30 de junho de 2010
No Rio o “Chevalier Paul”
Proveniente de Buenos Aires, chegou ao Rio no dia 23 o “Chevalier Paul”, segunda unidade da classe “Horizon” a ser incorporada à Marinha francesa.
• Mário Roberto Vaz Carneiro
(Fotos: “Segurança & Defesa”)

Acima “Chevalier Paul” atracado no Rio de Janeiro. Observe-se e existência de uma só âncora, e também a configuração “furtiva” do navio.
A classe “Horizon” tem suas origens no programa NFR 90 (NATO Frigate 90), da década de 90. Inicialmente classificadas como “Fragatas de defesa aérea”, as “Horizon” são claramente contratorpedeiros, com deslocamento a plena carga de 7.050t (na versão francesa).
Inicialmente foi estabelecido um programa tri-nacional com participação da França, Itália e Reino Unido. Em abril de 1999, entretanto, o RU retirou-se do projeto, e em setembro do mesmo ano a França e a Itália assinaram um acordo no sentido de dar continuidade aos planos, o que foi ratificado um ano depois, quando ficou acordada a construção de quatro navios, sendo dois para cada país. O gerenciamento do programa ficou a cargo da uma empresa franco-italiana Orizzonti Sistemi Navali S.p.A., criada pela DCN/Thomson-CSF (denominações da época) e pela Fincantieri/Finmeccanica.

Acima Vista da proa, mostrando as 48 células de lançamento vertical do sistema Sylver A50. A dotação normal seria de 16 mísseis Áster 15 e 36 Aster 30.
As unidades francesas são o “Forbin” (D620) e o “Chevalier Paul” (D621) — destinadas a substituir o “Suffren” e o “Duquesne” —, enquanto as italianas são o “Andrea Doria” e o “Caio Duilio”. Pode-se dizer que a diferença entre os navios dos dois países está por conta principalmente dos sensores e parte dos armamentos, que logicamente cada nação preferiu encomendar em sua própria indústria.
O “Chevalier Paul” teve sua quilha batida em janeiro de 2005, foi lançado ao mar em julho de 2008 e incorporado recentemente. Este é sua primeira viagem de longo alcance, e ela pode ser considerada como a prova final para todos os sistemas de bordo. O navio tem 153,0m de comprimento, 20,3m de boca e 5,80m de calado. Sua propulsão é do tipo CODAG (Combined Diesel And Gas), com duas turbinas Fiat/GE LM500 e dois motores SEMT Pielstick 112PA6BSTC, que impulsionam dois hélices de passo controlável e conferem ao navio uma velocidade máxima de 29-30 nós.

Acima Reparo Oto Melara 76/62 de bombordo, visto do passadiço. Observe-se que a cobertura é a de novo modelo, que minimiza a assinatura radar.
Embora a ênfase seja na defesa antiaérea, especialmente na escolta do navio-aeródromo “Charles de Gaulle” ou de outros navios importantes, como o “Mistral” ou o “Tonnerre”, o armamento do navio é polivalente e o capacita a enfrentar também ameaças submarinas e de superfície.
O principal armamento antiaéreo são os mísseis Aster 15 (30km de alcance) e Aster 30 (100km de alcance). Normalmente são transportados 16 do primeiro e 32 do segundo, todos lançados a partir de células de lançamento vertical do sistema Sylver A50, que dispõe de um total de 48 células na parte dianteira do navio. Para defesa antiaérea a alcances mais curtos o “Chevalier Paul” conta com dois canhões Oto Melara 76mm/62 Super Rapid (um em cada bordo, imediatamente à vante do passadiço), que podem também ser usados no combate a alvos de superfície. Existe também previsão para instalação de dois lançadores sêxtuplos Sadral, para mísseis antiaéreos Mistral. Em cada bordo há um canhão GIAT 20F2 de 20mm, e podem ser instaladas, se desejado, algumas metralhadora de 12,7mm.

Acima Vista do amplo convés de vôo. No canto inferior esquerdo, está visto o sistema para fixação da aeronave ao convoo e o sistema para posteriormente puxá-la para dentro do hangar.
Para guerra anti-superfície, o “Chevalier Paul” possui oito Exocet MM40 Block 3 (alcance de 180km)a meia nau, em lançadores que ficam “escondidos” atrás de anteparos laterais, e são colocados na posição de tiro somente pouco tempo antes do disparo. O combate a submarinos é feito através de torpedos MU90 Impact de 324mm (alcance de 20km), lançados a partir de tubos fixos Eurotorp TLS (um em cada bordo). A dotação total do navio é de 24 MU90.
À ré, o navio tem um imenso convés de voo (20,0 x 26,5m), com sistema para fixação do helicóptero no momento do pouso. A aeronave é um NH90 (que não estava a bordo na visita ao Rio), que pode ser recolhido ao espaçoso hangar.
Ao lado Mastro de vante. No topo, a cobertura da antena do radar EMPAR, e logo abaixo, à vante, o pequeno radar RTN-30X de direção de tiro.
O principal sensor é o radar de vigilância e direção de tiro Alenia Marconi EMPAR (SPY-790), que opera na banda G e cuja antena está posicionada no topo do mastro de vante. O radar de busca combinada (aérea/superfície) é o Thales/Marconi DRBV27 Astral (S1850M), que opera na banda D e cuja imensa antena rotativa é posicionada a meia nau. Sobre o passadiço, há um radar de busca de superfície SPN753, que utiliza a banda I; um segundo radar do mesmo tipo está montado sobre um console, a boreste do mastro de vante. Há também um radar Alenia Marconi NA-25 (RTN-30X) para direção de tiro. O “Chevalier Paul” tinha também, sobre o passadiço, um pequeno radar de navegação Furuno. A direção de tiro pode também ser feita através de uma alça optrônica SAGEM Vampir, posicionada no mastro intermediário. O sonar de casco é um TUS-WASS 4110CL, ativo, de busca e ataque, de média frequência.
A suíte de guerra eletrônica é a SIGEN, que inclui dois lançadores de “decoys” multifunção EADS NGDS (New Generation Dagaie System, um em cada bordo), um embaralhador, sistema de alerta radar e equipamentos MAGE/CME. Para se contrapor à ameaça representada por torpedos, o navio dispõe na popa (sob o convoo) de um sistema SLAT, que reboca atrás de si um cabo que simula a assinatura do navio.

Acima Antena do radar de busca combinada S1850M, a meia nau.
A tripulação do “Chevalier Paul” é composta de 195 militares, mas o navio pode ainda embarcar um substancial grupo de comando para operações nas quais isso seja necessário.
Os contratorpedeiros da classe “Horizon” são navios extremamente modernos, que bem demonstram o estado da arte francês e italiano em projeto e construção de navios capazes e seus equipamentos e sistemas. Entretanto, provavelmente seu alto custo não vá permitir a construção de unidades adicionais. Tanto é assim que e França e a Itália se engajaram no projeto FREMM (Frégate Européene Multi-Mission), uma classe bem menor e mais barata, embora moderníssima. O futuro da FREMM parece já estar assegurado, pois a França pretende incorporar onze unidades, a Itália seis, e o Marrocos já encomendou uma.

Acima Lançador NGDS de boreste.
A FREMM será oferecida ao Brasil para o programa nacional de novos navios de escolta, em duas configurações diferentes: a italiana e a francesa. Questionado pelo autor durante a visita à “Chevelier Paul”, Eric Berthelot, Diretor-Presidente da DCNS no Brasil, declarou que na sua visão a FREMM francesa tem vários pontos de superioridade sobre a italiana, mas que só os revelaria oportunamente, por ocasião da concorrência oficial da Marinha do Brasil. Segundo ele, detalhar esses pontos agora seria contraproducente para os interesses da sua empresa. •
Abaixo Carretel do sistema anti-torpédico SLAT, localizado sob o convoo. O cabo é desenrolado atrás do navio, através de uma porta na popa.
