|
As
desincorporações
na Marinha do Brasil
Acima A retirada de serviço
do NAeL Minas Gerais (A11) não
representou perda de capacidade operativa para a MB, pois o navio foi substituído
pelo NAe São Paulo (A12), maior e mais capaz (Foto:
Segurança & Defesa).
A
transferência para a reserva,
no dia 5 de março de 2004, do contratorpedeiro Pernambuco (D30)
e — principalmente — da fragata Dodsworth (F47)
causou desconforto em vários setores ligados
ao Poder Naval. O presente trabalho entra em alguns detalhes,
para que se possa aquilatar devidamente a relevância
e as implicações desse fato, permitindo uma
visão da real perspectiva.
• Mário
Roberto Vaz Carneiro
Conforme
mostra a tabela que acompanha esse texto, nos últimos
cinco anos (desde 2000, portanto), a Marinha do Brasil
deu baixa em 18 navios (um em 2000, oito em 2001, três
em 2002, quatro em 2003 e dois em 2004 — até o
momento), e colocou mais três em reserva (um em 2002
e dois em 2004, até o presente). Por tipo, os navios
que deram baixa foram: um Navio de Desembarque de Carros
de Combate (NDCC), três Navios Hidrográficos
(NHi), quatro Navios Balizadores (NBal), um Submarino (S),
um Navio de Transporte de Tropas (NTrT), um Navio-Aeródromo
Ligeiro (NAeL), três Corvetas (Cv), um Navio Faroleiro
(NF), um Navio Oceanográfico (NOc) e dois Contratorpedeiros
(CT). Foram transferidos para a reserva uma Corveta, uma
Fragata (F) e um Contratorpedeiro.
A maioria das desincorporações deveu-se à avançada
idade dos navios, o que tornava sua operação
um penoso exercício e resultava em uma relação
custo/benefício nada favorável. Mas há exceções,
e o exame de cada caso pode resultar em um melhor entendimento
das razões que levaram a alta administração
naval a retirar de serviço esses meios.
.jpg) |
Ao
lado Os
NTrT Custódio
de Mello (G20) e Soares Dutra (G22) — na foto — foram
construídos
pela Ishikawajima, no Japão,
e incorporados à MB respectivamente em 1954
e 1957. O deslocamento carregado era de 7.300t, o comprimento
de 119,5m e a boca de 16m. (Foto: MB) |
Inicialmente,
vamos falar dos navios da Esquadra. O NDCC Duque
de Caxias (G26) fora originalmente
incorporado à U.
S. Navy em 1957, portanto na época em que deu
baixa na Marinha do Brasil já tinha 43 anos de
idade. Além disso, a MB já contava com
um outro NDCC, muito mais novo e capaz, o Mattoso
Maia (G28).
Mais antigo ainda era o Navio-Transporte de Tropas Custódio
de Mello (G20), incorporado à nossa Marinha
em 1954; o Soares Dutra (G22) foi incorporado
três anos depois.
O Submarino Tonelero (S21) afundara quando atracado
na Ilha das Cobras, no final de 2000, o que acelerou
a sua desativação, que de qualquer forma
não
tardaria muito. Já a desincorporação
do Minas Gerais (A11, incorporado à Royal
Navy em 1945), como é de conhecimento geral, deveu-se à aquisição
e entrada em serviço do NAe São Paulo (A12),
maior e bem mais novo. Sobre os Contratorpedeiros Paraná (D29), Paraíba (D28), Pernambuco (D30)
e a Fragata Dodsworth (F47) falaremos mais adiante.
Vamos então aos Navios Hidrográficos, Balizadores,
Oceanográfico e Faroleiro. Os NHi Argus (H31) e
o Orion (H32) haviam entrado em serviço em 1959,
enquanto o NOc Almirante Câmara (H41) — incorporado à U.
S. Navy em 1965 e transferido para a MB em 1974 — entrara
em serviço originalmente em1965; embora somente
em 1982 tenha sido adquirido pelo Brasil (e convertido
em navio de suporte a operações na Antártica),
o NF Barão de Teffé (H42) já operava
no estrangeiro desde 1957. Quanto aos Navios Balizadores
(H13 Mestre João dos Santos, H24 Castelhanos,
H27 Faroleiro Arêas e H30 Faroleiro Nascimento),
que a Marinha operava desde 1952, 1958, 1954 e 1957,
respectivamente, tratavam-se de embarcações bastante pequenas,
e portanto não têm a importância dos
outros navios em questão.

Acima Os CTs
Paraná (D29), Paraíba (D28)
e Pernambuco (D30), originalmente classificados como
Fragatas na U. S. Navy, foram transferidos para o Brasil
em 1989. Deslocavam 3.560t quando carregados, tinham
comprimento de 126,3m e boca de 13,5m(Foto: Segurança & Defesa).
Quanto aos meios distritais, pode-se dizer que a baixa
das corvetas Bahiana (V21), Solimões (V24)e Angostura (V20),
e a colocação em reserva da Purus (V23),
já era de se esperar. Esses navios eram excelentes,
e embora classificados como Corvetas eram na realidade
Rebocadores de Alto Mar, podendo também ser usados
para patrulha oceânica ou fluvial. Os efeitos de
seu intenso emprego ao longo de muitos anos (haviam sido
incorporados à Marinha do Brasil em 1955) já se
faziam sentir, e é de se esperar as duas unidades
remanescentes desta classe — Imperial Marinheiro (V15)
e Cabocla (V19) — venham a ser retiradas de
serviço num futuro não muito distante.
Até aqui, portanto, nada há de anormal, pois
a idade média dos navios em questão (mesmo
desconsiderando-se os pequeninos Balizadores) é de
aproximadamente 44 anos. Além disso, as retiradas
do Duque de Caxias e do Tonelero praticamente
não
resultaram em grande perda de capacidade operativa, e no
caso do Minas Gerais houve até um aumento dessa
capacidade, pois o navio foi substituído pelo São
Paulo. O que chama a atenção é a desincorporação
de quatro navios de escolta num período extremamente
curto, sem substitutos à vista. A baixa definitiva
dos Contratorpedeiros Paraná e Paraíba e
a colocação em reserva do CT Pernambuco e
da Fragata Dodsworth significa que o total de
navios de escolta da MB caiu de 18 para 14, uma redução
de 22% — e isso num espaço de apenas três
meses!
Os três contratorpedeiros eram da classe “Garcia”,
e foram transferidos para o Brasil em 1989, provenientes
dos Estados Unidos. Ao serem desincorporados, os três
CTs tinham idades de, respectivamente, 35, 38 e 39 anos
(média de 37 anos) — sete anos abaixo da média
mencionada anteriormente, mas com apenas mais alguns anos
de vida útil pela frente. Embora tivessem um bom
sonar (SQS-26), o trato com suas máquinas não
era tão simples, pois a operação de
caldeiras de alta pressão incorpora alguns aspectos
complicados. A manutenção do Pernambuco em
reserva e do Pará em serviço ativo só será possível
através da obtenção de equipamentos
e peças de reposição oriundas dos
dois navios que deram baixa. Realisticamente falando, tudo
indica que será muito difícil ao Pernambuco voltar à ativa e ao Pará evitar
a desincorporação.

Acima A colocação da Dodsworth (F47) na reserva
preocupou os meios navais (Foto: Segurança & Defesa).
Mas foi a colocação da Dodsworth na
reserva que fez acender a luz amarela em muitos ambientes
ligados à defesa
nacional e causou justificado descontentamento na Marinha.
Juntamente com suas três irmãs (F46 Greenhalgh,
F48 Bosísio e F49 Rademaker),
essa fragata foi adquirida ao Reino Unido em meados da
década de 90. Originalmente
incorporada à Royal Navy em 1980 como HMS Battleaxe
e incorporada à MB em 1997, a Dodsworth tinha
apenas 24 anos de idade, dos quais sete no Brasil. Sua
baixa, portanto, não ocorreu por idade, nem por algum problema
técnico específico de manutenção
ou operação de algum de seus sistemas, ou
por dificuldade de obtenção de sobressalentes.
O que teria então levado a Marinha do Brasil optar
por retirá-la do serviço ativo? A resposta é tão
simples quanto triste: falta de recursos financeiros.
.jpg)
Acima A
Bahiana (V21), a Solimões (V24)
— vista na foto —, a Angostura (V20) e a Purus (V23)
faziam parte do lote de dez Rebocadores (classificados
na MB como Corvetas) da classe “Imperial
Marinheiro”, construídas na Holanda e incorporadas
em 1954-1955. Com 56m de comprimento e 9,3m de boca, tinham
deslocamento standard de 911t (Foto: MB)
Seria possível argumentar, por exemplo, que alguns
dos navios que deram baixa poderiam ser submetidos a modernizações
e continuar em serviço, como aconteceu há alguns
anos com o Monitor Parnaíba (U17),
o navio mais antigo ainda em atividade na Marinha do
Brasil. Entretanto, não há dinheiro para isso. Segundo a própria
Marinha, “a degradação dos sistemas
e equipamentos de um navio, pela falta de recursos orçamentários
destinados à sua manutenção, é o
principal motivo de sua baixa ou transferência para
a reserva”. Em outras palavras: a Marinha identifica
que determinado navio está apresentando uma relação
custo/benefício desfavorável e, verificando
que não há recursos para sua modernização
ou substituição, o desincorpora ou o transfere
para a reserva. No segundo caso, a Marinha determina a
configuração mínima necessária
para mantê-lo na reserva, e toma as providências
necessárias para que: a) o navio seja colocado em
vida vegetativa ao menor custo possível; b) sejam
mantidas pelo menos condições mínimas
de segurança para o material e o pessoal; c) sejam
proporcionadas ao navio condições de reativação,
no menor prazo, à máxima prontidão
operativa possível. Após a priorização
dos parâmetros e identificação dos
custos dos vários graus de desativação
possíveis, forma-se um grupo de manutenção
e vigilância e são elaborados os Planos de
Preservação e de Reativação.
.jpg)
Ao
lado A desincorporação do Submarino
Tonelero (S21) era só uma questão de
tempo, mas o processo foi acelerado pelo acidente que
resultou no seu afundamento no final de 2000 (Foto:
MB).
Feito isso, passa-se à implementação
das medidas necessárias, como redução
da tripulação, retirada de armamento, munição,
combustível, equipamentos, gêneros, documentos,
etc. A partir daí, com o navio já não
mais na ativa, procede-se a contínua manutenção
da estrutura, equipamentos e sistemas de bordo pelo grupo
de manutenção e vigilância, seguindo
o Plano anteriormente mencionado. Ao longo desse estágio
define-se a baixa definitiva ou a reincorporação
do meio.
Caso se decida pela segunda opção, é formado
um grupo de reativação, a partir do grupo
de manutenção e vigilância. Executa-se
o Plano de Reativação e o navio passa por
um período de manutenção especial.
Quando o navio estiver pronto a operar e combater, haverá uma
Mostra de Armamento.
Nesse “período de manutenção
especial” todos os equipamentos e sistemas embarcados
devem ser reativados e colocados em perfeitas condições
de funcionamento e emprego. Ora, não é preciso
ser um grande especialista para imaginar que o custo envolvido
nesse trabalho, e no treinamento de sua nova tripulação,
não é desprezível — muito pelo
contrário. Por isso, embora a rigor a transferência
para a reserva seja uma “baixa temporária”,
todos sabemos que — a perdurar a penúria orçamentária
em que vivem as nossas Forças Armadas — a
possibilidade de um navio como a Dodsworth voltar à ativa é,
lamentamos admitir, bem pequena.
A gravidade do fato é ainda maior quando se verifica
que isso ocorreu exatamente quando o Brasil se preparava
para enviar ao Haiti, em julho, um contingente de 948 militares
do Exército, um da Aeronáutica e 251 Fuzileiros
Navais, como parte de uma força de paz das Nações
Unidas. O grupo-tarefa incluiria a Fragata Rademaker (F49),
o Navio de Desembarque-Doca Ceará (G30),
Navio-Tanque Gastão Motta (G23) e o
Navio de Desembarque de Carros de Combate Mattoso Maia (G28).
O paradoxo é evidente. Por um lado o Brasil se prepara
para apoiar sua pretensão de conseguir uma cadeira
permanente no Conselho de Segurança das Nações
Unidas através da participação numa
operação de manutenção de paz
patrocinada pela ONU — missão para o cumprimento
da qual é indispensável o Poder Naval. Por
outro lado, simultaneamente enfraquece esse mesmo Poder
Naval.
À nossa volta, o que vemos? É verdade que o
continente está em paz, sendo raras as disputas entre
países, e as poucas existentes não envolvem
diretamente o Brasil. Mesmo assim, o Chile está em
processo de incorporação de dois moderníssimos
submarinos e adquiriu cinco fragatas (duas “L” e
duas “M” à Holanda, e uma “Type
22” ao Reino Unido); o Peru acabou de comprar à Itália
duas fragatas de segunda mão da classe “Lupo”;
a Argentina incorporou uma corveta da classe “Meko
140” e ultima a aquisição de um Navio
de Desembarque-Doca. Enquanto isso, a Marinha do Brasil tem
que desativar uma importante unidade naval, que incorporou
há relativamente pouco tempo. Ao que se saiba, Chile,
Peru e a Argentina não estão nadando em recursos
financeiros — principalmente essa última, cuja
economia gradativamente se recupera da profunda e recente
crise. Mesmo assim, tratam de reforçar seus respectivos
Poderes Navais, sinal de que os governos envolvidos têm
a percepção de que esse reforço vem
ao encontro dos interesses nacionais. E o governo brasileiro,
o que tem a dizer?

Clique na Tabela para vê-la ampliada.
Uma
opinião
O
que está errado com a política dos sucessivos governos brasileiros
em relação à Defesa Nacional? A pergunta aí está e
merece reflexão. Racionalmente, é lógico que não
se está pleiteando o desvio de recursos de outros setores importantes — saúde,
educação, seguridade social, etc. — para aplicação
desenfreada em programas militares, nem o que se quer são Forças
Armadas capazes de se nivelar às das maiores potências. Isso não
seria razoável, justo ou mesmo necessário. Mas, se o Brasil deseja
manter os objetivos anunciados para sua política externa, deverá haver
por parte do governo algum tipo de “enxugamento” em algumas áreas,
permitindo a reorientação de pelo menos alguns recursos adicionais
para as Forças Armadas, de forma que elas possam manter um mínimo
de credibilidade. Sim, pois embora o foco do artigo acima seja a Marinha, esse “início
de desmonte” se observa também nas Forças Terrestre e Aérea.
Estranhamente, ao mesmo tempo em que uma das Forças é forçada
a desativar um de seus meios por falta de recursos financeiros para mantê-lo
na ativa, o governo fala num aumento no total de recrutas (mais 50.000 em cada
leva). A idéia pode parecer atraente, e o objetivo — afastar os
jovens da criminalidade — indubitavelmente é nobre. Mas a medida
em nada acrescenta ao poder combativo das Forças Armadas. Pelo contrário,
pode até diminuí-lo. O perigo de se dar demasiada ênfase
a atividades subsidiárias não pode ser ignorado. A exagerada preocupação
em que esses jovens recebam instrução profissionalizante durante
seu período de serviço militar pode trazer o risco de que as Forças
Armadas sejam vistas como um “SENAI fardado”, com sérios danos
ao moral, principalmente em nível dos oficiais mais jovens, até a
faixa de Major/Capitão-de-Fragata/Major-Aviador.
A longo prazo, a excessiva concentração em tarefas subsidiárias,
em detrimento da atividade-fim, pode acabar levando as Forças Armadas
de um país ao chamado “desemprego institucional”. E mais:
o advento dessa triste condição pode ser consideravelmente acelerado
pela crescente escassez de verbas para a defesa, que — tornando impossível
a manutenção dos meios no devido nível de prontificação
do material e de treinamento do elemento humano — culmina com a destruição
total da credibilidade das Forças Armadas.
Até que ponto o cenário atual está afetando a capacitação
e o aprestamento das Forças Armadas está aberto à discussão.
Ao risco de sermos repetitivos, vamos mais uma vez frisar que a Defesa Nacional é responsabilidade
da sociedade como um todo. Nenhum país do mundo chegou a ser uma potência — mesmo
regional — sem Forças Armadas compatíveis com esse “status”.
A grande questão, portanto, é bem mais abrangente do que a desativação
de um navio, a canibalização de alguns aviões ou a imobilização
de uma quantidade de veículos. O país já estabeleceu seus
objetivos em nível internacional e está disposto a implementar
as providências necessárias para atingí-lo? Ou quer continuar
sendo o eterno “país do futuro”?
O Editor
|
|
 |
|
|