CIGS: o lado oculto
Acima O
CIGS foi o responsável pela retomada dos estudos
visando a utilização de duplas de caçadores
(Snipers) nas unidades de guerra na selva do Exército
Brasileiro. O atirador da foto utiliza a roupa de camuflagem
aprovada pelo CIGS e o fuzil Imbel Fz .308 AGLC, no calibre
7,62x 51mm, especialmente desenvolvido para uso por atiradores
de elite (Foto: Raimundo Valentim).
A
excelência do trabalho do Centro de Instrução
de Guerra na Selva (CIGS) do Exército Brasileiro
justifica sua reputação como uma das melhores — senão
a melhor — instituição do gênero
no mundo. Este artigo cobre uma faceta pouco divulgada
do CIGS, mostrando seu papel como desenvolvedor da doutrina
de operações na selva da Força Terrestre.
• Alexandre
Fontoura
Na
edição 59 de Segurança & Defesa,
págs.28 a 33, abordamos o histórico do Centro
de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), instituição ímpar
do Exército Brasileiro, como unidade de formação
de oficiais e sargentos especialistas em operações
na selva. Como descrito na referida matéria, o CIGS
oferece cursos e estágios de operações
na selva para as Forças Armadas brasileiras, de
países estrangeiros amigos, e para outras instituições
militares e civis brasileiras, incluindo as polícias
civis e militares dos diversos estados brasileiros (ver quadro).
A fama da instituição e sua excelência
neste papel já ultrapassaram há muito as
fronteiras brasileiras, e por isso, neste artigo, não
nos prolongaremos descrevendo seu papel nesta área.
Em vez disso, pretendemos explorar uma face menos conhecida
do Centro, que é a de fomentar e estabelecer a doutrina
de operações na selva do Exército
Brasileiro.
A selva é tudo
O Exército Brasileiro leva a selva e o combate na
selva muito a sério. Afinal de contas, o país é possuidor
da maior parte da mais extensa floresta tropical do mundo,
a Floresta Amazônica, que por sua vez abriga a maior
biodiversidade do planeta. Não bastasse isso, além
das riquezas que podem advir da correta exploração
dessa biodiversidade, sob o solo amazônico encontram-se
incalculáveis reservas minerais. E o Exército
demonstra a importância que dá a essa região
sediando em Manaus, capital do Estado do Amazonas — que,
a propósito, mantém 95% de sua cobertura
vegetal intocada — a sede do CIGS.
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Ao
lado Um grupo de guerreiros de selva desloca-se
pela floresta. O primeiro elemento, o esclarecedor,
consulta um receptor GPS que só é usado
para fins de instrução, uma vez que
seu uso é desestimulado no dia-a-dia. Notar
a escopeta calibre 12 levada pelo soldado (Foto:
Raimundo Valentim). |
Como
estabelecimento encarregado de preparar homens e tropas
para a defesa da Amazônia brasileira, o CIGS tem
as seguintes missões:
- especializar oficiais, subtenentes e sargentos em operações
na selva;
- orientar e adestrar forças da área da Amazônia
e de outras regiões para as operações
na selva;
- testar o material de emprego militar voltado para as
operações na selva e propor novos equipamentos;
e
- estabelecer e validar a doutrina de emprego de forças
em operações na selva.
Com a responsabilidade de fomentar e desenvolver a doutrina
de guerra e operações na selva, o CIGS mantém,
em seu organograma, a Divisão de Doutrina e Pesquisa,
composta de duas seções: a Seção
de Doutrina e a Seção de Pesquisa. E são
os oficiais lotados nessas seções os responsáveis
por tudo o que diz respeito ao aperfeiçoamento das
técnicas e táticas de emprego dos combatentes,
armamentos e de equipamentos de guerra na selva.
Ser selecionado para o curso de operações
na selva do CIGS é uma meta para muitos militares
brasileiros e estrangeiros. Conseguir se formar e conquistar
o almejado “Brevê da Onça” é um
objetivo atingido por poucos: para ser mais exato, são
menos de quatro mil, até hoje. E não é para
menos: o ambiente de selva, que já é extremamente
hostil ao homem, tem seus efeitos físicos sobre
o corpo do combatente amplificados pelo clima quente e úmido.
Assim, os testes físicos são rigorosos, e
têm início logo na chegada dos candidatos
ao Curso de Operações na Selva (COS). Nenhum
homem com preparo físico abaixo do exigido é aceito
no curso, uma vez que o resultado seria perigoso tanto
para ele como para seus colegas. Portanto, julgamos oportuno
divulgar o trabalho de dois departamentos do CIGS: seu
laboratório e o seu Zoológico.
O laboratório
do CIGS
Na selva, a sensação de ter o metabolismo
alterado é massacrante. Apesar de estar sempre molhado,
seja pela chuva, pela travessia dos inúmeros cursos
d’água (rios e paranás), lagos, igapós
e igarapés, ou simplesmente pela transpiração,
o combatente está sempre com sede. Os cuidados com
a alimentação devem ser enormes, pois problemas
intestinais que provocam diarréia agravam o quadro.
A perda de oito, dez e até 20 quilos em operações
prolongadas na selva é comum para os guerreiros
de selva.
Exatamente devido ao impacto que o ambiente provoca sobre
o corpo do combatente de selva, um dos principais trabalhos
exercidos no CIGS para aumentar a eficiência do combatente
de selva é aquele desenvolvido em seu Laboratório,
subordinado à Divisão de Saúde. Por
meio de parceria com a Fundação Instituto
Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Hospital Geral de Manaus (HGeM), é desenvolvido
o Projeto de Pesquisa e Monitoramento Clínico-Laboratorial
do Combatente de Selva. Este projeto tem por objetivo acompanhar
o perfil corporal, hematológico, urinário,
parasitológico intestinal e bioquímico dos
alunos do COS, proporcionando dados valiosos sobre as alterações
que a internação prolongada do combatente
na selva produz no organismo humano. Os resultados desta
pesquisa vêm sendo usados para a otimização
do desempenho do guerreiro de selva brasileiro.
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Ao
lado O Zoológico
do CIGS foi ampliado e reformado há poucos anos,
através de convênio entre o Exército,
o Governo do Estado do Amazonas, a Prefeitura de Manaus
e a Suframa (Foto: CIGS). |
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Ao
lado Um oficial médico retira sangue
de um soldado, para a realização
de testes que avaliam as condições
físicas dos guerreiros de selva (Foto: CIGS). |
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Mais
do que um Zoológico
O Zoológico do CIGS foi idealizado e construído
no comando do Ten Cel Jorge Teixeira de Oliveira, tendo
iniciado suas atividades em 1967, com o objetivo de transmitir
aos alunos dos Cursos de Operações na Selva
conhecimentos sobre a fauna amazônica. No mesmo ano
foi aberto ao público externo, tornando-se ponto
turístico da cidade de Manaus e recebendo visitantes
de todo o mundo.
Recentemente o Governo do Estado do Amazonas, a Prefeitura
Municipal de Manaus e a Superintendência da Zona
Franca de Manaus apoiaram o projeto de modernização
das antigas instalações, com a finalidade
de aumentar não só o número de recintos
para melhor abrigar as espécies da floresta amazônica
como também para melhor acolher o público
visitante. Atualmente o Zôo possui exemplares de
quelônios, jacarés, mamíferos e aves,
num total de 430 animais, com mais de 60 espécies
diferentes.
Assim, além de servir para aproximar o Exército
da sociedade civil, o Zoológico do CIGS cumpre importante
papel na formação dos combatentes de selva,
pois a instrução referente à sobrevivência
na selva culmina com os ensinamentos sobre a utilização
da fauna e da flora como fontes de alimento. Essa é uma
das maiores tarefas da Divisão de Veterinária
do CIGS, responsável pelo Zôo. Além
disso, na selva os animais não são vistos
com facilidade, e com freqüência ocorre que,
durante um curso inteiro, os alunos não vêem
nenhum animal. Por isto, os animais apresentados têm
de ser observados e estudados constantemente, proporcionando
subsídios à instrução.
Atenção
aos detalhes
O papel do CIGS e de sua Divisão de Doutrina e Pesquisa
no aperfeiçoamento do combatente de selva brasileiro
vai muito além de pesquisar e ensinar a construção
e uso de abrigos e armadilhas, emprego de armas e equipamentos,
etc. Chega-se ao nível de detalhar, por exemplo,
o tipo de tecido ideal para uso nos uniformes, a técnica
de amarração ideal dos cadarços usados
nos coturnos, a composição da ração
operacional, o projeto de uma rede de selva adequada,
e muitos outros.

Acima A
rede de selva aprovada pelo CIGS, com mosquiteiro, compartimento
sob o leito e toldo impermeável. Os tirantes de
lona nas laterais servem para o trespassamento de hastes
de madeira,
de modo a utilizar a rede como maca (Foto: Raimundo Valentim).
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Ao
lado O coturno de selva, com o sistema
de amarração aprovado pelo CIGS,
e amostra do uniforme atual (Foto: Raimundo Valentim). |
A
definição de um tecido ideal para ser usado
na confecção dos uniformes foi tarefa para
vários anos, até se chegar ao modelo atual,
com percentuais ideais de polyester e algodão, de
forma a permitir a secagem rápida do uniforme, constantemente
exposto à umidade, sem que apresente desconforto
ao militar. O mesmo empenho foi aplicado ao estabelecimento
da técnica de amarração dos cadarços
dos coturnos, de modo a permitir sua rápida desamarração
ou mesmo o corte com faca, para que o combatente possa
liberar rapidamente seu equipamento e nadar com maior desenvoltura,
se isso significar sua sobrevivência na hipótese
de, por exemplo, cair em águas profundas e turbulentas.
A definição da composição da
ração operacional também mereceu por
parte do CIGS intensos estudos, incluindo a análise
de rações utilizadas por exércitos
de outros países. A ração do exército
americano, por exemplo, foi analisada e testada no ambiente
da selva amazônica. Devido ao seu elevado teor de
gordura, foi constatado que o combatente de selva que fizesse
uso dela estaria fora de combate em menos de três
dias, com sérios problemas intestinais e diarréia.
A ração brasileira, além de estar
adaptada ao paladar do soldado brasileiro —com pratos
como arroz e feijão, carne assada e frango , tem
elevado teor protéico e de fibras.

Acima Um
dos instrutores do CIGS, Sargento Ricci, explica o funcionamento
de diversos tipos de armadilhas, utilizando-se de maquetes
(Foto: Raimundo Valentim).
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Ao
lado Saco de ração operacional
e seu conteúdo, incluindo
os acessórios (Foto: Raimundo Valentim). |
Também
faz parte das responsabilidades do CIGS instruir os participantes
dos Cursos de Operações
na Selva sobre o correto uso dos recursos da floresta,
seja para a construção de armadilhas (voltadas
aos oponentes, ou à caça e pesca), cuidados
com animais peçonhentos, e como usar animais e vegetais
para os mais diversos fins, incluindo a alimentação.
Frutas e animais comestíveis abundam na floresta,
assim como os venenosos ou tóxicos. Note-se que,
entre os animais considerados comestíveis, encontram-se
algumas larvas e insetos de aspecto nada apetitoso para
o homem da cidade.
Se a selva já é extremamente perigosa e desconfortável
durante o dia, à noite o perigo e o desconforto
são ainda maiores. Para permitir que o guerreiro
de selva possa manter e recuperar suas energias, com repouso
e conforto adequados, e mantendo-se a salvo de mosquitos,
ofídios, aracnídeos e outros riscos, o CIGS
não mediu esforços para desenvolver uma rede
de selva ideal. O modelo aprovado e em uso atualmente possui
mosquiteiro, toldo para abrigo da chuva (que, sendo impermeável,
também pode ser usado para recolher a água
da mesma), compartimento na parte inferior para armazenar
as armas e os equipamentos individuais do combatente, e
tirantes de lona resistentes nas laterais, que permitem
sua transformação em uma maca improvisada,
simplesmente passando-se duas hastes de madeira nas laterais.
Armas e equipamentos
Uma das maiores responsabilidades da Divisão de
Doutrina e Pesquisa do CIGS é a avaliação
e aperfeiçoamento de armas, visando seu emprego
na Guerra de Selva. O ditado sempre lembrado pelos homens
do CIGS é o que diz que “A selva não
pertence ao mais forte e sim ao mais habilidoso, ao mais
resistente e ao mais sóbrio”. Assim, o CIGS
tem sido nos últimos anos um dos mais importantes
atores no desenvolvimento da chamada “Estratégia
de resistência” do Exército Brasileiro,
para a eventualidade de um confronto militar entre nossas
forças e as de um país ou coligação
de países com poderio militar bem superior.
Ao
lado Armas testadas e utilizadas nas instruções
do CIGS. O Fuzil Pára-FAL à direita está equipado
com um visor noturno de fabricação israelense,
com capacidade de telemetria (Foto: Raimundo Valentim).
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Ao
lado A besta usada pelas tropas de selva
brasileiras é precisa e tem alcance de 700
metros, sendo capaz de atravessar um corpo humano
a cerca de 100 metros (Foto: CIGS). |
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Diversas
armas, táticas e equipamentos vêm
sendo exaustivamente testados, modificados ou aperfeiçoados
pelo EB nos últimos anos, com vistas ao seu emprego
na guerra de selva. Muitos são aprovados e muitos
são recusados. A constatação de que
equipamentos receptores GPS não funcionam corretamente
sob a densa cobertura vegetal da floresta, por exemplo,
fez com que o Exército restringisse seu uso somente à instrução
e a casos nos quais a determinação de coordenadas
precisas é imprescindível, como numa evacuação
aeromédica. Nesta situação, entretanto,
o militar com o receptor seria obrigado a se deslocar até uma
clareira ou até a margem de um rio para usar o equipamento.
No dia a dia das operações de selva do Exército,
o que se usa são as tradicionais cartas e bússolas.
Forças excessivamente dependentes de recursos tecnológicos
como o GPS poderiam ficar em sérios apuros na Amazônia.
No que se refere ao armamento individual do guerreiro de
selva, o EB tem, ao mesmo tempo, o problema e a solução.
Fuzis de assalto de diversos tipos foram e são avaliados,
incluindo armas de alta qualidade, como o fuzil alemão
Heckler & Koch HK33 e o norte-americano M16A2, ambos
no calibre 5,56mm, e o tradicional FAL do Exército
Brasileiro, no calibre 7,62mm. O fuzil padrão das
tropas de selva brasileiras é o Pára-FAL,
a versão com coronha rebatível, usada também
pelas tropas pára-quedistas brasileiras e outras
unidades. O Pára-FAL tem se mostrado a arma ideal
para emprego na selva por suas características de
peso, rusticidade e simplicidade de manuseio. Por outro
lado, sua substituição no futuro será,
certamente, um sério problema para o Exército.
O calibre 5,56mm, usado na maior parte dos modernos fuzis
de assalto, é considerado inadequado para o combate
de selva, devido ao pequeno peso do projétil e à sua
tendência de assumir uma trajetória instável
ao colidir com pequenos obstáculos, como folhas
e galhos de árvores. Isso acaba retirando do projétil
muita energia e, consequentemente, poder de parada (stopping
power).
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| Acima Tanto
o lança-chamas (à esquerda) quanto
o lança-granadas (à direita) tiveram
seu uso por parte dos combatentes de selva do EB
aprovado pelo CIGS (Foto: Raimundo Valentim). |
O
respeito que o Pára-FAL conquistou entre os combatentes
de selva justifica-se, por exemplo, pelo resultado de um
teste realizado numa das bases de instrução
do CIGS, quando um exemplar de cada do HK33, do M16A2 e
do Pára-FAL foram comparados, com o objetivo de
determinar sua resistência às condições
da floresta. Numa manhã, cada uma das armas recebeu
limpeza e a necessária manutenção,
de acordo com as recomendações do fabricante,
foi municiada e colocada sobre cavaletes de madeira, e
exposta ao Sol e à chuva durante todo o dia e a
noite seguinte.
Pela manhã do outro dia, um oficial retirou o HK33
do cavalete e tentou disparar uma rajada contra um alvo:
a
arma travou
várias vezes. Ao repetir a experiência com
o M16A2, verificou-se que este não disparou um só tiro,
pois estava grimpado. Finalmente, o oficial dirigiu-se
ao Pára-FAL, conhecido como “pit-bull” entre
a tropa e, surpreendentemente, não somente conseguiu
descarregar todo o pente no alvo, como ainda remuniciou
a arma e repetiu a dose. Este oficial confidenciou ao autor
que não coloca em dúvida a qualidade das
outras duas armas, mas o teste evidencia o fato de que
ambas necessitam de muito mais cuidados e manutenção
do que o tradicional e confiável Pára-FAL.
Acima A
eficiência da roupa de camuflagem (Ghilie Suit) utilizada
pelos caçadores (snipers) do EB na Amazônia é demonstrada
nesta foto (Foto: CIGS).
Mas as armas disponíveis para o uso na selva não
se resumem ao fuzil, à faca de combate e ao inseparável
facão de mato. Armas incomuns, como bestas e até mesmo
a tradicional zarabatana dos indígenas da região,
podem fazer parte do arsenal do guerreiro de selva. Os
modelos de bestas usados têm grande precisão
e poder de penetração, podendo atravessar
um corpo humano a quase 100 metros de distância.
Silenciosa e mortal, a besta é considerada uma arma
excelente para eliminar sentinelas. O mesmo se aplica à zarabatana,
principalmente associada a dardos com venenos cujo preparo é um
segredo bem guardado pelo EB e pelos soldados indígenas
que, em número cada vez maior, engrossam as fileiras
dos Batalhões de Selva na Amazônia, com excelente
avaliação por parte de seus comandantes.
A importante participação dos índios
brasileiros na formação das tropas de selva
brasileiras pôde ser exemplificada durante a Operação
Ajuricaba II, em outubro/novembro de 2003, quando as Forças
do Partido Azul, responsáveis pela defesa da região,
usaram soldados indígenas como rádio-operadores.
Falando em sua própria língua, eles evitavam
que as comunicações fossem decifradas pelas
forças invasoras, ou Partido Vermelho, compostas
por elementos da Brigada Pára-quedista, Fuzileiros
Navais e outras tropas de elite, sediadas em diferentes
regiões do país. Essas, diga-se de passagem,
tinham efetivos maiores e eram dotadas de armas e equipamentos
de alta tecnologia, tendo total controle sobre o espectro
eletromagnético na área da operação.
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Ao
lado Instrutor do CIGS durante aula do
COS a oficial da Legião Estrangeira da França,
um Comando do Exército Argentino e um membro
das Forças Especiais do Exército
do Equador (Foto: CIGS). |
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Num
conflito na Amazônia, as forças de selva
do EB agiriam em pequenas frações, mas capazes
de inflingir pesadas perdas ao adversário, fazendo
uso do seu conhecimento da floresta para desaparecer sem
deixar vestígios. Dentro deste espírito,
uma tática que voltou a ter força dentro
do EB nos últimos anos foi o emprego de equipes
de atiradores de elite (snipers), denominados
"caçadores"
no Exército. Uma equipe de caçadores é formada
por dois sargentos, sendo um o atirador (o sniper, propriamente)
e o outro o observador (spotter). A arma já testada
e aprovada para o uso por essas equipes é o fuzil
Imbel Fz .308 AGLC, de projeto e fabricação
nacionais. O AGLC é uma arma de precisão
baseada na ação Mauser, de reconhecida e
inegável confiabilidade e segurança. Com
um cano flutuante, tipo “match”, forjado a
frio e adaptado para o tiro com luneta, e usando munição
7,62 x 51mm, a arma saiu-se muito bem quando comparada
a diversos tipos de fuzis de precisão de fabricação
estrangeira. O tipo de camuflagem (ghillie suit)
usado pelas equipes de caçadores também já teve
sua eficiência determinada pelo trabalho do CIGS.
Outra arma testada e adotada para uso por tropas de selva é a
tradicional escopeta calibre 12, empregada pelos esclarecedores
dos grupos de combate. Como o esclarecedor é o elemento
que vai à frente da formação, precisa
de uma arma com o máximo de poder de fogo, para
a possibilidade de um encontro com uma patrulha inimiga.
Outras armas que tiveram seu uso aprovado para guerra na
selva graças aos estudos realizados pelo CIGS foram
o lança-granadas de 40 mm e o lança-chamas.
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Ao
lado Um “cachê” aberto,
mostrando seu conteúdo. No caso, rações
de combate. Camuflados, dificilmente são
percebidos pela tropa adversária, nativos
ou animais (Foto: Raimundo Valentim). |
Mas
o trabalho desenvolvido pelo CIGS em busca de meios que
possam fazer valer a chamada “estratégia
de resistência” foi ao ponto de testar e aprovar
o emprego da tradicional e popular carabina Puma, modelo
Winchester, de ação por alavanca, fabricada
pela empresa Amadeo Rossi, enquanto a Companhia Brasileira
de Cartuchos (CBC) fabrica sua munição, calibre
.38. A idéia por trás disso era encontrar
uma arma que fosse de fácil manuseio, relativamente
precisa e barata, que pudesse ser distribuída para
reservistas e mesmo entre a população civil,
no evento de uma intervenção militar estrangeira
na Amazônia, e cuja munição fosse facilmente
encontrada no comércio. Nos testes realizados pelo
CIGS, ficou demonstrado que a carabina Puma pode ser precisa
em distâncias superiores a 100 metros. Bons atiradores
conseguem tiros precisos a quase 200 metros. E, na opinião
dos oficiais instrutores do CIGS, 100 metros pode ser a
largura de uma margem a outra de um rio, separando o atirador
com a Puma de uma fração de tropa inimiga.
Uma tática desenvolvida pelo CIGS e já disseminada
entre as tropas de guerra na selva é o emprego de “cachês”,
como meio de pré-posicionamento de armas, munição,
medicamentos, rações e outros suprimentos
fundamentais às frações de tropa.
Os cachês são, basicamente, depósitos
de suprimentos enterrados, com a finalidade de ressuprimento
de tropas nacionais, que estejam operando em nosso território,
em área sob intervenção de uma nação
ou força multinacional incontestavelmente superior,
em meios, à brasileira. Os cachês são
enterrados em locais de difícil acesso e percepção
pelo invasor, mas de fácil abordagem pela tropa
interessada. Os buracos são resistentes a intempéries,
forrados por madeiras nas laterais e com drenagem no fundo,
sendo usados para acondicionar containers de fibra de vidro
com suprimento para pequenas frações (10
a 15 homens). A camuflagem dos “cachês” é tão
eficiente que não eles são percebidos por
animais ou nativos.
Ao
lado O CIGS deverá realizar em abril de
2004 a avaliação do Combat Boat CB90H, produzido
na Suécia, analisando seu uso da Bacia Amazônica
(Foto: Dockstavarvet AB).
O
trabalho do CIGS na avaliação de armas
e equipamentos, bem como de toda tática ou meio
que aumente as já superlativas capacidades dos guerreiros
de selva brasileiros, não pára. Ainda no
primeiro semestre de 2004, o CIGS deverá se envolver
na avaliação de um exemplar do Combat Boat
CB90H, uma lancha produzida pela empresa sueca Dockstavarvet
AB, que deverá enviar um exemplar a Manaus em abril.
O CB90H é capaz de transportar 20 soldados totalmente
equipados (o equivalente a cerca de 2,8 toneladas), em
velocidades de até 40 nós e com relativo
conforto, mesmo em condições climáticas
adversas, sendo capaz de realizar abicagens violentas em
praias ou margens de rios, ocupadas por forças adversárias.
As tropas desembarcam através de uma rampa lançada
por sobre a proa. O CB90 é largamente utilizado
pela marinha sueca (172 unidades do CB90H), e foi exportado
para a Noruega (20 CB90N), Malásia (17 CB90H) e
México (40 CB90H).
O projeto
Búfalo
Uma das primeiras preocupações do CIGS era
resolver a questão do transporte de armas, munição, água,
rações e outros equipamentos por frações
de tropa empenhadas na guerra de selva. Assim, na busca
de um meio de transporte eficiente e de baixo custo para
o ressuprimento nas operações na selva, tentou-se
a utilização de animais de carga ou que pudessem
ser adestrados para esse fim.
Uma das primeiras tentativas desenvolvidas pelo CIGS foi
durante o Comando do Cel Gélio Fregapani, com a
utilização de uma anta, criada desde cedo
no zoológico do Centro com este fim. A experiência
infelizmente não obteve sucesso, já que o
animal, selvagem, jamais aceitou que fosse transportada
qualquer carga nas costas.
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Ao
lado Um búfalo da raça Mediterrâneo
equipado com o colete especialmente desenvolvido
pelo CIGS para o transporte de suprimentos diversos.
O animal, equipado com este colete, suporta o seu
próprio peso em carga, ou cerca de 400 kg
(Foto: CIGS). |
Outra
tentativa, também frustrada, mas que começou
a demonstrar a validade do conceito da utilização
de animais, foi executada a partir de 1983 com a utilização
de muares. Estes, apesar de historicamente já haverem
sido bastante utilizados, não só pela população
civil como em operações militares, infelizmente
não se adaptaram à Amazônia, sendo
que o principal problema verificado foi de natureza veterinária.
O animal teve sérios problemas com apodrecimento
de cascos e doenças de natureza epidérmica.
Com a continuidade dos estudos chegou-se finalmente ao
búfalo, animal já criado com sucesso na Amazônia
em pelo menos quatro espécies, rústico e
com diversas características que foram ao encontro
das necessidades militares para o emprego de animais.
O chamado Projeto Búfalo nasceu em 2000, e tem demonstrado
ser uma das soluções para as necessidades
das tropas de selva brasileiras, devido à resistência
do animal, sua adaptação ao ambiente e, principalmente, à sua
capacidade de transportar 400 kg ou mais de carga no lombo,
ou até três vezes isso quando tracionando
carroças. A história completa do Projeto
Búfalo, por si só, já mereceria uma
matéria à parte, que poderá vir a
ser tratada em uma futura edição.
Defendendo
a brasileira Amazônia
Para os oficiais, subtenentes e sargentos do Exército
Brasileiro, completar o Curso de Operações
na Selva é uma das maiores honras a conquistar em
suas carreiras. O CIGS, que já formou quase quatro
mil especialistas em guerra na selva durante sua existência,
cumpre assim o seu papel de formulador da doutrina de guerra
na selva do Exército Brasileiro, pois esses oficiais
e sargentos, que tão duramente conquistaram o direito
de usar em seus uniformes o almejado “Brevê da
Onça”, agirão como elementos disseminadores
de tudo que aprenderam em sua passagem pelo CIGS, em toda
unidade por onde passarem em suas carreiras. Muitos retornarão
ao Centro, como instrutores, formando novas gerações
de guerreiros de selva. Após sua formação,
ao deixarem pela última vez a unidade, atravessando
o portão da guarda e ouvindo o tradicional grito
de “Selva!”, saberão que, na floresta,
nunca mais se sentirão como caça. São
agora caçadores, prontos a defender a brasileira
Amazônia. •
Cursos
e estágios
do CIGS
Os Cursos
de Operações na Selva (COS) são três:
1) COS Categoria “A” - Duração aproximada de seis semanas;
voltado para oficiais superiores de todos os Comandos Militares de Área.
2) COS Categoria “B” - Duração de dez semanas; voltado
para capitães e tenentes das Armas/Quadros/Serviços do Comando
Militar da Amazônia, da Marinha, da Aeronáutica e das Nações
Amigas.
3) COS Categoria “C” - Duração de dez semanas; para
subtenentes e sargentos das Armas/Quadros/Serviços do Comando Militar
da Amazônia, da Marinha, da Aeronáutica e das Nações
Amigas.
Os estágios oferecidos pelo CIGS destinam-se a:
- Militares do Exército, demais Forças Armadas e instituições
policiais (vida na selva e operações);
- Órgãos civis cujos conhecimentos básicos de vida na selva
são imprescindíveis para o desenvolvimento de suas atividades (INPA,
Petrobras, IBAMA, Universidade do Amazonas, Corpos de Bombeiros etc.).
Para ministrar a devida instrução, o CIGS conta com as seguintes
Bases de Instrução (BI)
BI 1 – Marechal Rondon
BI 2 – Plácido de Castro
BI 3 – Lobo D’Almada
BI 4 – Pedro Teixeira
BI 5 – Ajuricaba |