Acima
O Andrea Doria, visto na concepção
artística, é um navio bem maior do que o atual
navio-aeródromo italiano, o Giuseppe Garibaldi.
O
presente trabalho descreve o Andrea Doria, NAe
que, quando entrar em serviço em 2007, será
o maior navio de combate construído na Itália
desde o final da Segunda Guerra Mundial.
• Eduardo Italo Pesce
Para
seu segundo NAe, a Marina Militare escolheu um nome tradicional,
ostentado no passado por várias unidades navais italianas.
O número de unidades similares, atualmente sob encomenda
ou em fase de projeto para várias Marinhas, indica
um aumento do interesse por algum tipo de navio capaz de
operar com aeronaves de asa fixa e/ou helicópteros,
em missões de controle de área marítima
ou de projeção de poder sobre terra.
Quando entrar em serviço, em 2007, o navio-aeródromo
Andrea Doria (C552) se tornará a segunda
unidade operacional deste tipo na Marinha italiana. A primeira
foi o Giuseppe Garibaldi (C551), incorporado em
1985 (ver S&D n° 10, pgs. 18-20). A designação
oficial destes navios é incrociatore portaeromobili
(cruzador porta-aeronaves), e ambos destinam-se a operar
com aeronaves STOVL (Short Takeoff/Vertical Landing), de
decolagem curta (com o auxílio de uma rampa Ski Jump
na proa) e pouso vertical.
O contrato para construção do novo NAe italiano
foi assinado entre a Direzione Generale per gli Armamenti
Navali (NAVARM) e a empresa estatal Fincantieri, no dia
22 de novembro de 2000. O valor do contrato é de
aproximadamente 1.750 bilhões de liras, dos quais
140 bilhões destinam-se ao apoio logístico
integrado. A montagem e construção do casco,
nas instalações do estaleiro em Muggiano (seção
de vante) e Riva Trigoso (seções central e
de ré), próximo a Gênova, teve início
em julho de 2001.
Destinado a substituir o cruzador lança-mísseis
Vittorio Veneto (C550), o Andrea Doria foi originalmente
designado como Nuova Unitá Maggiore (NUM) e herdou
o nome de um cruzador lança-mísseis incorporado
em 1965. Uma segunda unidade daquela classe, o Caio
Duilio, também entrou em serviço em 1965,
tendo a baixa de ambas ocorrido no início dos anos
90.
Aqueles dois navios, assim como o Vittorio Veneto,
que entrou em serviço em 1969, eram dotados de lançadores
de mísseis superfície-ar a vante, para mísseis
de médio alcance Terrier/Standard, e de hangares
e conveses de vôo a ré, para helicópteros
anti-submarino orgânicos. A experiência com
a operação de tais belonaves levou a Marinha
italiana a incluir um pequeno NAe (que inicialmente operou
apenas com helicópteros) no programa da Legge Navale
(Lei Naval) de 1974-85.
Dimensões
e desempenho
Com 26.700t de deslocamento carregado, comprimento total
de 236,5m e boca moldada de 39,0m (limite imposto pela ponte
de Taranto), o Andrea Doria é bem maior
que seu antecessor, o Giuseppe Garibaldi. O desenvolvimento
do projeto NUM incluiu estudos para versões híbridas,
dotadas de doca para embarcações de desembarque,
mas resultou num NAe capaz de operar com um grupo aéreo
constituído por aeronaves STOVL e helicópteros,
além de embarcar um comando de força com seu
estado-maior e um contingente de tropas anfíbias
(ver quadro comparativo).
Os requisitos de estado-maior especificavam uma velocidade
máxima contínua de pelo menos 28 nós
(o navio deverá desenvolver cerca de 29 nós
de velocidade máxima), com capacidade de realizar
operações de vôo em condições
de mar desfavoráveis ou mesmo com ausência
de vento. A autonomia, necessária para permitir a
realização de operações em áreas
marítimas situadas a longa distância do litoral
italiano, será de 7 mil milhas marítimas a
16 nós, o que corresponde a cerca de 18 dias de navegação.
O navio será capaz de chegar ao Golfo Pérsico,
a cerca de 3.300 milhas marítimas de distância
de Taranto, sem escalas, utilizando cerca de 50% do combustível
transportado a bordo.
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Ao
lado O novo NAe italiano deverá operar
qualquer aeronave ainda em uso pela Marina Militare
Italiana, como os caças STOVL AV-8B Harrier II
e os helicópteros Agusta-Bell 212 vistos na foto,
bem como qualquer outra aeronave que venha a ser adquirida
(Foto: Marinavia). |
Propulsão
e habitabilidade
O sistema de propulsão será do tipo COGAG
(Combined Gas and Gas), com quatro turbinas a gás
GE-Fiat LM-2500, desenvolvendo uma potência total
de 88 MW (118.000 shp), com dois eixos e hélices
pentapás de passo controlado, além de sistemas
auxiliares de propulsão na proa e na popa. O sistema
de geração de energia elétrica será
de 660V e 50Hz, com uma potência total instalada de
17,5 MW. Um elevado nível de automação
de controle dos sistemas e equipamentos de bordo resultará
em significativa redução da tripulação,
possibilitando o transporte de um contingente de tropas
anfíbias com seu equipamento. O padrão de
habitabilidade das áreas de trabalho e dos alojamentos
também será elevado. Para minimizar o custo
de vida útil, foi adotado o conceito de apoio logístico
integrado, com ênfase na facilidade de manutenção
e na alta confiabilidade dos equipamentos.
Os requisitos de proteção ambiental do projeto
incluem medidas contra a poluição marítima
(controle de hidrocarbonetos e águas servidas), atmosférica
(controle de emissão de gases de descarga e eliminação
do CFC dos aparelhos de refrigeração), acústica
(controle do ruído das aeronaves) e eletromagnética
(controle das emissões eletromagnéticas).
Atenção especial será dada ao embarque
e armazenamento de provisões e ao tratamento dos
dejetos sólidos e líquidos.
Convés
de vôo e hangar
O Andrea Doria terá capacidade de operar
com todos os tipos de aeronaves atualmente em dotação
na Marinha italiana ou cuja aquisição futura
está prevista. Isto inclui helicópteros dos
tipos Bell 212AS, SH-3 Sea King, EH101 Merlin (e futuramente
NH90) e aeronaves STOVL dos tipos AV-8B Harrier II ou —
eventualmente — JSF (Joint Strike Fighter). O convés
de vôo terá 232,6m de comprimento por 34,5m
de largura, e a pista longitudinal de decolagem terá
180m de comprimento, com rampa Ski Jump de 12° na proa,
deslocada para bombordo em relação ao eixo
longitudinal do navio. Haverá seis spots a bombordo,
para decolagem e pouso de helicópteros. A boreste,
haverá espaço para o estacionamento de aeronaves
adicionais. Logicamente, a composição do grupo
aéreo embarcado vai variar de acordo com a missão
e com a disponilidade, mas uma combinação
típica — mostrada em alguma das ilustrações
liberadas pela Marina Militare — seria a de nove helicópteros
EH101 e cinco aeronaves AV-8B. Caso o hangar fosse utilizado
apenas para aeronaves, seria possível abrigar nele
até 12 EH101 ou oito AV-8B.
O hangar, com 134,2m de comprimento e 21,0m de largura,
terá aproximadamente 2.500m2 e capacidade para 12
helicópteros EH101 ou oito aeronaves STOVL. Será
ligado ao convôo por dois elevadores de 30t, ambos
a boreste, sendo um central e o outro lateral, respectivamente
a vante e a ré da ilha. Este hangar poderá
ser empregado, parcialmente ou totalmente, para o transporte
de viaturas sobre rodas ou lagartas.
Para o embarque e desembarque junto ao cais, haverá
duas rampas Roll-On-Roll-Off (uma a ré e uma a boreste),
com capacidade para viaturas de até 60t (peso do
carro de combate Ariete). No hangar poderão ser transportadas
até 100 viaturas leves (caminhões), 50 médias
(anfíbios AAV7 e blindados VCC80 Dardo) ou 24 pesadas
(MBT Ariete ).
Armamento
e proteção passiva
O sistema de combate do Andrea Doria será
dotado de todas as instalações de comando,
controle e comunicações necessárias
ao funcionamento de um comando de força combinada
ou interaliada. A bordo serão instalados o radar
de busca aérea de longo alcance RAN-40L (banda D)
e o de busca de superfície RASS, além de equipamento
IFF e de navegação. O navio terá ainda
sonar de localização de minas WASS, no bulbo
de proa.
Tais sistemas permitirão manter o controle da situação
aérea, de superfície e subaquática
numa área com 350 milhas marítimas de raio.
Dentro desta área, qualquer ameaça poderá
ser enfrentada, mediante emprego das aeronaves embarcadas
e do armamento do próprio navio, assim como das demais
unidades que compõem a força naval.
O principal armamento defensivo do navio será o sistema
de mísseis de defesa de ponto e área curta
SAAM/IT, com quatro conjuntos Sylver, cada um com oito lançadores
verticais para mísseis superfície-ar Aster
15 (cabeça de guerra de 13kg e alcance de 30km).
Em combinação com o radar multifunção
de varredura eletrônica AMS Empar (banda G) para vigilância,
rastreamento e direção simultâneos,
será possível enfrentar o ataque simultâneo
de até oito mísseis antinavio.
O armamento de bordo incluirá ainda: quatro tubos
lança-torpedos fixos de 324mm (usando torpedos A/S
MU-90 Impact), dois canhões OTO Melara de 76mm Super
Rapid; três canhões OTOBreda KBA de 25mm; previsão
para instalação do sistema de defesa aproximada
Davide. Os sistemas defensivos incluem ainda dois lançadores
de despistadores SCLAR-H (para chaff e flares) e dois lançadores
de despistadores anti-torpédicos SLAT.
A capacidade de proteção passiva da unidade
incorporará as mais recentes inovações
e incluirá sistemas de controle de avarias, combate
a incêndios e proteção NBQ (nuclear,
biológica e química). A fim de aumentar a
capacidade de sobrevivência do navio, ele será
dividido em sete zonas de segurança, o que possibilitará
enfrentar rapidamente qualquer situação de
emergência ou de risco. O Andrea Doria será
uma unidade de combate moderna, capaz de defender a soberania
e dos interesses da Itália, no mar ou em litorais
distantes, dentro da nova realidade estratégica do
Século XXI.
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Acima
e ao lado Desenho em duas vistas e concepção
em 3D do novo NAe italiano, o Andrea Doria.
Note o elevador lateral, similar ao usado nos Navios
de Assalto Anfíbios da US Navy. |
Conclusão
Dos nove países (Brasil, Espanha, Estados Unidos,
França, Grã-Bretanha, Índia, Itália,
Rússia e Tailândia) que atualmente possuem
navios-aeródromo ou navios de assalto anfíbio,
dotados de convés de vôo desobstruído,
apenas quatro (Brasil, EUA, França e Rússia)
possuem aeronaves embarcadas de tipo convencional, enquanto
seis (Espanha, EUA, Grã-Bretanha, Índia, Itália
e Tailândia) operam aeronaves STOVL.
Podemos dizer que o futuro da aviação embarcada
de cinco desses países (excluindo-se, logicamente,
os EUA) depende, em larga medida, do sucesso do projeto
JSF, visto que os dois tipos de aeronave STOVL embarcada
atualmente existentes, o Sea Harrier FA.2 britânico
e o AV-8B Harrier II norte-americano, serão provavelmente
substituídos pelo F-35B Joint Strike Fighter. Sem
dúvida, a dependência de uma só fonte
de fornecimento será um dos maiores inconvenientes
de tais aeronaves.
A Marinha Italiana recuperou o direito de possuir e operar
aeronaves de asa fixa no final dos anos 80, adquirindo um
lote de AV-8B para guarnecer o Giuseppe Garibaldi,
então seu único NAe. Estas aeronaves operarão
também a partir do Andrea Doria. A Itália
é um dos participantes do programa JSF e poderá
adquirir um lote de aeronaves STOVL da versão F-35B,
para equipar seus dois NAe.
O mercado potencial para aeronaves STOVL embarcadas inclui
os demais países que atualmente possuem navios equipados
com rampa Ski Jump, ou que poderão vir a
fazê-lo no futuro. Entre os possíveis candidatos
a operar um ou mais NAe, com dotação de aeronaves
STOVL, encontram-se o Japão, a Alemanha, a Coréia
do Sul e, possivelmente, a China. A Marinha do Brasil optou
pela manutenção de uma aviação
naval equipada com aeronaves convencionais, operando a partir
de um NAe de porte médio, dotado de catapultas a
vapor e de aparelho de parada. Apesar de seu maior custo,
em futuro previsível tal solução ainda
é a que oferece a melhor relação custo/benefício.
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