva
com ninguém, mas até pelo fato da EADS ser
uma empresa naturalmente cooperativa, quanto mais massa
crítica pudermos agregar no Brasil, melhor. Mas
o nosso parceiro prioritário é a Imbel.
S&D — O que você quer dizer com a EADS
ser “naturalmente cooperativa”?
Eduardo Marson — O fato de sermos uma empresa formada
da cooperação internacional facilita muito,
pois a EADS não é identificada com um determinado
país. Ela nasceu da cooperação franco-alemã no
final da década de 60 e início dos anos 70,
que gerou entre outros o consórcio Airbus, e depois
a Eurocopter. Todos os projetos de ponta da EADS hoje em
dia são feitos na base da cooperação.
Veja o exemplo do A400M. Cada um dos países que
se comprometeu a comprar a aeronave tem uma participação.
O próprio A380, veja de quantos lugares do mundo
vem partes dele. Hoje a EADS tem uma participação
grande até nos EUA. A American Eurocopter é um
exemplo. Nossa operação dos EUA é a única
que tem uma holding, a EADS North America. É por
isso que hoje somos a segunda empresa do mundo. E, com
nosso faturamento de 30 bilhões de euros, estamos
bem próximos dos 40 bilhões de dólares
da Boeing.
S&D — Onde entraria a participação
sul-africana no programa do AMV “brasileiro”?
Eduardo Marson — O envolvimento da África
do Sul não surgiu à toa. É que a EADS
tem um relacionamento muito bom com a Denel, que por sua
vez tem um perfil semelhante ao da Imbel. Até a
venda do Gripen para a África do Sul, a BAE estava
negociando com o governo sul-africano a eventual aquisição
de uma parcela minoritária da Denel. Depois, a BAE
resolveu declinar e saiu do circuito. O governo da África
do Sul então convidou a EADS para analisar a possibilidade
de uma parceria estratégica, que pode resultar na
compra de uma parcela minoritária do capital da
Denel. Hoje estamos nessa fase. No setor de defesa, nenhuma
empresa isolada consegue sobreviver. Da mesma forma que
a Denel e a Patria percebem que precisam de uma aliança
estratégica que lhes permita o acesso à tecnologia,
que lhes possibilite repartir custos de pesquisa e desenvolvimento,
que lhes dê acesso ao mercado internacional, acesso
ao mercado financeiro, etc., também o nosso Memorando
com a Imbel — de uma outra forma, sem participação
acionária —, permite à empresa brasileira
circular nesse meio de uma maneira mais consistente.
S&D — E qual seria a colaboração
da Denel?
Eduardo Marson — Nossa idéia é um projeto
cooperativo. Quem faz torretas hoje no mundo? Oto Melara,
Delco, General Dynamics, Denel e poucas outras. A África
do Sul é um país do mesmo tipo que o Brasil,
no qual o Brasil tem um tremendo interesse. A África
do Sul tem atualmente um requisito de viatura 8x8, e a
Denel produz torretas de qualidade, que podem ser integradas
ao Patria 8x8. Além disso, existe o eixo Brasil-África
do Sul-Índia (IBSA, ou India-Brazil-South Africa),
que é politicamente correto. Então, isso
pode estar dentro de um acordo multilateral. A idéia é interessante,
aparentemente tem uma engenharia conveniente, aparentemente
faz sentido, mas ainda há muito trabalho pela frente,
e quando você tem que considerar o elemento humano
não pode nunca ter 100% de certeza. A maior vantagem
que temos hoje é ter um veículo no topo da
tecnologia. A Patria tem grande experiência em blindados,
e o seu 6x6, o XA, está presente em missões
de paz em vários lugares, como Eritréia e
Kosovo, e já foi provado em combate. •
OUTRAS
ENTREVISTAS:
- Serguei
I. Svechnikov , Chefe do Departamento de Análise
e Planejamento Avançado da Rosoboronexport
- Martin
J. Reeg, da EADS Ewation