Martin
Reeg, da EADS Ewation,
em, visita ao Brasil
Em
setembro de 2003, Martin J. Reeg (foto
ao lado), Gerente para a América Latina da empresa
EADS Ewation, parte do consórcio MRCM, esteve no
Brasil fazendo contactos. Na ocasião, ele concedeu
essa entrevista exclusiva a “Segurança &
Defesa”.
S&D — Para que os leitores
possam ter uma melhor idéia de sua função,
o Sr. poderia falar um pouco sobre o Consórcio MRCM,
e dizer qual foi a filosofia que levou à sua formação?
MR — MRCM é uma nova marca
registrada, composta pelas iniciais de Monitoring, Reconnaissance
and Counter Measure (Monitoramento, Reconhecimento e Contra-Medida),
como pode ser visto no site www.mrcm.net. Somos uma parceria
estratégica, cujo objetivo é bem claro: fornecer
à comunidade envolvida em Guerra Eletrônica
(GE) uma completa linha de produtos, sistemas, soluções
e serviços, a partir de uma só fonte. Estamos
oferecendo em todos os níveis, desde produtos individuais
até sistemas altamente avançados e complexos.
Assim, o cliente tem somente um ponto de contacto, com uma
responsabilidade bem definida. No caso da América
Latina esse ponto sou eu, que possuo quase 20 anos de experiência
trabalhando nessa parte do mundo. Internamente, a aliança
MRCM é baseada na longa experiência em GE da
EADS Ewation (da Alemanha, com raízes na Telefunken),
Grintek Ewation (da África do Sul, com raízes
na Siemens), Indra (Espanha), Herley (EUA) e Sysdel (África
do Sul). Os parceiros têm experiências, produtos
e sistemas complementares. Isso é o que oferecemos
ao mercado, de forma que os clientes possam comprar de nós
tudo para GE. Além disso, redundâncias e duplicidades
nas respectivas linhas de produtos foram eliminadas. Assim,
concentramos nossos recursos em centros de excelência.
Cada empresa tem seu campo de “expertise”, sem
duplicidade. O MRCM confia na “expertise” individual,
mas o caminho a seguir e os futuros requisitos dos clientes
são determinados em conjunto. Assim, os desenvolvimentos
individuais são definidos para o benefício
de todos. Isso significa que os clientes obtêm maior
valor pelo que paguem, um fato importante em tempos em que
parece que os orçamentos militares decrescem a cada
ano, em todo o mundo. Algumas pessoas perguntam se de alguma
forma o MRCM se transformaria numa empresa unificada de
GE, através da fusão dos negócios de
GE de seus membros/parceiros. Acreditamos que o MRCM já
é suficientemente unificado, e suficientemente individual
para servir da melhor forma às necessidades dos clientes,
só não há pressa para um outro passo.
O que está examinando e discutindo é a formação
de uma entidade legal em nome do MRCM, que concentraria
vendas e “marketing”, além de desenvolvimento
de negócios. Isso permitiria ao MRCM assinar contratos,
se necessário. Essa empresa seria de propriedade
dos parceiros que formam o MRCM. Sem dúvida o MRCM
representa um envolvimento a longo prazo!
S&D — Como o Sr. vê
o futuro da indústria de GE na Europa? O Sr. crê
numa consolidação maior ou acha que os atores
já definiram e encontraram seus parceiros ideais
e que a situação está estabilizada,
não havendo chances de futuras fusões e absorções?
MR — Em primeiro lugar sou um engenheiro
com experiência em vendas e “marketing”,
e não um profeta! Mas o fato é que em anos
recentes têm havido muitas fusões, resultando
em que apenas algumas poucas empresas operam de forma independente
no setor de GE. Como parceria estratégica que é,
o MRCM não é um grupo fechado, estático;
e ainda está aberto a futuros parceiros. Pode ser
que algumas empresas, que hoje ainda operam sozinhas, já
estejam pensando em uma potencial colaboração
conosco.
 |
Ao
lado Esse é o sistema CESM altamente
móvel que foi fornecido às forças
de reação da Alemanha. |
S&D
— O Sr. acha que a indústria européia
de GE terá sucesso em assegurar para si uma substancial
parcela do mercado ou pensa que a indústria americana
de GE eventualmente engolirá uma fatia ainda maior
do bolo?
MR (sorrindo) — Não posso
— ainda não, pelo menos — falar pela
“indústria européia de GE”; posso
falar somente pelo MRCM. E o MRCM é uma colaboração
estratégica multinacional, que inclui parceiros americanos
(a Herley). Mas, falando sério: sempre respeitamos
a competição, mas não a tememos. Se
o produto é competitivo, o preço atraente
e o relacionamento com o cliente, hoje e no futuro (Serviço
Pós-Venda) é positivo, então achamos
que temos possibilidades crescentes em mercados futuros,
com todos nossos parceiros, e talvez em áreas nas
quais até agora outros competidores tenham sido mais
bem sucedidos.
S&D — O Sr. poderia relacionar
alguns dos principais produtos do MRCM e os principais clientes?
MR — É política da
empresa, e desejo bastante compreensível de nossos
clientes, que de maneira geral não sejam revelados
dados sobre compras. Mas posso dar alguns exemplos. Devo,
entretanto, lembrar que todos os sistemas e soluções
levam o logo da MRCM. No caso de “soluções
MRCM” (isto é, respostas sob medida para as
perguntas dos clientes), tratam-se de desenvolvimentos individuais.
- um sistema CESM altamente móvel para as forças
alemãs de reação a crises. A Grintek
Ewation forneceu o goniômetro, enquanto a EADS Ewation
foi responsável pela classificação,
software do sistema e integração do sistema;
- Programa da corveta sul-africana: A EADS Ewation foi responsável
pela entrega da combinação de antenas para
esses navios, a Grintek Ewation pela área de COMMS
e a Sysdel pela parte de MAGE de radar;
- SIGINT embarcado para um cliente no Extremo Oriente: a
parte de ELINT for entregue pela Sysdel, enquanto a Grintek
Ewation e a EADS Ewation foram responsáveis pela
parte de COMINT. A Grintek Ewation forneceu receptores e
goniômetros, e a EADS Ewation a antena, classificação
e integração do sistema. O software de SIGINT
foi desenvolvido por nosso centro em Bonn, Alemanha.
Em termos de sistemas (“sistemas MRCM”), o MRCM
oferece sistemas “off-the-shelf” que podem ser
facilmente integrados aos sistemas globais do cliente, e
que se originam em pelo menos dois parceiros no MRCM. Por
exemplo:
- MAIGRET 5000, o sistema embarcado que combina RESM e CESM.
A parte de RESM/ELINT é fornecida pela Indra, e na
parte de CESM/COMINT a Grintek Ewation é responsável
pelo receptor e goniômetro, enquanto a EADS Ewation
fica com a antena, classificação e integração
do sistema;
- Família de “jammers” de comunicação
CICADA _C: a Herley fornece os amplificadores de potência
e a EADS Ewation fica com o excitador, antena e integração
de sistema.
Como os mercados são divididos e específicos
de empresas que representam a marca MRCM, não há
conflitos em termos de representação. Sendo
uma parceria permanente, temos a chance de definir “Sistemas
MRCM off-the-shelf” para longos prazos e vendas múltiplas,
como por exemplo o já mencionado fornecimento do
sistema embarcado de RESM e CESM Maigret 5000, que é
originário de vários parceiros no MRCM e que
foi vendido — em diferentes versões —
para mais de 20 marinhas em todo o mundo.
Ao
lado Sistema embarcado combinado RESM e CESM
MAIGRET 5000. |
|
S&D
— Como o Sr. vê a importância da SIGINT
e da GE no contexto da guerra moderna?
MR — Para começar, deixe-me
explicar como vemos a diferença entre SIGINT e GE.
SIGINT é a combinação de “Communication
Intelligence” (COMINT) e “Electronic Intelligance”
(ELINT), que basicamente significa Radar Intelligence. Algumas
agências também consideram IMINT (Image Intelligence)
e mesmo HUMINT (Human Intelligence, como colaboradores e
espiões) como atividades de SIGINT, mas nós
não pensamos assim. Para começar, a SIGINT
é importante, pois destina-se a preencher a base
de dados (“library”, ou biblioteca) do país
usuário com dados necessários e interessantes
a respeito do adversário potencial; usando equipamento
eletrônico adquirido de nós e levando em conta
a vantagem da experiência dos seus próprios
operadores... e a sorte de encontrar os sinais certos no
momento certo. Tudo isso tem que ser feito durante o período
de paz, com objetivo de ter em mãos, e prontos para
uso, os dados necessários no caso de períodos
de tensão ou de início de um conflito. A “GE”,
como passo seguinte, é portanto a atividade usada
primariamente na guerra. É a combinação
de medidas passivas (Electronic Support Measures, ESM, ou
Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica, MAGE)
e ativas (Electronic Counter-Measures, ECM, ou Contra-Medidas
Eletrônicas, CME), tanto em termos de Comunicações
(CESM, CEMC) como de freqüências de radar (RESM,
RECM). Isso significa, por exemplo, que você “alimenta”
a suíte MAGE de seu caça com dados sobre os
radares dos mísseis antiaéreos hostis, de
forma que suas atividades de CME possam proteger a aeronave.
Voltando à sua pergunta, se alguém considerar
— politicamente falando — a deterrência
convencional como parte de seu conceito para impedir guerras
potenciais, terá que incluir ambas as opções:
a capacidade de estar em posição de combater
(“can fight”) e, conseqüentemente, se necessário,
o desejo de combater (“will fight”). Para a
primeira tem-se o SIGINT, e para a segunda a GE. Nesse contexto,
ambos são meios importantes e poderosos de assegurar
a paz. Mas mesmo que se considere ameaças mais recentes,
como terrorismo ou tráfico de drogas, o SIGINT é
um meio indispensável para se contrapor a elas.
 |
Ao
lado CICADA_C: família
de “jammers” de comunicação. |
S&D
— Sua empresa já forneceu equipamentos e/ou
sistemas às Forças Armadas brasileiras? E
qual o principal propósito de sua atual viagem ao
Brasil?
MR — Infelizmente, em razão
do caráter sensível de nosso negócio
e para proteção das compreensíveis
necessidades dos clientes, é política de nossa
empresa não responder a esse tipo de pergunta.
S&D — Além do Brasil,
o MRCM está envolvido com algum outro país
sul-americano?
MR — O MRCM está ativo em
todo o mundo. Isso inclui também atividades em muitos
outros países sul-americanos.
S&D — o MRCM está
considerando a possibilidade de cooperação
com a indústria brasileira? Nesse caso, isso incluiria
apenas serviços “físicos”, como
montagem final de equipamento, ou o consórcio estaria
considerando a transferência de tecnologia?
MR — O MRCM age de acordo com o cliente.
Sabemos que a cooperação local é necessária
para trabalhar num país de forma bem sucedida. No
passado até tivemos uma empresa no Brasil, que fez
integração e desenvolveu produtos próprios.
Fatores econômicos determinaram seu fechamento. O
primeiro passo de novos e positivos desenvolvimentos seria
a instalação de um representante local para
tratar dos negócios da Ewation/MRCM e ser o ponto
de contacto para nosso cliente governamental. Além
disso temos, há mais de 20 anos, nosso escritório
da EADS em São Paulo. Uma maior cooperação
com a indústria brasileira é necessária,
mas ainda é cedo para determinar o volume dessa futura
cooperação mútua.
S&D — Há algo mais
que o Sr. queira mencionar e que não foi coberto
nas perguntas anteriores?
MR — Não, as perguntas foram
muito completas. Agradeço por ter tido a oportunidade
de dar aos seus leitores uma atualização dos
mais recentes desenvolvimentos no MRCM e na EADS Ewation.
(*)
Martin J. Reeg, 55, é alemão e vive na cidade
de Ulm, no Sul da Alamanha. Foi admitido na empresa (então
Telefunken) em 1975, e de início trabalhou no departamento
de Radar. Em 1981, passou para o departamento de Vendas
e Marketing, e iniciou sua carreira no mercado latino-americano.
É casado e tem três filhos. Seus hobbies são
radio-amadorismo, construção de móveis
de madeira e jogging.
OUTRAS
ENTREVISTAS:
-
Eduardo Marson, gerente-geral do Grupo EADS no Brasil
- Serguei
I. Svechnikov, Chefe
do Departamento de Análise e Planejamento Avançado
da Rosoboronexport.